Ausência de Arafat entristece cidade de Jesus

Israel manteve hoje (24) pela primeira vezem sete anos Yasser Arafat longe das celebrações de Natal deBelém, e moradores da cidade onde nasceu Jesus presenciaram umaprocissão anual da Praça da Manjedoura com poucos peregrinos epouca alegria em seus corações. Fiéis tocando tambores e gaitas de fole passaram sob bandeiraspalestinas e pôsteres do ausente Arafat, que foi confinado porIsrael à cidade cisjordaniana de Ramallah, 20 km ao norte, desdeuma série de ataques terroristas palestinos no início dedezembro. Arafat falou a seu povo num discurso previamente gravadotransmitido pela tevê palestina, dizendo que estava "com ocoração cheio de tristeza". "Os tanques israelenses, as barreiras e os fuzis dosopressores impediram que eu compartilhasse com vocês nossacelebração anual nesta ocasião divina e abençoada", disseArafat. "Todo o mundo que viu o que ocorreu... tem que saberque tipo de terror os fiéis nesta Terra Santa estãoenfrentando". Completando 15 meses de terríveis confrontos, sufocantesbloqueios israelenses e tensões constantes que esmagaram aeconomia baseada no turismo de Belém, a ausência de Arafat deuum tom particularmente sombrio ao Natal deste ano. Em contraste com anos anteriores quando peregrinos e corais detodo o mundo lotavam esta cidade bíblica, apenas cristãoscompareceram à Praça da Manjedoura, e uma magra presença eraesperada na Missa do Galo na Catedral de Santa Catarina, pertoda Igreja da Natividade, construída onde acredita-se nasceuJesus. "Eu queria aproveitar o Natal. Mas o espírito de Natal nãoexiste aqui. Belém é uma grande prisão", disse Richard Elias,28 anos, que levava seu filho de quatro anos, George, vestidocom roupas de Papai Noel. A praça quase não tinha decoração. Uma árvore de Natal estavaenfeitada com apenas uma luz e poucas bolas coloridas. Numagrande faixa se lia: "(O primeiro-ministro israelense, Ariel)Sharon assassinou a alegria do Natal". "Nenhum negócio. Nenhuma pessoa", disse Tony Michael, 60anos, parado com um único amigo em sua loja de souvenires naPraça da Manjedoura. "Está tudo muito mal em Belém". Ao cair da noite, Israel resistia a fortes pressões da UniãoEuropéia e dos Estados Unidos para suspender a restrição deviagem. Israel afirmava que só o faria caso Arafat prendesse osassassinos de um ministro israelense. Arafat, um muçulmano, dizia que estava determinado a fazer aperegrinação, como tem feito desde que Belém tornou-se uma zonaautônoma palestina poucos dias antes do Natal de 1995. Assessores haviam sugerido que ele poderia ir de carro até obloqueio rodoviário ao sul de Ramallah, ou mesmo atravessar apé. Mas hoje, Arafat estava evasivo, dizendo em resposta aoultimato israelense: "Ninguém pode humilhar os palestinos oufazê-los perder sua determinação". Mais cedo, Arafat reuniu-se com líderes cristãos, entre eles oPatriarca Latino, Michel Sabbah, o mais alto clérigo católicoromano na Terra Santa e o primeiro palestino a ocupar o posto. "A dignidade do presidente Arafat é a dignidade de todosnós", afirmou Sabbah. "A ocupação é injusta com os palestinos,e eles têm o direito à liberdade. Esta é a mensagem do Natal". Israel não se curvava à condenação internacional. O embaixador belga Wilfred Geens destacou que Arafat é o únicolíder muçulmano que participa da Missa do Galo, numa mostra detolerância religiosa. O Vaticano anunciou que estavapressionando pela passagem de Arafat, e o ministro do Exterioregípcio, Ahmed Maher, disse que a decisão do Estado judeudesafiava "a lei, a legitimidade, a lógica e a opinião públicainternacional". O prefeito de Belém, Hanna Nasser, considerou a restrição deviagem "estúpida e irresponsável" e afirmou que iria boicotara Missa do Galo se Arafat estivesse ausente. Danny Ayalon, um assessor de Sharon, disse que Israel estavafazendo "uma declaração política". "Não existe nenhuma relação com liberdade de religião",garantiu. Ele afirmou que Israel estava de luto por dezenas de"civis inocentes que foram brutalmente assassinados porterroristas palestinos... Não acho que deveríamos estar levandotudo normalmente".

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