Bobby Yip/Reuters
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Ato para legitimar Kim Jong-un reúne 50 mil

Elite militar da Coreia do Norte jura lealdade até a morte ao herdeiro da dinastia comunista em cerimônia em Pyongyang

Cláudia Trevisan e Lisandra Paraguassu, de O Estado de S. Paulo,

14 de abril de 2012 | 18h42

PYONGYANG - Cinquenta mil pessoas juraram ontem em uníssono dar a vida para defender Kim Jong-un, em evento que consolidou sua posição como novo líder norte-coreano e reafirmou o culto a seu avô, Kim Il-sung, cujo centenário será celebrado hoje. A demonstração de unidade em torno do jovem de 29 anos ocorreu ao fim de uma semana na qual ele foi indicado para os cargos máximos de comando do país, o que concluiu a transição iniciada em dezembro, quando morreu seu pai, Kim Jong-il.

Na sexta-feira, Kim Jong-un foi nomeado primeiro presidente da Comissão Nacional de Defesa, o cargo mais alto na estrutura de comando da Coreia do Norte. Dois dias antes, ele já havia assumido o posto de primeiro secretário-geral do Partido dos Trabalhadores. Kim Jong-un é o terceiro Kim a assumir o comando do país, em um processo que começou em 2010, quando foi indicado por seu pai, Kim Jong-il, como herdeiro da primeira dinastia comunista do mundo.

A Reunião Nacional do Centenário, no Estádio Kim Il-sung, no centro da capital, foi um evento para reafirmar o poder da dinastia e a veneração ao fundador do país. Enquanto se reforçava o mito de Kim Il-sung, garantia-se também a lealdade e veneração ao novo líder. “Todos os soldados e o povo coreanos estão totalmente determinados a devotar sua vida a nosso respeitado camarada Kim Jong-un e defendê-lo até a morte”, disse o major Jiang Chol-hyok, um dos participantes no evento.

Durante uma hora, o chefe do presidium da Assembleia Popular Suprema, Kim Yong-nam, discursou para uma plateia de militares e civis hipnotizados. Sentados todos na mesma posição, com roupas semelhantes e gestos idênticos, os norte-coreanos aplaudiam e ovacionavam de forma sincronizada, em um movimento que parece ter sido incutido nas suas vidas há tempos.

“O camarada Kim Il-sung fundou nossa república e fez uma grande diferença na vida das pessoas e no destino do nosso país sob os ideais Juche e Songun”, discursou Kim Yong-nam, louvando as ideologias de “autossuficiência” e de “militares antes de tudo”, desenvolvidas por Kim Il-sung e Kim Jong-il para guiar a Coreia do Norte.

Pelo menos um terço dos convidados para a cerimônia era de militares, que também integram a elite do país, concentrada na tribuna em torno de Kim Jong-un. Pelo menos dois dos cinco membros do Comitê Permanente do Politburo também pertencem ao Exército, mostrando a força da filosofia implantada por Kim Jong-il de colocar a defesa do país acima de tudo. São eles o general Chol Ryong-hae, e o chefe do Estado-maior conjunto das Forças Armadas, Ri Yong-ho.

Na celebração do centenário do patriarca, o neto Kim Jong-un assumiu definitivamente o papel que lhe cabe como herdeiro da liderança norte-coreana. “Nós sacrificaremos nossas vidas para defender Kim Jong-un”, saudavam os presentes, todos de mãos levantadas, virados para o novo líder. Na tribuna, vestido de preto, com um enorme relógio prateado na mão esquerda, sua única joia, Kim Jong-un recebia as ovações com a complacência aprendida em família. Ao sair da tribuna, acenava calmamente para o público, que mal o podia ver em meio a dezenas de seguranças.

O novo líder norte-coreano preside hoje a gigantesca parada em homenagem aos 100 anos de seu avô.

Sul-coreano fugiu para o Norte após 30 anos na prisão

Ri Chae-ryong nasceu em 1944, um ano antes da divisão da Coreia, em uma região que ficou sob domínio do sul capitalista.

Aos 27 anos, foi preso sob acusação de conspirar em favor do inimigo do Norte. Passou 30 anos atrás das grades e só foi libertado no ano 2000, quando se mudou para a Coreia do Norte.

Ontem, ele participava de celebração em Pyongyang ao lado de outros sobreviventes do grupo de 63 coreanos que foram libertados pelo governo da Coreia do Sul naquele ano e autorizados a se transferir para o vizinho comunista.

“Eu fazia parte do movimento pela reunificação da Coreia quando fui preso”, disse Ri. Como todos, carregava no lado esquerdo do peito os botoms com as imagens de Kim Il-sung, o fundador do país, e seu filho, Kim Jong-il, que morreu em dezembro. Do direito, pendia a Medalha da Reunificação.

Segundo Ri, valeu a pena trocar o sul pelo norte, ainda que a experiência adulta no regime de Seul tenha se restringido à prisão. “Eu era solteiro quando vim para cá. Agora tenho uma bela mulher e uma filha.”

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