Austeridade real
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Austeridade real

A família real britânica está mais submetida a regras do que os súditos

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2021 | 05h00

Numa noite de domingo de 1994, fui parado pela polícia por excesso de velocidade na rodovia M1, que liga Londres ao norte da Inglaterra. Vendo que eu tinha me mudado havia pouco tempo para o Reino Unido, o guarda preferiu me dar uma bronca em vez de uma multa: “Você tem de obedecer as regras de trânsito deste país. Agora, para sair do acostamento, dê sinal”.

Alguns dias depois, li num jornal que o príncipe Philip havia sido multado no mesmo trecho da estrada, que estava em obras, e com velocidade reduzida. Duas lições: o marido da rainha dirigia o próprio carro; o policial que o abordou considerou que ele não tinha desculpa e deveria ser um modelo de comportamento.

Um ano depois, fui ao lançamento do Dicionário Internacional de Inglês da Universidade de Cambridge, da qual Philip era patrono. Estávamos numa rodinha de jornalistas brasileiros quando ele se aproximou, acompanhado pelos cinegrafistas. Pediu licença para conversar conosco: “Vocês estão falando português? É diferente do sotaque de Portugal. Lá, eles falam com a boca mais fechada”.

Assim como Cambridge, Philip era patrono de 800 instituições. Os membros da família real têm o trabalho de levantar doações e patrocínios para as entidades, das quais são garotos-propaganda. Muitas não existiriam se não fosse esse trabalho.

A função primordial da família real é manter o país unido em torno de uma identidade, de um modelo de comportamento, o que inclui obedecer às leis e às normas de conduta. É o contrário dos modelos latino, árabe e asiático, segundo os quais o poder coloca as autoridades acima da lei. 

Philip não terá funeral de Estado para evitar aglomerações. Compare isso com as pressões no Brasil para reabrirem os templos evangélicos.

A família real está mais submetida a regras do que os súditos. Ao contrário da caricatura feita na série The Crown, Philip não tinha, na Inglaterra, a imagem de mulherengo e impulsivo. Objeto do escrutínio dos tabloides mais agressivos do mundo, ele não protagonizava escândalos.

Philip encarnava o aspecto estoico da função real. Ele se aposentou em 2017, aos 96 anos. Mesmo assim, em julho do ano passado, aceitou o convite para participar de uma cerimônia dos Rifles, regimento de infantaria do Exército, do qual era comandante honorário.

Essa austeridade causa sofrimento na família. Em 1972, apaixonado por Camilla Shand, o príncipe Charles, sempre preocupado em orgulhar seu pai, ingressou na Marinha, a Arma pela qual Philip combateu na 2.ª Guerra. Em fevereiro do ano seguinte, seu navio foi deslocado para o Caribe. Quando voltou da missão, em novembro, Camilla estava noiva do tenente Andrew Parker-Boles.

Charles conheceu Diana Spencer em 1977 e começaram a namorar três anos mais tarde. Quando cresceram os rumores na imprensa sobre esse relacionamento, Philip disse ao filho que ele tinha que se casar com ela, para preservar a imagem da moça. Essa imposição levaria a um desfecho trágico.

Diana descreveria em entrevista à BBC em 1995 a solidão, a perseguição dos tabloides e a opressão da família real, que a levaram à bulimia e à depressão. A ex-atriz americana Meghan Markle, mulher do príncipe Harry, filho de Diana, contou no mês passado que foi impedida, para não arranhar a imagem da monarquia, de buscar ajuda psicológica, quando teve desejo de suicidar-se.

O afastamento de Harry e Meghan e a suspeita de racismo na família real representaram uma perda de oportunidade para a monarquia britânica se atualizar, tornar-se diversa e mais representativa, considerando que 14% dos ingleses e galeses não são brancos, segundo o Censo de 2011.

As histórias de Diana e Meghan revelam a contradição inerente à monarquia: a rigidez na manutenção das aparências e o desejo de evitar escândalos a todo custo acabam produzindo o resultado oposto.

É COLUNISTA DO ESTADÃO E ANALISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

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