Ato em Teerã vai testar regime, diz dissidente iraniano

Governo e oposição no Irã divergem sobre levante no Egito

NEIL MACFARQUHAR, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2011 | 00h00

Mehdi Karroubi, um dos líderes da oposição iraniana, disse na terça-feira que a manifestação marcada a próxima semana, em Teerã, supostamente em solidariedade aos movimentos de protesto no Egito e na Tunísia, pretende ser um teste para o governo e para a oposição.

Teerã define os acontecimentos no Cairo e em outros países da região como o tão esperado fruto de sua própria Revolução Islâmica, logo, negar a autorização para a manifestação mostraria que o apoio expresso aos movimentos árabes é uma mentira, disse Karroubi em uma rara entrevista em Teerã, realizada por vídeo pela internet.

Para a oposição iraniana, os acontecimentos no Cairo refletem os protestos ocorridos depois das eleições no Irã, em 2009, e não a Revolução Islâmica de 1979, e poderiam dar nova vida ao movimento verde pelas reformas políticas, que, segundo Karroubi, foi reprimido a ponto de ceder à opressão do governo.

"Qualquer acontecimento que envolva o levante do povo e a luta contra a ditadura no mundo muçulmano e no mundo árabe nos beneficia", disse Karroubi. "A próxima segunda-feira será um teste para o movimento verde; se o governo conceder a autorização, haverá uma manifestação enorme e isso mostrará que o movimento verde está muito vivo."

No Irã, ambas as partes apostam no resultado no Egito por suas possíveis repercussões para o país. Há uma relação imperfeita entre os dois países: a antiga inimizade entre persas e árabes estendeu-se até a era moderna, amplificada pelo fato de que a maioria dos iranianos é muçulmana xiita, enquanto os países árabes são majoritariamente sunitas.

Entretanto, os acontecimentos em um dos países poderão encontrar eco no outro. Por exemplo, nos últimos anos, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, conseguiu grande popularidade entre os árabes por sua postura intransigente em relação aos EUA e a Israel.

Teerã tentou valer-se de sua posição na disputa árabe-israelense como meio de influenciar os países árabes. Agora, quer definir a agitação política do Egito, da Tunísia e de outros países africanos como a consequência tardia da Revolução Islâmica na região. Na sexta-feira da semana passada, o líder supremo do Irã, aiatolá Khamenei, pronunciou um sermão elogiando os manifestantes.

Karroubi, ex-candidato presidencial e presidente do Parlamento, disse que todas as notícias da imprensa oficial iraniana em geral destacam as declarações das organizações islâmicas e enfatizam as preocupações do Ocidente com a possibilidade de a Irmandade Muçulmana triunfar no Egito. Daí a pressão sobre o governo iraniano para permitir a manifestação no centro de Teerã, na segunda-feira, apesar do risco de que possa se transformar em comício contra o governo, como não acontecia havia um ano.

"Se eles não permitirem que seu próprio povo proteste, estarão sendo incongruentes com o que afirmam, e sua suposta aprovação dos protestos no Egito será uma mentira", disse Karroubi.

Objetivos. Alguns analistas e membros da oposição criticaram a manifestação planejada, sugerindo que é improvável que o governo autorize sua realização, enfraquecendo ainda mais o movimento. Tampouco está claro quantas pessoas participariam, enquanto alguns acham que o movimento verde não tem os mesmos objetivos claros que inspiraram os manifestantes no Egito.

"Na oposição iraniana não existe consenso em relação ao que se pretende - a reforma da República Islâmica, o fim da República Islâmica?", observou Karim Sadjadpour, analista iraniano do Carnegie Endowment for International Peace. "Será difícil convencer as pessoas a ir para a rua por propósitos ambíguos."

Embora reconheça que o ativismo se apagou em razão da violenta repressão, Karroubi disse que os verdes continuam trabalhando pelos mesmos objetivos: eleições livres, liberdade de reunião e liberdade de expressão.

O movimento tentou destacar até que ponto é incongruente a atitude do governo iraniano que oprime o povo e, ao mesmo tempo, aplaude os protestos políticos em outros países.

O site de Mir Hussein Moussavi, outro líder da oposição, mostrou recentemente duas imagens lado a lado. Uma mostrava a polícia egípcia espancando um manifestante, a outra exibia ação semelhante das forças de segurança de Teerã. A legenda da primeira foto dizia que o manifestante egípcio era "heroico", enquanto o do Irã era um "agente do imperialismo".

Karroubi disse que vive praticamente em prisão domiciliar, com dois ou três veículos em frente de sua casa lotados de guardas durante a maior parte do dia, impedido de receber visitas. Contou ter conseguido planejar a convocação para o protesto com Moussavi, porque ambos se encontraram recentemente em uma vigília, mas seus contatos são limitados. Ainda não decidiram se a manifestação no centro da capital será silenciosa. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É JORNALISTA E ESCRITOR

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