Amr Nabil/AP
Amr Nabil/AP

Aumenta ceticismo no Egito antes das eleições parlamentares

Questão é saber se resultado cumprirá objetivo da revolução

É JORNALISTA, ESCRITOR, NEIL, MACFARQUHAR, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, ESCRITOR, NEIL, MACFARQUHAR, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2011 | 03h05

NOVA YORK - No comício que deu início a sua campanha para uma cadeira no Parlamento, Basem Kamel, um dos principais membros do conselho juvenil que contribuiu para pôr fim ao governo de Hosni Mubarak, esforçava-se para alinhavar as frases feitas de seu discurso político com o qual pedia um governo civil.

"Não queremos voltar ao Islã da Idade Média", disse Kamel, que tem a cabeça raspada e vestia um terno branco, destacando-se no cenário triste de Sharabiyya, um bairro pobre do norte do Cairo. "Não quero o Islã que prega que eu estou certo e todos os outros são infiéis."

A campanha oficial para as primeiras eleições parlamentares do Egito depois da queda de Mubarak, em fevereiro, começou lentamente. Mas o feitio da campanha é conhecido há meses, principalmente pelo fato de que um grupo de partidos surgidos do nada, na maior parte liberais, desafiará o rolo compressor bem organizado da Irmandade Muçulmana, assim como os remanescentes da máquina política do antigo governo. A questão que preocupa nestas eleições é saber se delas sairá um Parlamento suficientemente forte para cumprir um dos objetivos incertos da revolução: vencer os militares que se instalaram no poder há 60 anos.

Considerando que os jovens organizadores que convocaram os protestos na Praça Tahrir conseguiram uma façanha milagrosa - depor em 18 dias um presidente que permaneceu 30 anos no cargo - esperava-se que tivessem um papel crucial no que aconteceria em seguida.

A realidade revelou-se diferente. De início, o Conselho Supremo das Forças Armadas, que está no governo, pareceu interessado em consultar a coalizão dos jovens. Mas os jovens interromperam as reuniões após a violenta repressão dos manifestantes em abril.

"Decidimos que seria melhor continuar nas ruas do que conversar com o conselho militar", disse Shady el-Ghazaly Harb, um cirurgião de 32 anos que está criando seu próprio partido liberal, o Partido da Consciência, e se mostra indeciso em relação às eleições.

"Os militares queriam que servíssemos de decoração", ele disse. "Eles nos usaram como fonte de informação, como indicadores do ânimo nas ruas, da eventual reação dos jovens, mas não foi uma experiência reciprocamente enriquecedora."

Embora continuem se reunindo, os 17 principais membros da Coalizão de Jovens da Revolução dividiram-se em facções semelhantes ao espectro político egípcio em si. Alguns, entre eles alguns dos jovens membros da Irmandade Muçulmana, deram origem a partidos próprios. Outros foram absorvidos por grupos mais antigos.

Cerca de seis do grupo original esperam conseguir um assento no Parlamento nas eleições, que serão realizadas em três turnos até 10 de janeiro. Mas são vistos com considerável ceticismo.

Kamel é um candidato do Partido Social Democrático Egípcio, uma das agremiações liberais mais fortes com uma mistura de muçulmanos e cristãos coptas, que defende seriamente que o Egito deveria emular a Suécia.

Kamel observou em uma entrevista que não pode concorrer como um revolucionário. "Eles sabem que nós fomos pioneiros em certo sentido, mas agora não é o momento de dizer isso", explicou. "Preciso falar da nova Constituição, sobre educação, saúde e meio ambiente."

No entanto, seu discurso se referiu ao passado dourado. "Na praça nós ajudamos a revolução e ninguém perguntava se o outro orava ou se era um crente ou não", disse Kamel. "O regime atual quer nos dividir para nos enfraquecer e para poder nos governar sem problemas."

A matemática eleitoral básica do Egito é a seguinte: acredita-se que entre 20% e 30% dos cerca de 50 milhões de eleitores sejam partidários da Irmandade Muçulmana ou de outras facções islâmicas. Menos de 20% - a elite e a minoria cristã copta - provavelmente defende um governo civil e também está ansiosa por votar.

Portanto, o desafio é conseguir o apoio dos cerca de 50% dos eleitores indecisos - e até mesmo fazer com que votem. As tentativas de formar uma lista de candidatos unificada fracassaram, pois se apresentaram cerca de 14 organizações liberais e 8 partidos islâmicos com os respectivos candidatos. Destacar-se entre mais de 6 mil candidatos a 498 cadeiras é difícil.

Apesar da fragmentação dos partidos islâmicos em facções, analistas calculam que a Irmandade Muçulmana ainda poderá contar com 70% dos votos islâmicos. Considerando sua ampla penetração e organização em cada bairro por meio de clínicas e serviços sociais, provavelmente conseguirá bons resultados, especialmente se o comparecimento for baixo.

No mês passado, na Tunísia, a principal facção islâmica recebeu mais de 40% dos votos, enquanto o grupo liberal mais forte ficou com 30%. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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