Austero e desastrado, premiê vê popularidade despencar

O que tem feito o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, desde junho de 2007, quando assumiu o cargo de seu amigo, trabalhista como ele, Tony Blair? Tem vacilado. Sua trajetória, neste ano, está sendo uma via crúcis eleitoral, e a estação mais cruel até agora foi a do dia 24, quando os trabalhistas foram derrotados em seu reduto histórico de Glasgow Est por um partido separatista escocês. É preciso dizer que foi uma decisão um pouco presunçosa de Brown, no ano passado, querer suceder, como chefe do governo britânico, ao brilhante, sedutor e esperto Tony Blair. Mas, enfim, houve a esse respeito um acordo entre os dois colegas de partido (colegas, mas inimigos) e Blair saiu de cena, deixando Brown cumprir seu papel. Foi como passar da alvorada ao crepúsculo. As luzes se apagaram. A festa assumiu um clima de velório. Uma Grã-Bretanha de penumbras substituiu a Grã-Bretanha brilhante, glamourosa, narcisista, de Blair. Então, sucederam-se os reveses eleitorais. As pesquisas de opinião são ferozes: segundo o jornal The Independent, os trabalhistas de Gordon Brown só conseguiriam 24% dos votos nas eleições gerais, enquanto o Partido Conservador, saindo de seu longo purgatório, reuniria 46%. A personalidade austera e desastrada de Brown explica esse desamor. A isso se somam os reveses econômicos. Enquanto a década de Tony Blair foi uma festa para a economia, estes 12 meses de Gordon Brown têm sido uma derrota esmagadora. IRONIAHá certa ironia nisso: o sucesso econômico de Blair tem de ser atribuído, em primeiro lugar, a seu ministro das Finanças, que era justamente Gordon Brown. Mas, no dia em que Brown deixou sua pasta para assumir o cargo de primeiro-ministro, o país mergulhou na escuridão. A explicação é que a conjuntura internacional, positiva até o ano passado, inverteu sua tendência e atingiu a Grã-Bretanha com extrema violência, porque Londres ocupa um lugar central em todos os fluxos financeiros do planeta. Portanto, o país é mais sensível do que outros a todos os sobressaltos da conjuntura. Conseqüentemente, a Grã-Bretanha sofreu em cheio os efeitos devastadores da crise imobiliária e bancária dos EUA, da alta global da inflação e da dilapidação das finanças públicas. Na City de Londres, já se fala em estagflação, um palavrão que provoca náuseas em todos os banqueiros. E é preciso considerar outro parâmetro: o Partido Trabalhista está há 11 anos no poder. É muito tempo. A elegância da política britânica se baseia em parte na troca de bastão entre os dois grandes partidos do país, o Trabalhista e o Conservador. Será que o tempo da alternância no poder se aproxima? O Partido Conservador encontrou um líder sedutor, David Cameron, que poderá agarrar o poder no primeiro grande passo em falso de Gordon Brown. A não ser que os trabalhistas impeçam o desastre, substituindo desde já o atual primeiro-ministro por outro astro trabalhista: David Miliband, que reina com habilidade no Ministério de Relações Exteriores. Outras opções para o posto seriam Jack Straw, atual ministro da Justiça, ou mesmo o chefe da pasta do Trabalho e Previdência Social, James Purnell. *Gilles Lapouge é correspondente em Paris

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.