Aumenta tensão nas relações entre Uruguai e Argentina

Um seqüência de afirmações pouco diplomáticas e desencontros entre Jorge Batlle e Néstor Kirchner parecem ter afetado as relações entre Uruguai e Argentina. A tensão se tornou pública quando, em recentes declarações a uma emissora de rádio, o chanceler argentino, Rafael Bielsa, reconheceu a posição de seu governo a favor de uma vitória do candidato de oposição Tabaré Vázquez nas próximas eleições presidenciais do Uruguai. "Quem a ferro fere, a ferro será ferido", foi o refrão com o qual Bielsa ilustrou a postura de Kirchner, que aparentemente decidiu devolver a Batlle o golpe recebido em maio último, quando o presidente uruguaio vaticinou o triunfo eleitoral de Carlos Menem. Segundo versões da imprensa argentina, Kirchner já havia se recusado a conversar com Batlle durante a recente Cúpula Ibero-Americana, ocorrida na Bolívia. Ainda de acordo com a imprensa, a origem do mal-estar está na decisão do governo uruguaio de incluir o caso de uma argentina desaparecida na recente Lei de Caducidade, que impede a abertura de processos contra militares por violações aos direitos humanos cometidas durante a ditadura uruguaia (1973 a 1985). O caso de María Claudia García - seqüestrada em Buenos Aires em 1976 junto ao marido Marcelo, filho do poeta Juan Gelman - é considerado pelo governo de Kirchner como "um assunto de Estado". Batlle negou energicamente tais versões e assegurou, inclusive que conversou brevemente com Kirchner na reunião ibero-americana. As rusgas entre os dois vizinhos sul-americanos não são novas. Em maio de 2002, Batlle provocou revolta ao classificar os argentinos como "um bando de ladrões". Essa afirmação motivou uma viagem de urgência do presidente uruguaio a Buenos Aires para se desculpar perante o então presidente Eduardo Duhalde. Outro fator de desencontro foi a preocupação da Argentina pela instalação de uma fábrica de celulose às margens do Rio Uruguai, com investimentos espanhóis estimados em US$ 500 milhões. A Argentina queria que o tema fosse analisado por uma comissão bilateral, proposta que não prosperou porque, segundo o governo de Montevidéu, é "um assunto de exclusiva decisão do Uruguai". Em 9 de outubro último, no entanto, Kirchner e Batlle se reuniram no departamento (Estado) de Colonia, 180 quilômetros a oeste de Montevidéu, para posar para as câmeras e indicar que tais desencontros haviam passado. No entanto, os últimos acontecimentos parecem mostrar que a relação entre ambos os países está longe de ser amistosa.

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