Cristian Hernandez / AFP
Cristian Hernandez / AFP

Partido de Maduro vence na Venezuela em eleição com 69% de abstenção

Em Caracas, as filas para colocar gasolina eram maiores que as de eleitores nos centros de votação, o que abriu caminho para que o chavismo retomasse o controle do Parlamento

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2020 | 21h25
Atualizado 07 de dezembro de 2020 | 08h17

CARACAS  - O chavismo retomou o controle do parlamento da Venezuela neste domingo, 6, ao vencer uma eleição legislativa boicotada por quase toda a oposição e caracterizada por uma abstenção de 69% e uma forte rejeição internacional.  Em Caracas, as filas para colocar gasolina eram maiores que as de eleitores nos centros de votação, o que abriu caminho para que o chavismo retomasse o controle do Parlamento.

A presidente do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), Indira Alfonzo, indicou que a aliança do Grande Polo Patriótico, que apoia o presidente Nicolás Maduro, obteve 67,7% dos 5,2 milhões de votos apurados em um primeiro boletim, enquanto o setor de oposição que rompeu um boicote liderado por Juan Guaidó obteve 18%. Alfonzo não especificou quantos dos 277 assentos correspondem a cada sigla.

Durante todo o dia, os centros eleitorais de todo o país ficaram vazios. Maduro, que tem alta rejeição, transferiu o domicílio eleitoral para Forte Tiúna, em vez de votar em um bairro popular de Caracas, como aconteceu em anos anteriores. “A quantas anda a fraude de Maduro”, tuitou o líder opositor Juan Guaidó, postando uma imagem de uma seção eleitoral vazia.

No início da noite, a ausência de eleitores fez o governo atrasar em uma hora o fechamento das urnas. “Decidimos manter as os centros de votação abertos em razão das filas”, justificou Leonardo Morales, vice-presidente do Conselho Nacional Eleitoral. 

O governo exaltou a votação como a “festa eleitoral” que marca uma virada na política venezuelana. A Assembleia Nacional vinha sendo controlada pela oposição, que surpreendeu o chavismo, em 2015, ao eleger a maioria dos deputados. Para não conviver com um Legislativo antagonista, Maduro criou uma Assembleia Constituinte, dominada pelo Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) – que deverá ser extinta assim que os novos deputados assumirem, no dia 5 de janeiro. 

“Tivemos paciência e sabedoria para esperar o dia de tirar das nossas costas esta Assembleia Nacional nefasta, que trouxe a praga das sanções e do sofrimento”, disse Maduro, após votar.  

Com o controle do Parlamento, Maduro ganha mais poder internacional para captar investimentos e tentar tirar o país da crise. Guaidó deixa de ser deputado e perde o pouco poder que ainda tinha, embora tenha dito hoje que se manterá como “presidente” do país. 

O economista Victor Álvarez, ex-ministro de Indústrias do governo de Hugo Chávez, acredita que a nova Assembleia “muda o marco legal”. “É o primeiro passo para que as novas leis aprovadas tenham reconhecimento internacional”, afirmou, embora dificilmente a votação seja reconhecida pela maioria dos países ocidentais.

Álvarez diz que “um Estado sem os recursos da estatal petrolífera PDVSA e sem fundos para levantar a produção e a economia deve se abrir a investimentos privados”. Para ele, a participação privada pode incentivar privatizações na Bacia do Orinoco e em empresas que exploram outros recursos naturais, como ferro, ouro e diamantes. 

O analista Dimitris Pantoulas acredita que a eleição encerra ciclos importantes. “Um foi a derrota do chavismo, em 2015. O outro é o de Juan Guaidó, quando a oposição tinha legitimidade e reconhecimento internacional”, afirmou. Apesar da resistência de EUA e Europa, segundo Pantoulas, “Maduro passa a ter muito mais poder” com a legalidade da nova Assembleia. 

“A dinastia de Maduro, com seu filho Nicolasito (Nicolás Maduro Guerra) e a mulher Cília Flores, reforça a figura presidencial. Com isso, os EUA têm de negociar diretamente com ele, e não através de terceiros. É provável que a relação com Washington, nos próximos anos, seja mais horizontal”, disse. / COM AGÊNCIAS

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