Ruth Fremson/The New York Times
Ruth Fremson/The New York Times

Aumento do voto dos jovens foi fundamental para Biden, e democrata tem uma dívida com eles

Segundo o instituto de pesquisa Circle, Biden não teria vencido sem eleitores de 18 a 29 anos

Francis Wilkinson, Washington Post

10 de novembro de 2020 | 10h30

NOVA YORK — O presidente eleito Joe Biden conseguiu unir moderados, progressistas e esquerdistas na semana passada e conseguiu mais votos do que qualquer pessoa na história dos EUA. Mas já está claro como será complicado manter ou expandir essa coalizão. Alguns dos moderados que votaram no candidato preferiram votar em republicanos para a Câmara e o Senado. Enquanto isso, muitos na esquerda jamais apoiariam o democrata se não estivesse em jogo a reeleição de Donald Trump.

Mesmo assim, eles votaram. E alguns eleitores jovens de esquerda fizeram muito mais, doando tempo e energia para uma campanha na qual não confiavam totalmente ou na qual não acreditavam. De acordo com o instituto de pesquisa Circle da Universidade Tufts, Biden não teria vencido Trump sem eleitores de 18 a 29 anos. Seus números entre os jovens em Arizona, Geórgia, Michigan e Pensilvânia excederam todas as margens de vitória estaduais. E isso foi decisivo em todo o país.

Os democratas têm motivos poderosos para recompensar esses eleitores da melhor maneira possível. Se esses jovens eleitores se tornarem democratas de meia-idade, as vantagens para o partido podem se estender por décadas.

De acordo com estimativas fornecidas pelas pesquisas de boca de urna, Biden ganhou eleitores novatos por 66% a 32%; eleitores de 18 a 24 anos (9% do total) por 67% a 29%; eleitores com idade entre 25 e 29 (7% do total) por 55% a 42%; e eleitores com idade entre 30 e 39 anos (16% do total) por 52% a 45%.

Há um poderoso componente racial nesses números. Quanto mais jovem é um americano, menos provável que ele seja branco. Mas mesmo entre os brancos, a maioria dos quais votou novamente em Trump, o grupo de 18 a 29 anos foi a faixa etária mais fraca do republicano.

O socialismo tem obtido votos favoráveis entre os jovens americanos na última década, uma era marcada por uma crise financeira global e intensa desigualdade de riqueza. Bernie Sanders foi a escolha dos jovens nas primárias democratas de 2020, como foi em 2016.

Mas com os republicanos rotineiramente chamando democratas tradicionais como Barack Obama e Biden de "socialistas", é difícil saber exatamente o que significa amplo apoio ao "socialismo". O Medicare for All (plano nacional de saúde para todos os americano que foi encampado pelos democratas em 2020) é socialista o suficiente? Qual é a diferença entre socialismo e esforços agressivos para conter a mudança climática? Onde está a linha divisória?

Em uma entrevista ao New York Times na semana passada, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez expressou sua preocupação de que a esquerda mais uma vez será rejeitada, agora que os democratas garantiram a Casa Branca.

“A história do partido tende a ser que ficamos muito entusiasmados com as bases para sermos eleitos, e então essas comunidades são prontamente abandonadas logo após uma eleição”, disse ela.

A Presidência de Biden será limitada, seja pelos republicanos, se os democratas não conseguirem vencer duas eleições de segundo turno para o Senado na Geórgia em janeiro, ou pelos senadores democratas mais conservadores, se os democratas conseguirem vencer as duas disputas.

Com base nas projeções atuais, os democratas precisam vencer as duas disputas na Geórgia para produzir um alinhamento partidário de 50/50 no Senado, sob o qual a vice-presidente Kamala Harris votaria no desempate.

A esquerda simplesmente não vai conseguir o que deseja em diversas questões, desde saúde e impostos até investimentos em energia verde.

Sem apoio no Senado, Biden não poderia investir em uma política de esquerda mesmo se quisesse. Mas Biden terá influência significativa sobre como os democratas enquadram essas questões e também como tratam a justiça racial — incluindo o policiamento.

Biden prometeu, por exemplo, “expandir e usar o poder do Departamento de Justiça dos EUA para lidar com a má conduta sistêmica em departamentos de polícia e promotorias”.

A Pesquisa Harvard sobre Jovens, divulgada no final de outubro, descobriu que 70% dos jovens de 18 a 29 anos (incluindo metade dos republicanos nesse grupo) “acham que o governo deveria fazer mais para reduzir o racismo sistêmico”.

O movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) levou milhões para as ruas este ano. Se alguma vez houve um contraste fácil de traçar com Trump, e um no qual o progresso pode ser feito por meio da retórica executiva e da ação, é esse.

Da mesma forma, Biden pode garantir alívio imediato para jovens imigrantes nos EUA, incluindo estudantes e aqueles que fazem parte do Programa de Ação Prolongada para Chegada na Infância, ambos vítimas das políticas de Trump.

Já sobre o clima, Biden, que prometeu voltar imediatamente ao acordo climático de Paris, também tem capacidade para resultados simbólicos e tangíveis sem o apoio do Congresso.

Como as duas últimas presidências, a de Biden começará agudamente polarizada pela questão racial. A melhora sutil de Trump entre alguns eleitores latinos e negros não altera a realidade de que o “Torne os EUA grandes de novo” é um movimento fundamentalmente racial com objetivos raciais bem definidos.

A parte mais fácil do eleitorado branco para os democratas alcançarem são os jovens. E como as ligações partidárias começam cedo, muitas vezes com o primeiro presidente que o eleitor escolhe, esses eleitores podem continuar pagando dividendos políticos.

Governar é escolher. Depois que Biden for empossado como o presidente mais velho da História americana, ele deve escolher, sempre que possível, colocar seu partido imediatamente ao lado dos jovens.

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