Atrasos marcam primeira eleição em Angola após 16 anos

Votação pretende eleger Assembléia Nacional; última eleição, disputada em 1992, acabou em guerra

Agências internacionais,

05 de setembro de 2008 | 11h10

Pela primeira vez em 16 anos, Angola realiza nesta sexta-feira, 5, uma eleição parlamentar, que deve ampliar a hegemonia política de três décadas do partido governista Movimento Popular de Libertação de Angola na ex-colônia portuguesa, que prospera nos últimos anos graças ao petróleo. Atrasos e longas filas marcaram a votação na capital Luanda desde a abertura das urnas, às 7h (3h em Brasília). Eleitores e observadores se queixavam da desorganização e da demora. Várias horas depois do previsto, muitas seções permaneciam fechadas.  Angola espera que este pleito sirva de exemplo à África, onde vários países tiveram recentemente votações turbulentas, e comprove a recuperação do país depois de cerca de três décadas de guerra civil, até 2002. Angola se tornou o segundo maior produtor de petróleo da África, mas a maior parte da sua população ainda vive na pobreza. A última eleição em Angola havia ocorrido em 1992, numa época de pausa na guerra civil, que foi logo depois retomada.  "Isto está uma bagunça", disse Isaias Samakuva, dirigente da Unita (União Nacional pela Independência Total de Angola, ex-grupo rebelde direitista, hoje o maior partido da oposição). Samakuva acusou também o MPLA de ter tido uma vantagem injusta em termos de acesso a dinheiro e mídia durante a campanha. Os resultados da atual votação devem levar pelo menos uma semana - ou talvez mais, caso uma grande parcela dos 8,3 milhões de eleitores não consiga votar na sexta-feira. Luisa Morgantini, chefe da missão de observação eleitoral da União Européia em Angola, disse que é possível uma prorrogação da eleição devido aos problemas, que segundo ela são mais visíveis na capital. "Em Luanda está muito problemático, mas no interior as coisas estão melhores", afirmou. Um porta-voz da comissão eleitoral disse a uma rádio que houve problemas "logísticos" em algumas áreas, e que as seções permanecerão abertas até que todos na fila consigam votar. Apesar do atraso, o presidente angolano afirmou que "o mais importante é que o país seja o vencedor, com a consolidação da democracia". "Iniciamos um novo ciclo, uma nova forma de fazer política", disse José Eduardo dos Santos, que assegurou que o pleito acontece em um ambiente de "tolerância e fraternidade, apesar de alguns incidentes". Segundo a BBC, alguns dos observadores do pleito destacaram a desorganização no início da jornada e a ausência de materiais em muitas das 14 mil mesas que abririam no país.  Além da campanha desigual, um clima de intimidação velada corrói a eleição - e é justamente a imagem de votação limpa que poderia alavancar Angola como exemplo regional, diante do caos pós-eleitoral no Quênia e no Zimbábue. "O governo quer mostrar que aqui não é o país do (ditador zimbabuano Robert) Mugabe. Mas há outro valor que se sobrepõe à ambição de ser líder regional: manter-se no poder", diz ao Estado Nelson Pestana, professor de economia e direito da Universidade Católica de Angola. Os comícios lotados dão a medida do apoio ao MPLA. Parte disso é explicada pelo clima pacífico que predomina desde o fim da guerra. O MPLA usa a estabilidade como pressão ideológica para convencer eleitores de que a vitória da oposição poderia trazer a guerra de volta. O Quênia e o Zimbábue viveram períodos eleitorais conturbados este ano. Analistas não acreditam que possa haver violência generalizada nas eleições angolanas. Diplomatas ocidentais, contudo, vem evitando o uso do termo "livres e justas" quando se referem a este pleito, preferindo falar em "transparentes e com credibilidade". Para eles, a própria realização de eleições já é considerada um avanço.  As grandes empresas internacionais, especialmente da área petrolífera, observam Angola com atenção. Elas contribuem para a produção de 2 milhões de barris por dia, que vem das vastas reservas do país africano. Em meados deste ano, Angola superou a Nigéria como o maior produtor de petróleo da África Subsaariana e, com sua exportação de diamantes, vem emergindo como potência regional. Mas apesar do sucesso econômico, 70% da população ainda vive com menos de US$ 2 por dia. (Com Mariana Della Barba, de O Estado de S. Paulo, e Reuters) 

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