Atropelamento supostamente proposital aumenta tensão em Jerusalém

Um bebê de três meses morreu e oito pessoas ficaram feridas quando um veículo atropelou um grupo de passageiros que esperava o bonde; polícia investiga se ação foi premeditada

O Estado de S. Paulo, O Estado de S. Paulo

22 de outubro de 2014 | 20h00

Jerusalém - Um bebê de três meses morreu e oito pessoas ficaram feridas nesta quarta-feira, 22, quando um veículo atropelou um grupo de passageiros que esperava o bonde em uma estação conhecida como Ammunition Hill, em Jerusalém, em uma ação que a polícia investiga se foi premeditada. Testemunhas afirmaram que agentes de segurança atiraram no motorista, um ex-condenado palestino que tentou fugir a pé e ficou gravemente ferido.

O fato disparou a tensão na cidade santa e, segundo testemunhas, o motorista, que vinha de uma região próxima, conhecida como "bairro francês", girou bruscamente e foi na direção de um ponto usado por ultraortodoxos que vivem ali, por palestinos que viajam aos bairros árabes de Jerusalém Oriental e por colonos judeus que vivem na colônia de Pisgat Ze'ev e costumam aguardar ali a chegada do bonde.

Há alguns meses, neste mesmo ponto, o último antes da entrada do bairro de Suafat, descia grande parte dos passageiros judeus que preferiam continuar o trajeto de ônibus diante dos contínuos apedrejamentos e outros atos de vandalismo. As ações deterioraram esse meio de transporte, que a prefeitura promoveu como instrumento de coexistência, mas que muitos palestinos consideram uma ferramenta para aumentar a 'judaização' da parte leste da cidade.

Logo após saber do ocorrido, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, instaurou um gabinete de crise e convocou tanto o presidente palestino, Mahmoud Abbas, quanto o movimento islamita Hamas.

"Assim é que os companheiros de Abu Mazen (apelido de Abbas) no governo atuam. O mesmo Abu Mazen que há apenas alguns dias incitou o ataque a judeus em Jerusalém", afirmou Netanyahu, em alusão ao citado movimento islamita.

Antes da reunião, o primeiro-ministro israelense ordenou que as medidas de segurança fossem reforçadas na cidade santa, cenário de uma crescente tensão desde o começo do ano.

O presidente de Israel, Reuven Rivlin, qualificou como "ato terrorista" a morte do bebê e apontou os líderes árabes como os responsáveis por sua morte. Em comunicado, o líder lembrou a soberania israelense sobre Jerusalém e pediu às forças de segurança para atuarem de forma contundente.

"A crescente provocação nas ruas árabes e nas ruas de Jerusalém, que infelizmente recebeu o apoio dos líderes no mundo árabe, tem a capacidade de destruir o frágil equilíbrio da vida em Jerusalém e nos introduz em uma corrente de destruição e dor", ressaltou.

Da parte palestina não foi feito qualquer comentário sobre o ocorrido.

No início desta semana, a imprensa palestina denunciou um fato similar no qual uma menina palestina morreu ao ser supostamente atropelada por um colono judeu na Cisjordânia ocupada.

De acordo com os meios de comunicação, Enas Shawkat, de 5 anos, morreu ao ser atropelada junto a outra menina por um carro que fugiu na saída da creche, perto de Ramalah.

O prefeito de Jerusalém, Nir Barkat, confirmou que policiais foram enviados ao local e reforçarão a presença militar e dos serviços de inteligência israelenses nos bairros de Jerusalém Oriental, palco nos últimos meses de choques entre a polícia, grupos de palestinos e colonos judeus.

"Devemos restaurar a paz e a segurança em Jerusalém. Como venho dizendo há meses, a situação em Jerusalém é intolerável e se deve atuar de forma contundente contra a violência que acontece. Hoje, mais que nunca, está claro que devemos enviar unidades da polícia para aqueles bairros nos quais acontecem distúrbios, e colocá-los de forma estratégica e em um número amplo", afirmou.

Enfrentamentos explodiram pouco depois nos bairros de Suafat e Issawiyah, em Jerusalém Oriental, e na passagem de Qalandia, que controla o trânsito entre esta parte da cidade santa e Ramalah.

A tensão disparou nos bairros árabes de Jerusalém desde que no começo de julho foram encontrados baleados os corpos de três estudantes judeus desaparecidos quando pediam carona perto da colônia de Gush Etzion, próxima da cidade palestina de Hebron, ação da qual o governo culpou ao Hamas.

Dias depois, um grupo de ultrarradicais judeus capturou e queimou vivo em Jerusalém Oriental Muhammad Abu Khdeir, um palestino de 16 anos, em uma vingança que suscitou enfrentamentos em seu bairro, Suafat.

A tensão se multiplicou com a ofensiva israelense na Faixa de Gaza no meio do ano e os lançamentos de foguetes desse território e cresceu ainda mais nas últimas semanas com as incursões israelenses e as restrições da polícia ao acesso dos palestinos à Esplanada das Mesquitas.

Na semana passada, um grupo de colonos radicais judeus se instalou em uma série de imóveis no bairro árabe de Silwan, vizinho à parte antiga. / EFE

Mais conteúdo sobre:
JerusalémpalestinosIsrael

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.