Aumenta tensão na Venezuela

A situação política e social na Venezuela está cada vez mais tensa. Hoje, o país entra na terceira semana consecutiva de greve. Greve que, em nenhum momento, foi geral, restringindo-se apenas aos bairros mais ricos da capital. Regiões como os do Candelaria (centro), Catia (bairro popular extremamente populoso) viveram dias normais. Desta vez, porém, a Confederação de Trabalhadores da Venezuela (CTV) e a Fedecâmaras querem que a população bloqueie ruas, avenidas e estradas do país entre 6h e 13h (8h e 15h de Brasília) desta segunda-feira. Com isso, o risco de tensão e pânico entre a população é maior. Nem mesmo isso assusta os líderes da CTV e da Fedecâmaras. O medo pode fazer com que grande parte dos venezuelanos permaneça nesse período em suas casas. Ontem à noite, centenas de pessoas, da oposição e dos que querem manter o presidente Chávez na presidência se enfrentaram na Praça Candelária, no centro de Caracas, por volta da 20h30 (22h30 de Brasília). Efetivos da Polícia Metropolitana demoraram quase meia hora para dispersar os manifestantes com bombas de efeito moral. As explosões, disparos de armas e sirenes se prolongaram por mais de uma hora. Esse clima mostra claramente que os dois lados se sentem profundamente ameaçados pelo outro. Um lado é minoria, mas poderosa. A outra, maioria, porém sem nenhum canal de comunicação. A televisão privada do país interrompe constantemente as suas programações para mostrar imagens de violência, supostamente provocadas pelo governo. Porém, isso é pouco. Não há momento em que o povo não seja estimulado a sair às ruas para protestar contra o governo. Propagandas panfletárias produzidas pela CTV e pela Fedecâmaras são bombardeadas a todo momento. Intervenção da OEA Embora não seja explícito, o objetivo da oposição parece ser o de provocar acontecimentos semelhantes aos de 1989, quando houve saques e confrontos violentos na capital do país e no interior. A idéia parece ser também a de criar um estado de caos generalizado e transformar a Venezuela em um país ingovernável, justificativa para uma intervenção militar ou da Organização dos Estados Americanos (OEA). Nos últimos quatro dias, no centro de Caracas, repleto de pequenos comércios, bares e restaurantes, a atividade parecia estar voltando à normalidade. Os camelôs instalados em grande parte das ruas nas imediações da Praça Candelaria davam ainda mais tom de aparente paz. "Somos comerciantes, nem chavistas, nem esquálidos", diziam cartazes pendurados no pescoço. Na Venezuela, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística, metade da população economicamente ativa vive da economia informal. Depois de percorrer várias ruas do centro neste domingo, o comentário quase que obrigado em padarias e açougues, os mais freqüentados, era a crise do país e o temor pela escassez de combustíveis e de alimentos. Onde vamos parar? Era a pergunta mais comum. Na parte oeste, em Catia, um dos bairros mais populosos e humildes de Caracas, a atividade comercial estava totalmente normal. Milhares de vendedores ambulantes dividiam as ruas estreitas, sujas com mau cheiro com o caos do trânsito. Essa normalidade alcança esta região porque todos estão amarrados à necessidade de comer. O pobre na Venezuela vive o dia-a-dia, compra comida diariamente porque não tem onde guardar nem armazenar. Nos últimos 15 dias, o pobre deixou de desfrutar de suas quatro diversões prediletas: as loterias (jogo do bicho), o baseboll, a corrida de cavalos e as novelas. Há duas semanas, as TVs deixaram de veicular os famosos dramalhões mexicanos e venezuelanos e transformaram as suas programações em programas políticos e protestos contra Chavéz. As corridas de cavalos estão também suspensas, porque os cavalos são dos ricos, que decidiram cruzar os braços para tudo. O baseboll também foi paralisado. Pior, o jogo do bicho, do qual vivem milhares de pessoas também não está funcionando porque a loteria nacional, a base do jogo, não está tendos seus sorteios.

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