Ato para legitimar Kim Jong-un reúne 50 mil

Elite militar da Coreia do Norte jura lealdade até a morte ao herdeiro da dinastia comunista em cerimônia em Pyongyang

CLÁUDIA TREVISAN , LISANDRA PARAGUASSU , ENVIADAS ESPECIAIS / PYONGYANG, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2012 | 03h03

Cinquenta mil pessoas juraram ontem em uníssono dar a vida para defender Kim Jong-un, em evento que consolidou sua posição como novo líder norte-coreano e reafirmou o culto a seu avô, Kim Il-sung, cujo centenário será celebrado hoje. A demonstração de unidade em torno do jovem de 29 anos ocorreu ao fim de uma semana na qual ele foi indicado para os cargos máximos de comando do país, o que concluiu a transição iniciada em dezembro, quando morreu seu pai, Kim Jong-il.

Na sexta-feira, Kim Jong-un foi nomeado primeiro presidente da Comissão Nacional de Defesa, o cargo mais alto na estrutura de comando da Coreia do Norte. Dois dias antes, ele já havia assumido o posto de primeiro secretário-geral do Partido dos Trabalhadores. Kim Jong-un é o terceiro Kim a assumir o comando do país, em um processo que começou em 2010, quando foi indicado por seu pai, Kim Jong-il, como herdeiro da primeira dinastia comunista do mundo.

A Reunião Nacional do Centenário, no Estádio Kim Il-sung, no centro da capital, foi um evento para reafirmar o poder da dinastia e a veneração ao fundador do país. Enquanto se reforçava o mito de Kim Il-sung, garantia-se também a lealdade e veneração ao novo líder. "Todos os soldados e o povo coreanos estão totalmente determinados a devotar sua vida a nosso respeitado camarada Kim Jong-un e defendê-lo até a morte", disse o major Jiang Chol-hyok, um dos participantes no evento.

Durante uma hora, o chefe do presidium da Assembleia Popular Suprema, Kim Yong-nam, discursou para uma plateia de militares e civis hipnotizados. Sentados todos na mesma posição, com roupas semelhantes e gestos idênticos, os norte-coreanos aplaudiam e ovacionavam de forma sincronizada, em um movimento que parece ter sido incutido nas suas vidas há tempos.

"O camarada Kim Il-sung fundou nossa república e fez uma grande diferença na vida das pessoas e no destino do nosso país sob os ideais Juche e Songun", discursou Kim Yong-nam, louvando as ideologias de "autossuficiência" e de "militares antes de tudo", desenvolvidas por Kim Il-sung e Kim Jong-il para guiar a Coreia do Norte.

Pelo menos um terço dos convidados para a cerimônia era de militares, que também integram a elite do país, concentrada na tribuna em torno de Kim Jong-un. Pelo menos dois dos cinco membros do Comitê Permanente do Politburo também pertencem ao Exército, mostrando a força da filosofia implantada por Kim Jong-il de colocar a defesa do país acima de tudo. São eles o general Chol Ryong-hae, e o chefe do Estado-maior conjunto das Forças Armadas, Ri Yong-ho.

Na celebração do centenário do patriarca, o neto Kim Jong-un assumiu definitivamente o papel que lhe cabe como herdeiro da liderança norte-coreana. "Nós sacrificaremos nossas vidas para defender Kim Jong-un", saudavam os presentes, todos de mãos levantadas, virados para o novo líder. Na tribuna, vestido de preto, com um enorme relógio prateado na mão esquerda, sua única joia, Kim Jong-un recebia as ovações com a complacência aprendida em família. Ao sair da tribuna, acenava calmamente para o público, que mal o podia ver em meio a dezenas de seguranças.

O novo líder norte-coreano preside hoje a gigantesca parada em homenagem aos 100 anos de seu avô.

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