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Ato em memória de Nisman vira teste para Cristina

Argentinos saem às ruas hoje em protesto convocado pelo MP e o Judiciário, que acusam o governo de ingerência no trato do caso

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2015 | 02h03

Um mês depois de o promotor Alberto Nisman ter sido encontrado morto com um tiro na cabeça em seu apartamento, os argentinos fazem hoje uma marcha que medirá a popularidade da presidente Cristina Kirchner. Seu governo se opôs radicalmente à manifestação, convocada por setores do Judiciário e do Ministério Público que acusam o Executivo de influenciar a investigação e atentar contra a independência dos poderes.

Nisman morreu quatro dias depois de atribuir à presidente o papel de líder de um plano para acobertar altos funcionários iranianos indiciados pelo atentado que matou 85 em uma associação judaica em 1994 em Buenos Aires. Segundo ele, gravações comprovariam que um pacto para que os acusados iranianos fossem ouvidos em seu país - o que nunca ocorreu - foi feito em troca de acordos comerciais com Teerã.

Na sexta-feira, o promotor Gerardo Pollicita avançou sobre o trabalho de Nisman e indiciou a presidente, o chanceler Héctor Timerman e outros funcionários kirchneristas (mais informações nesta página). Isso distanciou ainda mais o governo da mobilização - a presidente a criticou abertamente e antecipou seu retorno do sul do país para comandar um ato em Buenos Aires hoje que será transmitido pelo canal de televisão público.

A partir de hoje, o juiz Daniel Rafecas, especialista em direitos humanos e no Holocausto, decidirá se leva adiante os pedidos de reunião de novas provas solicitadas por Pollicita. Entre as medidas, estão inspeções policiais na residência e no trabalho de suspeitos e degravação de escutas - estima-se que Nisman tenha reunido mais de 500 horas conversas grampeadas. A segurança de Pollicita e Rafecas foi reforçada.

O promotor-geral da Câmara de Recursos Criminais, Ricardo Sáenz, afirmou que tecnicamente o juiz pode decidir que não há elementos fortes na denúncia e ignorar a apresentação de Pollicita. Mas completou que não acredita que o fará, "não porque não seria conveniente politicamente", mas por estar convencido de que "a denúncia de Nisman se sustenta".

Segundo o sociólogo Atilio Borón, da Universidade de Buenos Aires (UBA), há fatores prévios à morte que explicam a relação conturbada entre os poderes. "É um ato controvertido, não é simplesmente algo para homenagear o promotor morto, algo de interesse republicano. Há alguns meses, houve uma mudança no código civil que incomodou muitos juízes, muitos dos quais estão na marcha. Não há inocentes aqui", disse ao Estado o analista, para quem o kirchnerismo prejudicado do caso. Pré-candidatos governistas na eleição de outubro, como o governador de Buenos Aires, Daniel Scioli, tiveram leve queda em pesquisas recentes.Na opinião de Borón, o governo errou ao não emitir uma nota de pêsames e ainda fazer apostas sobre o que ocorreu com Nisman. "Não havia sentido em ficar opinando se foi um homicídio ou um suicídio", avalia Borón.

Logo após a morte, Cristina publicou no Facebook uma carta em que dizia tratar-se de um suicídio. Em seguida, mudou sua versão para um "homicídio com objetivo de prejudicá-la". Na semana passada, o secretário-geral da presidência, Aníbal Fernández disse que o governo novamente considerava que Nisman havia se matado, provavelmente por não ter conseguido elementos para levar adiante suas denúncias - o promotor esclareceria suas acusações no dia seguinte no Congresso.

Prévia. Os ataques do governo à mobilização foram explícitos. Cristina disse no domingo que "deixaria o ódio para eles". Seus assessores diretos desqualificaram os autores da convocação, a quem chamaram de aliados da ditadura, defensores de narcotraficantes e ladrões de crianças.

A agressividade surpreendeu analistas diante do número de entidades que apoiaram a iniciativa, como a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia), alvo do atentado. Uniram-se à iniciativa pré-candidatos da oposição na eleição presidencial, outras entidades judaicas, sindicatos, organizações católicas e ONGs. "A tática de Cristina é dobrar a aposta. Não tem o costume de recuar", disse ao canal TN o historiador e filósofo Juan José Serbreli, crítico do kirchnerismo.

"Ficamos com o canto, a alegria e deixamos eles com o silêncio", disse a presidente na quinta-feira, referindo-se ao silêncio prometido para o ato, que percorrerá os principais prédios políticos de Buenos Aires. Estão previstas manifestações semelhantes em províncias do interior do país.

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