Ausência de Cuba e crise dominarão reunião regional

Temas foram excluídos da agenda, mas debates devem marcar o tipo de relação que EUA terão com hemisfério

Denise Chrispim Marin, BRASÍLIA; Patrícia Campos Melo, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

11 de abril de 2009 | 00h00

A 5 ª Cúpula das Américas será dominada pela ausência de Cuba, o único dos 35 países do hemisfério vetado nesse foro, e pelos debates sobre a crise econômica mundial. Os dois temas foram propositalmente excluídos da agenda oficial do encontro, entre os dias 17 e 19 em Trinidad e Tobago, e do rascunho da declaração de compromisso, que será levada para a aprovação dos chefes de Estado.Sem rumo desde 2005, quando enterrou o projeto de liberação comercial entre 34 sócios, a Cúpula das Américas propõe-se fixar três novos eixos de cooperação: meio ambiente, energia e prosperidade social. Disso dependerá o agendamento de sua sexta versão e sua sobrevivência como foro multilateral.A discussão das duas questões mais explosivas estampará o tipo e o grau de relacionamento que os EUA, sob o governo do democrata Barack Obama, pretendem manter com a América Latina. Nos últimos três meses, Obama manteve encontros bilaterais com três líderes da região - os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, e Felipe Calderón, do México, e o primeiro-ministro do Canadá, Stephen Harper. Mas o governo americano ainda atravessa areia movediça quando se trata de contato com Hugo Chávez, da Venezuela, e Evo Morales, da Bolívia. Ambos os líderes expulsaram os embaixadores americanos, no ano passado, embora tenham mantido abertas as relações diplomáticas com Washington. Não se espera um encontro bilateral de Obama com Chávez, mas certamente os dois devem se falar durante algum dos muitos encontros da cúpula, indica o governo americano. "A grande questão é como alguns dos mais espalhafatosos líderes da América Latina vão se comportar na cúpula", disse Jeffrey Davidow, assessor da Casa Branca para a Cúpula das Américas.Dada a situação econômica na Venezuela, Chávez não pode se dar o luxo de um mau relacionamento com os EUA e outros países consumidores. Portanto, Washington espera que Chávez mantenha a tradição e antagonize o "império" em público (talvez poupando Obama), enquanto mantém uma posição amigável com o presidente americano em encontros fechados.Obama deve anunciar em breve as prometidas mudanças na política para Cuba: permissão de visitas ilimitadas de parentes na ilha e de envio de remessas. O anúncio seria um necessário gesto de boa vontade para a região e pode prenunciar mudanças mais profundas no relacionamento com Cuba, como as propostas pelo senador republicano Richard Lugar em carta a Obama. Lugar propõe a nomeação, pela Casa Branca, de um negociador especial para Havana e pede que os EUA comecem a considerar a entrada de Cuba na Organização dos Estados Americanos. Além disso, espera-se que Obama anuncie o fim da exigência para que Cuba pague à vista por suas importações de alimentos provenientes dos EUA. Também se espera a retirada de Cuba da lista de Estados patrocinadores de terrorismo.Obama deve anunciar o levantamento das restrições a viagens e remessas antes do início da cúpula, para que o assunto Cuba não domine as discussões em Trinidad, diz Mauricio Cárdenas, especialista do Brookings Institution. No outro campo, o da crise econômica mundial, prevalecem dúvidas sobre como serão adotadas e quais serão os efeitos das medidas aprovadas pelos líderes do G-20 em Londres, no dia 2, além das incertezas sobre a recuperação do mercado americano. No início do mês, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) previu queda de 0,3% na atividade latino-americana neste ano - a primeira desde 2003. México, Brasil, Costa Rica e Paraguai seriam os países mais afetados. Nos cálculos da Cepal, a América Latina tenderá ainda a registrar déficits superiores a 2% do PIB nas contas públicas e externas.Com margem macroeconômica restrita para a adoção de medidas contracíclicas, boa parte dos países terá de seguir o exemplo do México e apelar ao socorro do FMI. Por isso, o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento está pressionando os EUA a liderar o aumento do capital do banco em cerca de US$ 150 bilhões.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.