Ativistas relatam dia a dia em Raqqa

Militantes relatam abusos de radicais na internet

O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2015 | 02h04

A voz ao telefone era clara e grave:. "Não me ligue a não ser que eu ligue para você", disse o homem, que também parecia nervoso, antes de desligar em Raqqa, capital autoproclamada do Estado Islâmico (EI), no norte da Síria.

Chamadas como essa, que representam um imenso perigo para uma rede de ativistas clandestinos que vivem sob o controle do EI, são a vida de um grupo chamado Raqqa Está Sendo Massacrada Silenciosamente (RBSS em inglês), organizado para denunciar as atrocidades dos extremistas sunitas em postagens no Facebook e Twitter.

Formado por cerca de duas dúzias de jovens sírios com idades próximas dos 20 anos, que aprimoraram seu ativismo - e as técnicas de subterfúgios - durante o levante contra o presidente Bashar Assad em 2011, o RBSS se tornou uma das principais fontes de notícias e informações da vida dentro do EI.

Os ativistas lançaram sua campanha em 2014, numa época em que o mundo ainda conhecia pouco a ameaça dos extremistas que avançavam descontrolados pela Síria, decapitando opositores, crucificando os críticos e impondo outros castigos rigorosos.

"O que não queremos é deixar que apenas o EI conte a história, com as pessoas de fora dizendo que não há provas da infelicidade daqueles que vivem sob o controle do grupo." Esse é um dos principais objetivos, disse Abu Mohammed, de 26 anos, ex-estudante de direito e outro dos fundadores do grupo, que trabalha no pequeno escritório da organização em Gaziantep, na Turquia.

Para o RBSS, a discrição é fundamental. O grupo funciona com células e os ativistas na Síria desconhecem em geral a identidade dos membros fora do país, para não revelarem nomes em caso de captura e tortura. Eles usam software criptografado para se comunicar, jamais revelam sua filiação e mudam de local com frequência, de acordo com um dos membros do grupo, que usa o pseudônimo Taim Ramadan e até o mês passado enviava material para publicação.

"Somos ativistas não violentos. Não podemos enfrentar o EI com armas. Só podemos combatê-los com palavras", disse ele. "Para nos derrotar, eles teriam de desligar a internet. E não podem fazer isso, pois todos eles usam a internet." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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