AFP PHOTO / WAKIL KOHSAR
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Atletas mulheres do Afeganistão sofrem com medo e frustração por terem tratamento diferenciado

Dezenas delas já deixaram o país para tentar escapar das ameaças de morte e de sequestradores

O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2016 | 09h00

CABUL - Seus nomes aparecem no jornal e na televisão dando rosto a milhões de mulheres condenadas a escondê-lo sob uma burca no Afeganistão, mas a fama para uma esportista neste país pode ser uma sentença de morte além de um castigo que já levou dezenas delas a fugirem nos últimos anos.

Tamana Talash Frotan suportou durante muito tempo o assédio diário dos meninos que a incomodavam por fazer esporte. Um dia se cansou, deu meia volta e bateu em um deles, deixando-o muito zangado.

O agressor, surpreendido e enfurecido, tentou reprimir a resposta da campeã de taekwondo de 53 kg com um soco, mas a jovem transformou o ato em uma humilhação ainda maior para ele. "Senti-me livre e forte", disse Tamana com um sorriso no rosto.

A felicidade do relato se perde logo em seguida quando conta, com pesar, como é ter sido 16 vezes campeã em seu país e ter conseguido 2 títulos internacionais, e mesmo assim continuar enfrentando problemas que não esperava.

"Comecei fazendo taekwondo em razão de minha saúde, para estar em forma", lembra ela. "A princípio não havia nenhum problema, mas quando comecei a ganhar medalhas começou a me preocupar", explicou a jovem, também estudante de medicina.

Tamana assegura que "quando uma menina fica famosa é um problema nesta sociedade" e também para as famílias, que terminam vivendo entre o medo de que lhes aconteça alguma coisa e a frustração de não entender os motivos pelos quais não podem ser como todas as demais.

"Se fico mais famosa então serei sequestrada ou alguém vai querer matar a mim ou a minha família", resumiu a jovem. "Eu gostaria de ser homem", disse.

Dezenas de atletas, lutadoras e esportistas em geral deixaram o Afeganistão nos últimos anos por culpa dessa incompreensão familiar e social, a falta de recursos para praticar suas modalidades e, sobretudo, o risco de se transformar em vítima dos sequestradores ou dos taleban.

O vice-secretário-geral do Comitê Olímpico afegão, Mirwais Bahawi, reconheceu que "é difícil dar um número exato de mulheres esportistas que saíram do país, porque durante os últimos anos dezenas delas, o que é um número grande, o fizeram". "Algumas inclusive quando estavam de viagem por países ocidentais", afirmou.

Entre elas, figuram os nomes da atleta Tahmina Kohistani, que participou dos Jogos de Londres nos 100 metros, e da lutadora de taekwondo Humaira Mohammadi, que optaram por seguir com o esporte longe do Afeganistão.

"Quando um esportista, particularmente mulher, se torna famoso e atrai a atenção, os problemas de segurança automaticamente se multiplicam contra si", disse Bahawi. "Temos exemplos de mulheres que receberam ameaças de morte e avisos que se tornaram alvo prioritário para os sequestradores", explicou.

Como consequência, as famílias procuram protegê-los, mas não contam com fundos para tudo, por isso ficam sem recursos para ajudá-los a desenvolver suas atividades esportivas.

Tamana sabe que tem uma grande responsabilidade com o resto das meninas de seu país, mas não sabe explicar por que no Afeganistão há coisas que não pode fazer, como abrir um ginásio. "Minhas colegas de classe dizem que querem seguir meu exemplo, eu ajudo quem está fora de forma, para que percam peso", disse sorrindo.

Apesar dos avanços que aconteceram no país para as mulheres, após a saída dos telaben do poder com a invasão americana de 2001, Tamana se mostra muito cética e afirma que ela não vê diferenças. "Você trabalha abnegadamente, fica muitas horas no ginásio, embora nem tantas quanto quer, em razão da falta de recursos e de segurança para ir e voltar para sua casa. Todos os problemas têm uma única solução: ir embora do país". / EFE

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