Aumento da obscena reverência aos ideais do Tea Party

Numa sociedade democrática, a boa governança depende da arte do acordo, não de decretos ou de máximas

Charles M. Blow, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2011 | 00h00

Devo confessar que toda vez que a deputada Michele Bachman pronunciava a expressão "como presidente dos Estados Unidos", durante o debate presidencial republicano na quinta-feira, minha mente sofria uma espécie de blecaute, por isso acho que devo ter perdido alguma coisa.

Mas uma coisa que não perdi foi o momento em que todos os candidatos levantaram as mãos, confirmando que estavam tão firmemente decididos a não elevar os impostos que jamais aceitariam um hipotético acordo de redução do déficit, nem que fosse um aumento de US$ 1 de impostos para cada US$ 10 de redução dos gastos.

Aquele momento deveria mostrar a todo o eleitorado dos EUA o que pensa essa safra atual de ignorantes - ninguém que adote essa posição tem idoneidade para ser o presidente dos EUA ou de qualquer outro país desenvolvido.

Numa sociedade democrática, a boa governança depende da arte do acordo, não de decretos ou de máximas. Queremos líderes que defendam princípios, mas não impeçam o progresso.

Aliás, a palavra "bipartidário" só foi usada duas vezes, uma vez por Newt Gingrich e outra por Rick Santorum, cujas campanhas lembram os "mortos que andam". Ao menos Jon Huntsman tentou agir como um adulto, no fim do debate, quando afirmou: "Sou o único nesta tribuna que defendeu um acordo, o acordo de Boehner, contra o calote deste país. Sei que sou um pouco diferente dos outros nessa questão". Mas o impulso que Huntsman está obtendo é o de um pneu atolado na lama numa estrada de terra do Mississippi.

O que estamos vendo é um aumento e uma aceleração da obscena reverência aos princípios do Tea Party: não ceda jamais; não deixe prisioneiros vivos; não aceite nenhum acordo. Felizmente para o restante do povo americano, várias pesquisas de opinião sugerem que está crescendo o número de eleitores, pelo menos por enquanto, que aparentemente começam a perceber o que realmente é o Tea party - não o mecânico que quer consertar as engrenagens, mas aquele que quer sabotá-las.

Uma destas pesquisas foi a do New York Times/CBS News divulgada na semana passada, que concluiu que a porcentagem de pessoas que se considera parte do Tea Party caiu de 26% para 18%, e a porcentagem que afirmou que o Tea Party exerce uma influência excessiva sobre o Partido Republicano cresceu mais de 50%, ultrapassando pela primeira vez os 40%.

David Axelrod, o estrategista da campanha de Barack Obama, afirmou que os candidatos ao debate estavam, "essencialmente, jurando fidelidade ao Tea Party, em vez de resolver os problemas do país". Nem sempre aprecio as mensagens do governo. Mas neste caso, concordo plenamente. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É COLUNISTA DO "NEW YORK TIMES"D

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.