‘Autonomia dos Estados brasileiros é referência para o futuro iraquiano’

Novo embaixador do Iraque quer intensificar relações com o Brasil

Lourival Sant'Anna - O Estado de S. Paulo,

08 de fevereiro de 2014 | 19h30

O novo embaixador do Iraque em Brasília, Adel al-Kurdi, assumiu no fim do ano com a missão de intensificar as relações com o Brasil, tradicional parceiro de seu país. Nem bem apresentou suas credenciais à presidente Dilma Rousseff, ele iniciou pelo Rio Grande do Sul um périplo que deve levá-lo a quase todos os Estados brasileiros. Convidou o governador Tarso Genro a visitar províncias iraquianas para lhes transmitir a experiência brasileira com a descentralização administrativa.

O comércio é uma via de mão dupla, no entanto, e o potencial do mercado brasileiro é grande: dos US$ 42,642 bilhões de petróleo e derivados importados pelo Brasil no ano passado, apenas US$ 692 milhões (1,6%) vieram do Iraque. Doutor em química, Kurdi trabalhou no setor do petróleo. Em entrevista ao Estado, falou da diminuição da dependência americana ao petróleo da região, do terrorismo sunita, do conflito na Síria e do Irã, aliado do governo do primeiro-ministro xiita Nuri al-Maliki.

Em que pé o senhor encontrou as relações Brasil-Iraque?

O Iraque tem um histórico muito intenso com o Brasil e estamos tentando retomar essa relação. O embaixador (brasileiro) Anuar Nahes é muito ativo em Bagdá. Estamos nos aproximando em todos os setores que achamos convenientes.

Quais produtos brasileiros podem interessar ao mercado iraquiano?

Os principais produtos que o Iraque sempre comprou do Brasil são alimentos: frango, carne bovina, arroz, açúcar. A importação de carne bovina ainda está embargada, em razão de um caso isolado de mal da vaca louca. Uma comissão deverá visitar o Brasil para remover esse obstáculo. Mais de cem países já liberaram a importação da carne brasileira. O Iraque também importou muito armamento e automóveis Passat, que no Iraque são chamados de "Brasili". Eles levam para as pessoas comuns a marca brasileira.

O senhor vem de uma visita ao Rio Grande do Sul. O que foi discutido sobre a importação de arroz de lá?

Minha visita ao Rio Grande do Sul não se limitou à questão do arroz. Depois da entrega das minhas credenciais à presidente Dilma Rousseff, elaboramos um plano de visitar a maioria dos Estados. Reunimo-nos com os empresários do Estado, incluindo as cooperativas de arroz e com o governador (Tarso Genro). Algumas províncias do Iraque estão interessadas em convidar o governador gaúcho. Ele se prontificou a visitar o Iraque e a criar uma missão comercial de empresários, que incluirá produtores de arroz. Foi criada uma parceria entre o Rio Grande do Sul e províncias iraquianas. A federação brasileira tem grande experiência com a autonomia dos Estados e com uma relação democrática entre eles e as instituições. No Iraque, várias províncias também têm autonomia administrativa. Isso tem apenas dez anos e é um grande desafio administrar-se sem o governo central.

A Petrobrás chegou a adquirir um campo no Iraque nos anos 70, mas, quando o mercado iraquiano se reabriu, na década passada, a empresa não participou, por estar voltada para seus próprios investimentos. Há uma expectativa de que a Petrobrás participe nos próximos leilões?

Temos grande espaço aberto para todas as empresas que queiram participar no mercado iraquiano de petróleo. Hoje, temos conversas com o lado brasileiro para formar comissões, dos dois lados, para discutir alguns pontos nesse setor do petróleo. Acredito que já no início do próximo mês formalizaremos essa aproximação. Não foi colocada nenhuma pauta, mas vai ser de alto nível, tanto de um lado quanto de outro. Quando for definido, a imprensa será informada, dentro dos limites do sigilo comercial.

A descoberta do petróleo de xisto diminui a dependência dos EUA em relação ao petróleo. A Arábia Saudita já está sentindo isso. Qual o impacto disso sobre a geopolítica da região?

Esse produto depende da demanda do mercado. Quando se acham novas fontes de petróleo, com certeza isso influi nas exportações da região. Pode ser que comprem menos, mas com certeza jamais conseguirão deixar de comprar da região para atender sua demanda.

Os países ocidentais estão se aproximando do Irã, que é um aliado do governo iraquiano. Como o senhor vê a mudança de alinhamentos na região?

Sempre fomos contra essa diferença que havia entre o Irã e EUA. Sempre estivemos prontos para aproximar a diplomacia dos dois países. Em 2006, o Iraque promoveu uma reunião entre ambos. Com certeza, para pacificar e normalizar a região, é fundamental a aproximação EUA-Irã. O Iraque tem um bom relacionamento com ambos. Lógico que é bom tanto para a região quanto para nós. Temos mais de 1.100 km de fronteira com o Irã e o que se passa lá influi diretamente no nosso país.

Há uma crítica ao governo Maliki de não ter sido capaz de incluir a minoria sunita, que o resultado disso seria o terrorismo sunita. É possível que um próximo governo Maliki (se vencer as eleições de abril) atraia as minorias sunitas?

Acho que essa não é uma colocação precisa. Vários líderes sunitas participam do gabinete ministerial e do Parlamento. Os conflitos são com os terroristas, não com os sunitas. Apenas ocorrem em províncias de maioria sunita. Mas o governo já combateu o terrorismo também em províncias xiitas. A missão do governo é tentar estabelecer a lei e a ordem para o cidadão iraquiano, independentemente de sua religião e etnia.

Quem patrocina grupos como o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isil)? Sabemos que alguém os patrocina. Como poderiam estar atuando na Síria há mais de dois anos e meio? Arábia Saudita, Catar?

Todos nós escutamos as notícias, mas não podemos afirmar. Desde o início, o Iraque sempre tentou levar o governo e a oposição da Síria à mesa de negociações. O governo iraquiano sempre foi contra armar os dois lados.

A participação do Irã é necessária para uma solução?

O Irã deve entrar e com força. Ele tem um relacionamento muito forte com o lado sírio e não pode deixar de participar. Essa é a minha visão pessoal. Todos os que foram contra não podem fechar os olhos para a importância do Irã na região. Tanto que têm tentado se aproximar do Irã. Espero que o Irã faça o mesmo em relação a eles. Tudo o que estamos buscando vai ser para o bem de todos na região.

Tudo o que sabemos sobre:
IraqueBrasildívida

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.