Scott McIntyre/The New York Times
Scott McIntyre/The New York Times

Aumenta o número de cubanos que tenta migrar para os Estados Unidos

Cubanos temem que as proteções americanas, que lhes oferecem status legal, sejam anuladas

Lizette Alvarez - The New York Times*, O Estado de S. Paulo

08 Junho 2016 | 07h00

MIAMI - O sinal vindo de Deus e da Virgem Maria chegou perto do final da perigosa e ensolarada jornada de Cuba para a Flórida: uma dúzia de golfinhos nadou até o veleiro sobrecarregado feito em casa, mergulhando e reaparecendo, guiando-os, segundo eles, até um novo futuro. “É verdade que somos abençoados. Que coisa linda! Ninguém vai chegar perto de nós agora”, afirmou Rolando Quintero Ferrer, de 27 anos, um dos 12 passageiros no barco, em uma gravação em vídeo da viagem.

O presságio se provou verdadeiro. Depois de cinco dias apertados no barco como cigarros em um maço, incluindo 24 horas em uma ilhota inabitada, os homens navegaram até um ancoradouro em Tavernier, nas Florida Keys. Era 4h20 da manhã. Eles saíram, apontaram para as placas do estacionamento escritas em inglês, gritaram e choraram. Então, pegaram um celular e, sabendo que seriam bem vindos, ligaram para 911, um truque que aprenderam na televisão americana.

“Olhe para essa água incrível”, brincou Yosvanys Chinea, carpinteiro de 42 anos, segurando uma garrafa que o policial lhe deu quando chegou. “Já está curando meus parasitas, algo que, para mim, não acontecia em 42 anos.”

Desde que o presidente Barack Obama renovou os laços diplomáticos com a ilha em dezembro, Havana está crescendo. Vários cubanos estão expandindo seus pequenos negócios com a ajuda de parentes que moram nos Estados Unidos. Uma coisa, no entanto, não mudou: o desespero dos cubanos de sair navegando em barcos frágeis para chegar aos EUA - um sinal de que o medo está aumentando, não diminuindo, à medida que os cubanos se preocupam com a possibilidade de as proteções americanas, que lhes oferecem status legal e não estão disponíveis para outros imigrantes, correrem o risco de ser rescindidas.

Desde 1º de outubro, mais de 3,5 mil cubanos chegaram às costas dos Estados Unidos, o que lhes permite ficar no país legalmente, ou foram pegos no mar pela guarda costeira e mandados de volta para casa. A quantidade dos que vieram este ano pode chegar a números nunca vistos desde o êxodo marítimo dos anos 1990. Eles vêm por duas razões. A vida em Cuba permanece incalculavelmente difícil, especialmente para aqueles que não moram na agitada Havana. A liberdade de expressão continua severamente limitada, e os salários podem ser muito baixos, algo como US$ 16 a US$ 22 por mês.

Outra motivação é o pânico. Eles acreditam que o Congresso americano está pronto para repelir o Ato de Ajustamento Cubano de 1966, que dá aos cubanos um privilégio único - residência automática um ano e um dia depois de chegarem aos EUA. As tentativas de brecá-lo até agora não tiveram sucesso, mas o sentimento anti-imigração em Washington cria essa possibilidade, especialmente porque agora os cubanos são vistos como imigrantes econômicos, não mais políticos.

Integrantes da Guarda Costeira dizem que os cubanos têm se tornado mais agressivos nas tentativas de se livrar da captura. Às vezes, pulam no mar ou se recusam a subir nas embarcações dos oficiais. Em uma sexta-feira recente, enquanto a guarda costeira se aproximava, 19 cubanos se jogaram do barco e nadaram até um farol a oito quilômetros das Florida Keys; eles acabaram subindo no farol e muito provavelmente vão ser levados de volta para Cuba. Dois meses atrás, seis cubanos em um barco tinham feridas de bala e afirmaram ter sido atacados em Florida Straits. Mas nenhuma bala atingiu órgãos importantes, o que causou certo ceticismo.

“Já tivemos casos no passado de pessoas que se deram tiros e outros tipos de falta de cumprimento da lei. Eles geralmente continuam navegando e se recusam a deixar que nós os tiremos dos barcos. É uma questão de segurança. O tempo todo vemos casos em que as pessoas são encontradas na água, vivas, mortas, imigrantes que desaparecem”, explica o suboficial da guarda costeira, Mark Barney.

Esse grupo de cubanos afirma que também tinha um plano para evitar as autoridades. “Iríamos todos pular na água e tentar nadar para longe”, conta Quintero. 

Asael Veloso, fazendeiro de 34 anos, tentou partir há três anos. Ele vendeu tudo e pegou uma carona com um grupo de chamados “balseros”. Mas sua jangada foi capturada a oito horas de Cuba, e ele voltou para casa com menos do que tinha antes.

Dessa vez, todos contribuíram. Chinea, o carpinteiro, e Edel Sánchez passaram 20 dias construindo o barco com restos de madeira em uma casa de secagem de tabaco. O pequeno veleiro, projetado para 6 pessoas, acabou saindo com 12. Uns ajudaram na lida com a vela e na navegação. Poucos possuíam dinheiro ou força. Alguns tinham conexões.

Dentro do barco, eles se instalaram lado a lado. Embora a maioria dos cubanos desdenhe da religião, os homens contam que não hesitaram em pedir a bênção de Deus. “Fiz promessas para todo mundo: de Deus à Virgem da Caridade do Cobre”, afirma Quintero, referindo-se à santa padroeira dos “balseiros”. 

Eles iriam precisar. Por dois dias aterrorizantes, não conseguiram nem mesmo deixar as águas cubanas. “Saímos com a correnteza e os ventos contra nós. Mas Deus é belo”, conta Onelio Rodríguez, um fazendeiro de 26 anos com cara de criança.

Eles dormiram, fumaram, ouviram músicas latinas, falaram sobre as namoradas e os filhos, zombaram uns dos outros - especialmente dos homens que ficaram muito enjoados desde o momento em que entraram no barco e quase não se moveram durante os cinco dias de viagem - e comeram nozes e biscoitos. Eles também discutiram sobre quem iria remar, quem poderia dormir de noite e quem estaria monopolizando muito espaço.

A sorte esteve ao lado deles: não viram a guarda costeira ou enfrentaram uma tempestade, o que pode amaldiçoar esse tipo de viagem. Foi aí que os golfinhos vieram saudá-los, e seu otimismo cresceu. “Vamos a coronar”, comemorou Veloso, descrevendo em espanhol sua chegada e a cerveja gelada que esperava por eles.

O GPS apontava que estavam a 29 quilômetros das Florida Keys. Os homens começaram a remar no escuro. Finalmente, avistaram um paredão de pedra ao longo da praia em Tavernier e uma doca. Navegaram até ali e pegaram o telefone. Os policiais chegaram e os cubanos tiraram fotos com eles, desfraldando uma bandeira dos Estados Unidos.

Na manhã seguinte, foram levados para os escritórios do Serviço de Migração e Refugiados administrado pela Conferência de Bispos Católicos. O centro preenche os documentos para os cubanos que chegam e, para os que não têm parentes, dá alimentos e os aloja em hotéis até que possam ser realocados para outros Estados. Os imigrantes e refugiados cubanos foram reassentados por todo o país por décadas para que nenhuma região tivesse que arcar sozinha com o peso econômico de ajudá-los a começar uma vida nova.

O Quality Inn em Doral, no oeste de Miami, pareceu o paraíso para os homens: ar condicionado, televisão com dezenas de canais, mais ovos e carne do que já haviam visto.

Metade do grupo vai em breve para Las Vegas, e a outra para Austin, no Texas, onde poderão procurar emprego. Os programas de reassentamento do centro têm uma taxa de 70% a 90% de sucesso em encontrar trabalho, conta Juan F. Lopez, diretor associado do grupo de serviços aos refugiados.

“Este é um país com leis, mas dizemos: ‘Vamos olhar para a situação do ponto de vista humanitário’. E não podemos permitir que as pessoas cheguem e já comecem direto a receber assistência pública.”

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