Peter PARKS/AFP
Peter PARKS/AFP

Ativistas pró-democracia se declaram culpados em julgamento e são detidos em Hong Kong

Joshua Wong, Ivan Lam e Agnes Chow assumiram responsabilidade sobre manifestações que deram início ao movimento de protesto na região, em junho de 2019

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2020 | 10h30

HONG KONG - O ativista Joshua Wong, um dos principais nomes do movimento pró-democracia de Hong Kong, e outros dois militantes foram detidos nesta segunda-feira, 23, depois que se declararam culpados por seu papel nas manifestações de 2019. 

Joshua Wong, 24 anos, é julgado ao lado de outros dois famosos dissidentes, Ivan Lam, 26, e Agnes Chow, 23, por uma manifestação organizada diante da sede da polícia de Hong Kong em 21 de junho de 2019, alguns dias após o início do movimento de protesto.

"Nós três decidimos nos declarar culpados de todas as acusações", declarou Wong à imprensa ao chegar ao tribunal.

Desde o ano passado, a ex-colônia britânica vive a pior crise política desde a devolução a Pequim em 1997, com protestos quase diários para criticar a influência da China na região semiautônoma.

Apesar da dimensão do movimento de protesto, que incluiu manifestações com mais de um milhão de pessoas, o Executivo de Hong Kong, alinhado com Pequim, não fez nenhuma concessão importante aos ativistas.

Além disso as autoridades responderam com uma repressão vigorosa. "Não seria surpreendente que eu fosse detido hoje mesmo", disse Wong antes da audiência.

Os três ativistas estão em prisão provisória.

"Continuaremos lutando pela liberdade, e agora não é momento de nos prostrarmos diante de Pequim e nos rendermos", completou Wong, que no verão de 2014 se tornou o rosto visível do "Movimento dos Guarda-Chuvas."

"Não nos arrependemos", afirmou Ivan Lam.

Durante a audiência, Wong se declarou culpado de incitar e organizar uma concentração ilegal; Lam, de incitar a manifestação e Chow, de incitar e participar no protesto.

Ativista veterano

Com o lançamento de ovos e grafites, os manifestantes vandalizaram a sede da polícia e várias delegacias para exigir uma investigação independente da suposta violência cometida pelas forças de segurança.

Lam, Wong e Chow estão sendo processados por incitação, organização e participação em uma concentração ilegal.

Chow já havia anunciado a intenção de declarar sua culpa, uma estratégia que pode resultar em uma condenação a uma pena menor. Mas Wong e Lam afirmaram em um primeiro momento que rejeitariam as acusações. Eles podem receber sentenças de até cinco anos de prisão.

Apesar de sua juventude, Wong já foi preso e é um veterano da militância política. Com 13 anos, ele participou em um movimento de protesto contra um serviço de alta velocidade para ligar Hong Kong à China continental.

Em 2011 participou na fundação do Scholarism, um grupo estudantil que protestou contra - e venceu - a introdução de aulas de patriotismo chinês. Com 15 anos, ele chegou a fazer uma greve de fome diante da sede do governo local.

Mas foi com o seu envolvimento no "Movimento dos Guarda-Chuvas" que ganhou fama em 2014.

Além do sufrágio universal real, os manifestantes ocuparam o centro de Hong Kong durante 79 dias para exigir que a China deixe de interferir nas questões de Hong Kong, um território que supostamente deveria ter autonomia até 2047.

Mas seis anos depois do movimento, os temores dos ativistas foram concretizados com a lei de Segurança Nacional que Pequim impôs em Hong Kong em 30 de junho, com as ondas de detenções, as restrições às liberdades e o exílio de parte da população.

Wong está agora no centro de vários processos judiciais. Em 2019 apresentou sua candidatura para as eleições locais, assim como para as próximas legislativas, mas seu pedido não foi validado.

Além de seu envolvimento no movimento de 2019, ele está sendo processado por participação, em junho, na tradicional vigília anual de recordação da repressão de Tiananmen (Praça da Paz Celestial) de 1989, evento que foi proibido pela primeira vez, oficialmente devido ao novo coronavírus./AFP

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