EFE/EPA/RICHARD WAINWRIGHT
EFE/EPA/RICHARD WAINWRIGHT

Austrália coloca 2 milhões de pessoas em lockdown após 1 caso novo de covid

Moradores de Perth, 4ª maior cidade do país, ficam 5 dias em casa para conter disseminação da doença

Damien Cave / The New York Times, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2021 | 15h00

SYDNEY - Um caso. Um jovem guarda de segurança em um hotel de quarentena que recebeu diagnóstico de coronavírus e apresentava sintomas leves. 

Foi o bastante para Perth, a quarta maior cidade da Austrália, entrar em lockdown completo. Um caso, e agora 2 milhões de pessoas vão ficar em casa ao menos durante os próximos cinco dias. 

Um caso, e o principal dirigente estadual, Mark McGowan, que enfrentará uma eleição no mês que vem, está pedindo que seus eleitores se sacrifiquem pelos outros e pelo país.

"Esta é uma situação muito séria", disse ele no domingo, 31, ao relatar o caso, o primeiro no estado da Austrália Ocidental encontrado fora da quarentena em quase dez meses. "Cada um de nós tem de fazer o possível para deter a disseminação na comunidade."

A velocidade e a severidade da reação podem ser impensáveis para habitantes dos Estados Unidos ou da Europa, onde surtos muito maiores foram com frequência enfrentados com meias medidas. Mas para os australianos pareceu normal. 

O lockdown em Perth e na área circundante seguiu esforços semelhantes em Brisbane e Sydney, onde algumas infecções causaram um forte aumento das restrições, o controle do vírus e um rápido retorno à quase normalidade. 

Pergunte aos australianos sobre essa abordagem e eles talvez apenas encolham os ombros. Em vez de solidão e lamentos, ou revolta sobre invasão a sua liberdade, eles se habituaram a uma rotina da covid de sofrer em curto prazo para ter um ganho coletivo.

O contraste com os EUA e a Europa —acentuado no início da pandemia— se tornou ainda mais marcante com o passar do tempo. Menos australianos morreram ao todo (909) que o número médio de mortes diárias hoje no Reino Unido e nos EUA.

"Temos uma maneira de salvar vidas, abrir nossas economias e evitar todo esse medo e confusão", disse Ian Mackay, especialista em vírus na Universidade de Queensland que desenvolveu um modelo em várias camadas, ou "queijo suíço", de defesa contra a pandemia que circulou amplamente. "Todo mundo pode aprender conosco, mas nem todos estão dispostos."

O isolamento geográfico da Austrália lhe oferece uma grande vantagem. Mas foram necessárias várias medidas decisivas. A Austrália limitou estritamente as viagens interestaduais, enquanto ordenou desde março a quarentena em hotéis para viajantes vindos do exterior. O Reino Unido e os EUA só agora estão tentando tornar a quarentena obrigatória para quem chega de países com alto índice de covid.

A Austrália também manteve um forte sistema de rastreamento de contatos, enquanto outros países basicamente desistiram. No caso de Perth, os rastreadores de contatos já testaram as pessoas que moram com o homem infectado (resultados negativos até agora) quando o lockdown foi anunciado e as colocaram em quarentena de 14 dias em uma instalação do Estado. As autoridades também listaram mais de uma dúzia de locais onde o guarda de segurança pode ter tocado ou respirado perto de pessoas.

A luta da Austrália contra o coronavírus não foi perfeita. O caso de Perth ilustra um ponto frágil persistente —vários surtos foram ligados à quarentena em hotéis, inclusive um em Melbourne no fim do ano passado que levou a um lockdown de 111 dias. As regras mais rígidas nas fronteiras causaram dificuldades para muita gente, incluindo milhares de australianos que ficaram bloqueados no exterior.

Mas a evidência do sucesso do país vem crescendo há meses, e desde dezembro foi marcada menos pela falta do vírus do que por uma série de respostas rápidas que contiveram pequenos surtos. 

Antes do Natal, as praias ao norte de Sydney foram interditadas quando surgiram alguns casos, e depois algumas dúzias. Planos de férias foram arruinados, pois qualquer morador da grande Sydney foi proibido de viajar a outros estados. 

Os testes aumentaram. Houve poucas reclamações, e funcionou: a cidade de 5 milhões de habitantes passou duas semanas sem um caso de transmissão comunitária. 

Brisbane a acompanhou no início de janeiro com um breve lockdown, depois que uma faxineira em seu sistema de hotéis de quarentena foi infectada com uma variante altamente contagiosa do vírus identificada primeiramente no Reino Unido. 

Foi a primeira aparição conhecida da mutação na Austrália, e as autoridades agiram rapidamente. Annastacia Palaszczuk, a autoridade máxima de Queensland, que inclui Brisbane, anunciou o lockdown 16 horas depois do teste positivo. "Fazer três dias hoje poderá evitar fazer 30 dias no futuro", disse ela.

Brisbane está de volta ao nível de normalidade possibilitado pela covid-19, como toda a Austrália além de Perth. Em todo o país, escritórios e restaurantes estão abertos, com regras que exigem distanciamento físico. Máscaras são recomendadas, mas não obrigatórias. E grandes reuniões estão sendo organizadas: o Open da Austrália, depois de enfrentar uma série de problemas por causa de estrangeiros infectados, espera receber 30 mil torcedores de tênis por dia quando começar, no dia 8.

Mackay, que trabalhou estreitamente com as autoridades australianas, chamou isso de "o martelo e a dança".

"Os lockdowns dão a todos no rastreamento de contatos e na saúde pública uma possibilidade de recuperar o fôlego, garantir que entrevistaram a todos, que ninguém esqueça e depois lembre de alguma coisa —e isso permite que eles realmente parem a transmissão", explicou.

A Europa e os Estados Unidos parecem preferir, segundo ele, "o lockdown meio assado". Ele disse que depositam demasiada fé nas vacinas, e não reconhecem que sua eficácia sobre a transmissão será bastante lenta, e não instantânea.

Grande parte da Europa, em particular, indica fadiga, e depois fracasso. Uma análise da reação de 98 países à pandemia feita pelo Lowy Institute, um grupo de pensadores australiano, descobriu que muitos países europeus estavam no topo do desempenho em relação à covid alguns meses atrás, mas hoje estão perto do piso, como Reino Unido, França e outros, além dos Estados Unidos.

"Eles não foram longe o suficiente", disse Hervé Lemahieu, pesquisador da Lowy originário da Bélgica que liderou o estudo com Alyssa Leng. "Depois que fizeram ganhos, relaxaram muito cedo."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.