Daniel Slim/AFP
Daniel Slim/AFP

Aumento de casos faz Estados americanos fecharem novamente e exigirem máscaras

Os Estados Unidos tiveram mais que o dobro de mortes relatadas que qualquer outro país e representam quase um quarto de todas as mortes atribuídas ao vírus no mundo

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2020 | 15h06

WASHINGTON - O número de novas infecções por coronavírus nos Estados Unidos nos primeiros seis dias de julho se aproximou de 300 mil, e levou Estados e cidades a impor novamente o fechamento e ampliar medidas de distanciamento social, além de obrigar o uso de máscaras.

Os EUA registraram 2,9 milhões de casos de coronavírus até o momento e pelo menos 127 mil pessoas morreram em todo o país. Os americanos tiveram mais que o dobro de mortes relatadas que qualquer outro país e representam quase um quarto de todas as mortes atribuídas ao vírus no mundo.

Após um fim de semana do Dia da Independência, que atraiu grandes multidões para exibições de fogos de artifício e produziu cenas de americanos bebendo e festejando sem máscaras, as autoridades de saúde alertaram que os hospitais estão ficando sem espaço e a infecção está se espalhando de modo desenfreado. Os EUA "ainda estão até os joelhos na primeira onda" da pandemia, disse Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas.

Fauci observou que a Europa conseguiu combater o vírus e agora está lidando com pequenos focos de infecção na reabertura, mas os EUA “nunca chegaram a conter a curva, e agora os casos estão voltando à tona", disse Francis Collins, diretor dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA.

Apesar da alegação do presidente Donald Trump de que 99% dos casos de coronavírus serem "inofensivos", Arizona e Nevada relataram seu maior número de internações relacionadas ao coronavírus nos últimos dias. As médias de 7 dias em 12 Estados atingiram novos picos, com os maiores aumentos em Virgínia Ocidental, Tennessee e Montana. A média móvel de novos casos diários em sete dias atingiu um recorde na segunda-feira - o 28º dia consecutivo.

No Arizona, 89% dos leitos das unidades de terapia intensiva do Estado estavam cheios na segunda-feira, 6, anunciou o Departamento de Saúde do Estado, que recentemente ultrapassou 100 mil casos.

Alguns Estados impuseram novas restrições na segunda-feira, na tentativa de diminuir o número crescente de casos e preservar a capacidade do hospital.

O governador Jim West, da Virgínia Ocidental, decretou que o uso de máscaras será obrigatório, e pediu aos moradores que cumpram a regra. A Virgínia Ocidental atingiu um pico histórico de 130 novos casos em um dia no domingo, totalizando 3.442 casos na segunda-feira.

"Se você for trabalhar, espero que use uma máscara ao entrar no trabalho e, se estiver trabalhando em uma área completamente socialmente distanciada, tire a máscara", disse Jim West durante um briefing. “Se você for a algum lugar, coloque sua máscara. Se você entrar em uma loja, espero que use uma máscara."

West disse que havia adiado a obrigatoriedade do uso de máscaras, mas mudou de ideia porque “é exatamente isso que eu quero fazer, porque eu sei no meu coração que, se não o fizermos, teremos funeral após funeral”.

Em Miami-Dade, o condado mais populoso do Estado americano da Flórida, as autoridades reverteram o plano de reabertura, emitindo uma ordem de emergência que fechava academias, festas e restaurantes. Essa ordem entrará em vigor nesta quarta-feira, 8. A Flórida viu seu número de casos ultrapassar 10 mil por dia e 200 mil no total.

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O decreto emergencial foi editado nesta segunda pelo prefeito Carlos Gimenez, principal autoridade do condado que inclui a cidade de Miami e áreas próximas, e que tem cerca de 48 mil casos de covid-19 entre seus 2,8 milhões de moradores. 

"Queremos garantir que nossos hospitais continuem a ter o pessoal necessário para salvar vidas", disse  Gimenez. Ele afirmou que o aumento foi causado por infecções entre jovens de 18 a 34 anos que se reúnem em locais lotados - dentro e fora de casa - sem usar máscaras e sem manter o distanciamento adequado.

“Os médicos dizem que esse aumento nesta faixa etária era provocado por festas de formatura, reuniões em restaurantes que se transformavam em festas lotadas violando as regras e protestos nas ruas em que as pessoas não conseguiam manter o distanciamento social e onde nem todos estavam usando proteção facial adequada”, disse Gimenez.

A medida atingiu em cheio os donos de restaurantes, que recentemente voltaram ao trabalho após o fechamento obrigatório que durou semanas, deixando-os frustrados e ainda mais preocupados com a sobrevivência de seus negócios. 

“Estamos emocionalmente esgotados, financeiramente esgotados, e estamos esgotados com o trauma em ver tudo que está acontecendo”, afirmou Karina Iglesias, sócia de dois restaurantes espanhóis populares no centro de Miami, o Niu Kitchen e o Arson. 

Michael Beltran, um chef e sócio no Ariete Hospitality Group, que é proprietário de uma série de outros restaurantes populares de Miami, incluindo o Taurus, tinha dificuldades de aceitar que teria de dizer a seus 80 funcionários —muitos dos quais foram contratados para a reabertura— que eles ficariam desempregados novamente. 

“Pelo que me disseram, eu fiz as coisas certas para reabrir, e agora estamos nesse ponto”, disse Beltran. 

A Flórida registrou um novo recorde diário de novos casos, com 11 mil na segunda-feira, número maior do que o registrado em qualquer país europeu no auge da crise por lá.

Casos na Califórnia

Os novos casos de coronavírus dispararam na Califórnia no fim de semana do feriado de 4 de julho, sobrecarregando hospitais e levando ao fechamento temporário do Capitólio estadual em Sacramento para uma limpeza profunda, informaram autoridades na segunda-feira.

O número de pessoas internadas com covid-19 aumentou 50% nas últimas duas semanas, para cerca de 5.800, anunciou o governador Gavin Newson. Cerca de um terço dos hospitalizados estavam em Los Angeles. 

Cerca de 25% das internações em julho são de pessoas com idades entre 18 e 40 anos, afirmaram autoridades de saúde, enquanto os novos casos atingem uma população cada vez mais jovem, que pode ter relaxado nas precauções de segurança nas últimas semanas. 

As universidades, se aproximando rapidamente de seus semestres de outono, também estavam discutindo como oferecer educação sem arriscar a saúde dos alunos.

A Universidade de Harvard anunciou na segunda-feira que reabrirá com menos da metade de seus alunos de graduação no câmpus, um sinal das extraordinárias restrições que as faculdades enfrentam em todo o país enquanto traçam os planos para o período de outono. 

Outras universidades americanas também anunciaram que vão restringir a quantidade de alunos no campus e tomar medidas de distanciamento social.

Negacionismo de Trump

Trump e sua campanha têm argumentado cada vez mais que os americanos precisam continuar a viver suas vidas, apesar da pandemia. Na segunda-feira à tarde, Trump tuitou: "AS ESCOLAS DEVEM ABRIR NA QUEDA !!!"

Trump minimizou o aumento de casos, atribuindo-o a testes expandidos, e enfatizou recentemente que as mortes nos EUA não aumentaram com novos casos. "A taxa de mortalidade pelo vírus da China nos EUA é praticamente a MAIS BAIXA DO MUNDO!", tuitou ele na segunda-feira.

As autoridades de saúde pública têm pedido aos jovens que levem o vírus mais a sério, já que novos casos entre esses grupos demográficos provocaram picos em vários lugares. Fauci pediu na segunda-feira aos jovens que percebam que não são "invulneráveis a sérias conseqüências" do vírus. 

Mesmo que eles não fiquem doentes o suficiente para acabar no hospital, eles ainda podem ficar "muito doentes" por semanas, disse ele. E ao se infectar, acrescentou, "eles estão propagando o surto" e podem infectar inadvertidamente alguém vulnerável, com resultados potencialmente fatais.

"Vamos superar isso", disse Fauci. "Já sofremos muita dor, muita dor econômica e pessoal, mas a ciência nos levará a superar isso”, disse Fauci. “Espere aí, isso vai acabar. Nós prometemos a você.”/NYT, REUTERS E AFP

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