REUTERS/Sandra Sanders/File Photo (16/07/2021)
REUTERS/Sandra Sanders/File Photo (16/07/2021)

Austrália volta a impor lockdown em suas maiores cidades por avanço da variante Delta

Metrópoles como Sydney, Melbourne e Brisbane estão sob regras rígidas de bloqueio, enquanto o governo tenta impulsionar uma campanha de vacinação afetada por discursos conflitantes

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2021 | 15h00

Em meio ao avanço dos casos de covid-19 - impulsionados pela variante Delta, cepa mais contagiosa do novo coronavírus - as principais cidades da Austrália voltaram a impor lockdowns na tentativa de conter a pandemia. Metrópoles como Sydney, Melbourne e Brisbane convivem mais uma vez com restrições de circulação, enquanto o governo tenta convencer a população a se vacinar, principalmente os mais jovens, após meses de uma narrativa confusa, alimentada pelas próprias autoridades.

Segunda maior cidade da Austrália, Melbourne, entrou no seu 6º lockdown desde o início da pandemia nesta quinta-feira, 5 - uma semana depois de encerrar o 5º lockdown, que durou 12 dias. Desta vez, todos os cidadãos do Estado de Victoria permanecerão sob regras mais rígidas por pelo menos sete semanas, podendo sair de casa apenas para comprar comida ou suprimentos essenciais, cuidados ou prestação de cuidados, trabalho autorizado ou educação que não pode ser feito em casa, fazer exercícios ou ser vacinado.

A medida foi tomada após autoridades anunciarem oito novos casos de covid-19 nesta quinta, alguns deles sem um rastreamento preciso de origem. O primeiro-ministro de Victoria, Daniel Andrews, disse a repórteres que os casos misteriosos ainda estão sob investigação, mas que o lockdown instantâneo é a única maneira de evitar que o surto saia do controle.

"Como essa coisa se move rápido, ela pode ser travada ... ou ela corre solta e se afasta de você e não há como puxá-la de volta", disse Andrews, fazendo referência à variante Delta.

Fechando a fronteira internacional, com rastreamento rigoroso dos contágios e lockdowns instantâneos, a Austrália se tornou uma história de sucesso de condução da pandemia, com cerca de 35 mil casos no total e 932 mortes. Mas o país tem lutado para controlar os surtos da variante Delta.

Em Nova Gales do Sul, onde fica a cidade mais populosa do país, Sydney, uma média de 200 novos casos diários de covid-19 foram registrados na última semana. Na noite de quarta-feira, 4, autoridades estaduais de saúde informaram que 262 casos foram confirmados em 24 horas, com cinco mortes - o pior resultado desde o começo da pandemia. O primeiro-ministro do Estado, Gladys Berejiklian, anunciou recentemente que a cidade permaneceria confinada até pelo menos 28 de agosto.

De acordo com o jornal britânico The Guardian, uma festa na praia em Newcastle com a presença de jovens do Oeste de Sydney está relacionada com o lockdown em oito regiões do governo local, já que as autoridades de Nova Gales do Sul temem que a variante Delta se espalhe. Mais de meio milhão de pessoas das áreas de Newcastle, Lake Macquarie, Maitland, Port Stephens, Cessnock, Dungog, Singleton e Muswellbrook serão impedidas de deixar suas casas por uma semana, exceto para obter suprimentos essenciais ou realizar trabalhos essenciais.

A terceira maior cidade da Austrália, Brisbane, também está fechada após sofrer com seu próprio surto de casos.

As paralisações ameaçam colocar a Austrália em uma segunda recessão econômica provocada pela pandemia. Apenas o bloqueio de Sydney custa cerca de US$ 750 milhões por semana (o equivalente a R$ 3,8 bilhões). Mas as autoridades dizem que não podem suspender as restrições até que os casos diminuam ou a campanha de vacinação aumente, sem desencadear uma onda de casos, hospitalizações e mortes.

Andrews lamentou o retorno ao lockdown: "Eles (bloqueios) são incrivelmente dolorosos, incrivelmente difíceis (...) a alternativa não é ficar trancado por sete dias, mas ficar trancado por sete semanas ou mais, até chegarmos a 80% de vacinação. E isso pode não acontecer até quase a época do Natal."

Campanha de vacinação confusa

A Austrália até aumentou seu programa de vacinação nas últimas semanas, à medida que os problemas de abastecimento foram solucionados. Apesar disso, apenas cerca de 20% dos adultos elegíveis receberam duas doses.

Durante meses, o lançamento lento da vacina fez com que a maioria dos jovens não conseguisse ser vacinada. Mas isso mudou na semana passada, com Berejiklian permitindo que qualquer pessoa com 18 anos ou mais recebesse doses da vacina contra o coronavírus desenvolvida pela Universidade de Oxford e pela empresa sueco-britânica AstraZeneca em farmácias ou centros de vacinação.

O senso de urgência parece ter se espalhado para o primeiro-ministro do país, Scott Morrison, que, depois de dizer por meses que o programa de vacinação não era uma corrida, na quarta-feira o comparou às Olimpíadas. "Buscamos ouro ao conseguir essas taxas de vacinação onde precisamos", disse ele. E completou: "E conquistamos a medalha de ouro até o final deste ano."

Mas a corrida para vacinar os australianos mais jovens foi prejudicada por um início tardio e mensagens confusas. A AstraZeneca deveria ser a espinha dorsal da campanha de vacinação do país, mas as preocupações com raros coágulos sanguíneos, especialmente entre os jovens, levaram o governo federal a restringir seu uso a pessoas com mais de 50 anos e, em seguida, àqueles com mais de 60 anos.

Morrison chegou a anunciar que a AstraZeneca seria eliminada em favor de uma vacina desenvolvida em conjunto pela empresa norte-americana Pfizer e a empresa alemã BioNTech. Em maio, seu ministro da Saúde sugeriu que as pessoas simplesmente esperassem alguns meses pela chegada de mais doses de Pfizer-BioNTech, em vez de se vacinarem com os imunizantes disponíveis.

Atualmente, o surto em Sydney é impulsionando por jovens que trabalham em serviços essenciais, que pegam o vírus no trabalho e levando-o para casa para seus parentes, segundo as autoridades do país. Os australianos mais jovens também estão cada vez mais entre os gravemente doentes. Enquanto o surto de Sydney aumentava - e espalhava o vírus durante aglomerações em outros Estados -, Morrison mudou repentinamente o discurso, anunciando no final de junho que os adultos que desejassem a injeção de AstraZeneca poderiam obtê-la depois de falar com seu médico./ W. POST, AP e REUTERS

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