REUTERS/Hannibal Hanschke
REUTERS/Hannibal Hanschke

Atropelamentos viram tática preferencial do terror

Grupos como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico incitam seus seguidores a usar veículos como forma de matar os “infiéis”

O Estado de S.Paulo

23 de março de 2017 | 05h00

O ataque de ontem em Londres envolveu uma das novas táticas favoritas dos terroristas: jogar um veículo contra uma multidão. Em julho, em Nice, um terrorista dirigiu um caminhão contra quem comemorava o Dia da Bastilha na Riviera Francesa, matando 84 pessoas. Em dezembro, um homem investiu de carro sobre um mercado natalino em Berlim, matando 12.

Segundo especialistas, o incidente segue um emergente modelo de atentado com o uso de instrumentos simples e de uso diário, mas realizado em lugares que certamente atraem a atenção global.

Segundo Frank Foley, estudioso de terrorismo no Departamento de Estudos de Guerra do King’s College de Londres, os terroristas apostam em que muita gente esteja olhando. “Pode ser até melhor que causar muitas mortes”, avalia ele. “O agressor de Londres parece ter optado por armas relativamente rudimentares e, até onde se sabe, não houve explosões. Mas ele escolheu alvos de grande destaque, o Parlamento e a Ponte de Westminster, conseguindo, assim, inundar imediatamente a mídia. Cada TV da Europa e da América mostrou o atentado em seus jornais.”

Especialistas do Reino Unido assinalaram que o incidente é também uma interrupção do relativo sucesso dos britânicos em resistir a ataques do tipo, particularmente em comparação com as vizinhas França e Bélgica.

“A Grã-Bretanha estava razoavelmente tranquila”, disse Steve Hewitt, pesquisador de vigilância e contraterrorismo da Universidade de Birmingham. As exceções, lembrou ele, foram os ataques suicidas a bomba de 2005 no centro de Londres, chamados de “7/7”, o assassinato do soldado britânico Lee Rigby em 2013 e a morte da parlamentar trabalhista Jo Cox no ano passado.

Hewitt sugeriu que o sucesso da defesa britânica nesse campo deve-se à experiência da polícia e serviços de segurança em lidar com o terrorismo, adquirida ao enfrentar o Exército Republicano Irlandês (IRA). “Não dá para dizer que agora tenha havido uma escalada”, disse ele. “Trata-se de uma ocorrência rara no Reino Unido. Na verdade, surpreende que não tenha havido outros anteriormente.”

Controles rigorosos sobre armas de fogo na Grã-Bretanha – em comparação com os Estados Unidos, onde ataques do tipo frequentemente envolvem tais armas – baixam o índice de violência, segundo Hewitt. “Vivemos num país com leis rigorosas sobre posse de armas, diferentemente dos Estados Unidos, onde alguém que comprou uma arma, quase sempre legalmente, pode causar rapidamente um grande morticínio.”

É claro que o risco de ataques com instrumentos corriqueiros sempre existe e é muito difícil de se neutralizar. Quem pode impedir alguém de simplesmente jogar o carro em cima de pedestres? A resposta a essa pergunta tornou-se cada vez mais urgente nos últimos anos, à medida que os terroristas mudavam de táticas. 

No passado, o comum eram atentados espetaculares e de grande alcance, que envolviam muitos terroristas e treinamento meticuloso. Mais recentemente, porém, grupos como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda passaram a apelar para um terrorismo mais espontâneo e com quaisquer meios disponíveis. E esses grupos descobriram o potencial de automóveis não mais carregados de explosivos, mas usados como imprevisíveis aríetes mecânicos.

Já em 2010, o braço iemenita da Al-Qaeda encorajava o uso de caminhões como arma. A revista oficial do grupo, Inspire, publicou um artigo intitulado “A máquina de ceifar definitiva”, sugerindo aos seguidores que usassem um caminhão “como uma ceifadeira, não para cortar grama, mas para ceifar a vida dos inimigos de Alá”. O artigo, de três páginas, incluía dicas para ampliar a matança, orientações sobre os melhores veículos a serem utilizados e uma foto de um desfile americano do Dia de Ação de Graças, descrito pelos extremistas como “um excelente alvo”.

Numa mensagem de vídeo em 2014, Abu Muhammad al-Adnani, principal porta-voz do Estado Islâmico, disse aos simpatizantes: “Se vocês não tiverem uma bomba ou uma arma de fogo, surpreendam os infiéis americanos, franceses e seus aliados. Arrebentem suas cabeças com pedras, usem facas, atropelem com carros, empurrem de lugares altos, matem-nos com choques elétricos”. Um número de 2016 da revista do Estado Islâmico Rumiyah exaltou as virtudes de se usar grandes caminhões carregados para causar “banhos de sangue”.

“Chegamos a um ponto em que organizações terroristas querem criar um ambiente no qual possam atacar em qualquer parte, a qualquer hora e usando qualquer método”, disse um oficial de segurança europeu. “Vídeos e mensagens contra a França e outros países europeus são publicados em plataformas de mídia social com a mensagem ‘use qualquer coisa para matar, até carros’.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

SÃO JORNALISTAS

 

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