Ato reúne 50 mil em Kiev e aumenta pressão contra governo da Ucrânia

Cerca de 50 mil pessoas se reuniram ontem no centro da capital ucraniana, Kiev, no mais importante protesto pró-Europa desde os confrontos do dia 22 entre manifestantes e a tropa de choque da polícia. A mobilização aconteceu dois dias depois de as Forças Armadas exortarem o presidente Viktor Yanukovich a dissolver os protestos em no máximo 15 dias, alegando que a integridade territorial do país está ameaçada.

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / KIEV, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2014 | 02h06

A reunião na Praça Independência, ou Euromaidan - "Europraça", como foi apelidada pela multidão -, começou no final da manhã, pelo horário local. Com céu azul e temperatura de -15ºC, milhares de homens, mulheres e crianças, jovens e idosos se reuniram em frente a um palanque, montado entre dezenas de barricadas de até três metros de altura que isolam a região. Com bastões nas mãos, milicianos - a maioria mascarada e em trajes militares -realizavam a "patrulha" da área, em sinal de resistência à polícia.

Entre os líderes políticos que discursaram, Vitali Klitschko, campeão de boxe e líder da Aliança Democrática Reformista Ucraniana (UDAR), foi o mais aplaudido. No sábado, ele foi o destaque de uma conferência sobre a crise na Ucrânia organizada pelo governo da Alemanha em Munique, da qual participaram integrantes do governo e oposicionistas. No evento, Klitschko recebeu o apoio do secretário de Estado americano, John Kerry, e do ministro das Relações Exteriores da França, Laurent Fabius.

Prestigiado, o boxeador pediu a ajuda "dos amigos da democracia" para a causa. "Queremos a libertação de todas as pessoas presas, o retorno à Constituição de 2004, a modificação das leis eleitorais e eleições presidenciais e parlamentares antecipadas", defendeu.

Ontem, Klitschko motivou a população favorável à integração com a Europa a continuar a pressionar o governo, que, segundo ele, vacila. "As autoridades estão tremendo", disse o campeão de pesos pesados. "Nós temos de mostrar a força dos protestos cidadãos, porque a crise resultará em eleições e no final do regime de Yanukovich."

Outro a discursar foi Iuri Lutsenko, ministro do Interior no governo da ex-primeira-ministra Yulia Tymoshenko, hoje presa. Denunciando o cancelamento do acordo de associação entre a Ucrânia e a União Europeia e a "venda" do país à Rússia de Vladimir Putin, Lutsenko exortou a multidão a criar "grupos de autodefesa" em todo o país para resistir à eventual ofensiva da Berkout, a temida tropa de choque ucraniana. "Será a melhor garantia contra um banho de sangue", afirmou.

Militares. As declarações criam ainda mais instabilidade política no país. Isso porque na sexta-feira as Forças Armadas emitiram uma nota oficial na qual exigiram que o presidente Yanukovich encerre a crise política em até 15 dias.

O pronunciamento deu origem a temores de golpe militar na Ucrânia. Protestando ontem, Irina Koniakov, 46 anos, disse não temer a intervenção dos militares. "Não creio que Yanukovich esteja ameaçado de golpe. Nem que ele esteja doente", disse ela ao Estado, antecipando-se à pergunta iminente: "Para mim, ele está apenas tentando ganhar tempo. Se conseguir, vai vencer, porque esse movimento não pode durar para sempre".

Sobre a saúde do chefe de Estado, ontem um dos coordenadores da equipe médica da presidência, Oleksandr Orda, divulgou nota oficial informando que Yanukovich deve retornar às suas funções hoje, após ter se licenciado para tratamento de uma infeção respiratória. "Depois do tratamento necessário, o presidente da Ucrânia se sente bem e sua saúde é satisfatória", afirmou o médico.

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