AFP PHOTO/JUAN MABROMATA
AFP PHOTO/JUAN MABROMATA

Atuação de Macri em 2016 definirá os próximos 8 anos da política argentina

Desempenho do governo e sucesso de seus choques econômicos influenciarão a eleição parlamentar de 2017 e a presidencial de 2019; Casa Rosada terá de enfrentar um Congresso hostil e o fantasma da volta de Cristina Kirchner ao poder

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

03 Janeiro 2016 | 03h00

BUENOS AIRES - A reação da Argentina em 2016 ao choque que Mauricio Macri prescreveu para desacostumar o país a 12 anos de kirchnerismo atingirá todos os seus habitantes, especialmente o presidente. Influenciará a eleição parlamentar de 2017 e a presidencial de 2019. No mandato de quatro anos conquistado por ele, o primeiro momento crucial para derrubar o histórico de instabilidade de governos não peronistas será o mês de março.

Após recesso, um Congresso hostil, principalmente no Senado, voltará à ativa e os sindicatos renegociarão o reajuste salarial. Exigirão porcentuais próximos da inflação, que deve rondar os 30% ao ano. Nos oito anos na prefeitura de Buenos Aires, Macri manteve a paz com sindicalistas. No fim da campanha presidencial, aproximou-se de Hugo Moyano, líder da Confederação Geral do Trabalho, maior sindicato do país, após a negociação de contratos de coleta de lixo na capital.

 

Em outubro, apareceu ao lado do então prefeito para uma improvável foto na inauguração de uma estátua de Juan Perón, quando pesquisas ainda apontavam o kirchnerista Daniel Scioli como favorito à presidência. Depois da eleição, Moyano deu mostra de influência ao vetar o primeiro nome de Macri para o Ministério do Trabalho. Por meio de greves gerais e bloqueio de estradas, a mobilização sindical é capaz de parar o país.

“De maneira preventiva, Macri quer reduzir a agressividade sindical cedendo a seus líderes a administração de fundos cobiçados”, diz o analista Andy Tow. Um exemplo foi nomear o sindicalista Luis Alberto Scervino para a Superintendência de Serviços de Saúde, que regula os planos públicos e privados no setor. 

A pressão dos assalariados aumentou depois que o presidente desvalorizou o peso em 30%, ao soltar o controle sobre o dólar que vigorava desde 2011. Em uma sequência de medidas para abrir a economia, Macri acabou com a taxa sobre exportações agropecuárias e desburocratizou importações. O presidente rejeitou o pedido dos sindicatos de compensar o impacto na inflação da alta repentina de 41% na moeda americana.

 

“Há expectativa sobre como o país se recuperará, pois há medo que faltem políticas específicas para alguns setores. O modo como 2016 terminar será decisivo para os próximos oito anos nas finanças”, diz Diego Coatz, economista da União Industrial Argentina (UIA), principal organização empresarial do país.

O desafio do novo governo será autorizar aumentos sem desequilibrar a economia e cair numa recessão. O empresário do setor de plásticos Héctor Méndez esteve no comando da UIA nos 12 anos de kirchnerismo – 4 com Néstor e 8 com Cristina Kirchner. Ele acredita que a renegociação salarial de março será mais fácil se Macri controlar a aceleração nos preços que ocorreu antes mesmo de confirmada a desvalorização do peso. “A coisa estava muito desorganizada, com preços relativos muito díspares, com setores beneficiados e outros subsidiados”, afirmou Méndez, referindo-se às tarifas de energia, cujos gastos anuais significam 3,3% do PIB.

Tirar esses subsídios “de quem não precisa” é um plano que começará a ser colocado em prática em 2016 e testará a popularidade de Macri entre seu principal eleitorado, a classe média e alta dos centros urbanos. 

Março também será o período em que o Congresso voltará à ativa para avaliar medidas tomadas por decreto desde a posse dia 10. A mais controvertida delas foi a nomeação de dois juízes para a Corte Suprema de forma temporária e sem o aval do Parlamento. O ato dividiu a aliança governista e revoltou o kirchnerismo, que, com 45 das 72 cadeiras no Senado, prometeu vetar os dois constitucionalistas escolhidos pelo presidente caso eles fizessem o juramento na Corte Suprema antes de passar pelo crivo parlamentar. 

“Macri teve tropeços desde a posse porque sua visão de governar é administrar gastos como se fosse uma empresa. Com uma demonstração de autoridade que ninguém pedia, ele ofendeu o Senado, entrou em choque com aliados e rompeu com o senador que coordena a maioria kirchnerista na Casa e tinha dado sinais de que contribuiria para a governabilidade”, critica o consultor Raúl Aragón. 

O maior trunfo de Macri é ainda sua popularidade acumulada com a eleição. Segundo o consultor Hugo Jaime, 68% dos argentinos consideram seu governo bom e 11%, ruim. O sociólogo Ricardo Rouvier, cuja consultoria costuma trabalhar para o peronismo, aponta a renegociação salarial como um momento crucial no curto prazo, mas não acredita em governabilidade ameaçada. “Os aumentos devem acompanhar a inflação, como fez o kirchnerismo. Isso deve estimular uma recessão gradual, mas o governo tem um crédito que se manterá”, afirma Rouvier.

Mais conteúdo sobre:
Argentina Mauricio Macri Buenos Aires

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.