Ahmad Al-Rubaye/AFP
Ahmad Al-Rubaye/AFP

Atos no Iraque têm como alvo a influência em alta do Irã no país vizinho

Sob Saddam Hussein, o Irã já tinha cultivado uma importante rede de opositores do ditador sunita e apoiadores da causa xiita ou curda; agora, Teerã se compromete com esses setores que hoje estão no poder no Iraque

Maya Gebeily*, France Presse

30 de novembro de 2019 | 06h00

Com uma audácia até agora exibida apenas nas regiões sunitas – minoritárias no Iraque, onde dois terços dos habitantes são xiitas –, manifestantes queimaram na quarta-feira o consulado do Irã em Najaf e os quartéis generais das facções armadas pró-Irã, que formam o segundo bloco do Parlamento iraquiano.

Eles também expressaram sua rejeição às visitas do todo-poderoso general iraniano Qasem Soleimani, encarregado das operações externas dos Guardiães da Revolução. Esse general conseguiu unir os partidos no Iraque em torno do premiê Adel Abdel Mahdi.

Os manifestantes iraquianos também acusam seu vizinho de destruir a indústria do Iraque ao inundar o mercado com produtos como carros e tomates. “O sentimento anti-Irã não é novo, mas sim o modo como é expresso”, diz Fanar Haddad. “A raiva está concentrada no sistema político iraquiano e, naturalmente, se estende ao Irã, pois é impossível dissociá-los”, diz o especialista.

Sob Saddam Hussein, o Irã já tinha cultivado uma importante rede de opositores do ditador sunita e apoiadores da causa xiita ou curda. Agora, Teerã se compromete com esses setores que hoje estão no poder no Iraque. Além disso, o Irã se tornou um elemento indispensável para o fornecimento de eletricidade e gás ao Iraque.

Quando os protestos começaram, em 1.º de outubro, exigindo serviços públicos eficazes, fornecimento confiável de eletricidade e empregos em um país onde várias fábricas permanecem fechadas desde a invasão dos EUA, em 2003, os manifestantes rapidamente direcionaram sua raiva contra o Irã.

“A prosperidade prometida após a vitória de dois anos atrás sobre os jihadistas do Estado Islâmico ainda não chegou”, avalia Maria Fantappie, do centro de estudos International Crisis Group. E, além disso, a classe política não foi renovada no Iraque, ostentando o posto de 12.ª mais corrupta do mundo. “A revolta levantou a tampa de uma panela que já estava fervendo”, diz a especialista. “Disso emergiu o sentimento anti-Irã.”

Mas os especialistas alertam que as crescentes críticas ao Irã no Iraque podem provocar como reação uma repressão mais violenta. “O incêndio do consulado (em Najaf) obviamente abala o Irã, mas também pode ser usado como pretexto para endurecer a resposta das forças de segurança”, diz Haddad.

O dia seguinte ao ataque foi um dos mais violentos nos dois meses de protestos. É verdade que “a reputação do Irã foi prejudicada para os iraquianos”, admite Fantappie. “Mas sua reação natural foi fortalecer seu poder nos campos político e de segurança.”

*É JORNALISTA

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