AFP PHOTO / ANDREA PATTARO
AFP PHOTO / ANDREA PATTARO

Autonomistas italianos reivindicam vitória no plebiscito em Lombardia e Vêneto

Opção pela separação venceu com maioria esmagadora e nível de participação significativo que lhes concede poder de negociação frente a Roma

O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2017 | 12h33

MILÃO - As ricas regiões italianas de Lombardia e Vêneto votaram no domingo 22 em um plebiscito para exigir do governo central maior autonomia. A opção pela separação venceu com uma maioria esmagadora e um nível de participação significativo que lhes concede poder de negociação frente a Roma.

+ Parlamento da Catalunha fará sessão plenária na quinta-feira para discutir resposta a Madri

Os líderes das duas regiões, que se localizam no norte da Itália, reivindicaram a vitória do “sim” em plebiscitos separados. A consulta popular cobrava uma dimensão particular depois do pleito por autodeterminação realizado na Catalunha, apesar de os organizadores terem dito no domingo que sua iniciativa está no marco da unidade italiana.

+ Após catalães, moradores de Veneza sonham com maior autonomia em relação a Roma

Segundo números oficiais definitivos, cerca de 95% dos eleitores que compareceram votaram a favor da independência em Lombardia e 98% em Vêneto. A participação registrada foi respectivamente 40% e 57%.

O líder de Lombardia, Roberto Maroni, havia indicado que uma participação superior a 34% seria considerada um sucesso, apesar de seus adversários do Partido Democrata (PD) terem dito que seria um fiasco se não houvesse mais de 50% de participação.

Em Vêneto, a consulta só seria válida se superasse os 50% dos votos. O líder dessa região, Luca Zaia, falou em um “belo resultado”, com “mais de dois milhões” de habitantes que foram às urnas.

Zaia destacou que a vontade de se separar era compartilhada pela “população inteira” e não por somente um partido. O Vêneto, que conta com uma ampla rede de pequenas e médias empresas, tem uma identidade forte construída em torno de Veneza, que no passado se manteve independente durante um milênio.

Ao contrário da votação realizada na Catalunha - declarada ilegal por Madri -, as votações italianas foram realizadas de acordo com a Constituição, mas Roma não tem obrigação de acatá-las.

Hackers

A transmissão dos resultados foi afetada, segundo autoridades do Vêneto, por um ataque de hackers. “Temos três níveis de segurança; os hackers alcançaram dois deles”, ressaltou Zaia, que reivindicou a vitória do “sim” de todas as formas.

Em Lombardia, por outro lado, onde se votou pela primeira vez com tablets, o líder regional, Roberto Maroni, garantiu que o sistema havia funcionado.

Os eleitores deveriam a se pronunciar sobre se queriam que a região tivesse à disposição “formas adicionais e condições particulares de autonomia”, segundo a fórmula inscrita na Constituição. A natureza e a amplitude dessa autonomia deve agora ser negociada com Roma e ser validada pelo Parlamento logo depois.

“Votei ‘sim’ para dar mais poder ao Vêneto com uma futura Itália mais forte e mais federal”, disse o prefeito de Veneza, Luigi Brugnaro.

Apoio

Matteo Salvini, líder da Liga do Norte (extrema direita), partido que está no poder nas duas regiões e promove o plebiscito, comemorou o fato de que milhões de eleitores tenham se colocado a favor de “uma política mais próxima, mais concreta e eficaz, com menos burocracia e menos desperdício”.

O “sim” também contava com o apoio do partido Forza Italia, de Silvio Berlusconi, do populista Movimento Cinco Estrelas e de vários sindicatos e organizações patronais. O Partido Democrata  não havia dado instruções para o voto.

Lombardia, com 10 milhões de habitantes, e Vêneto, onde vivem 5 milhões de pessoas, estão entre as regiões mais ricas da Itália e contribuem com cerca de 30% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Elas também são as mais “virtuosas” quanto a endividamento, gasto público por habitante e funcionamento do sistema de saúde.

Contam com um superávit fiscal de € 70.000 milhões de euros, metade da qual Maroni e Zaia esperam reivindicar de Roma, paralelamente a setores mais importantes como infraestrutura, saúde ou educação.

Estima-se que os fundos públicos estejam mal administrados pelo Estado central e poderiam ser utilizados de maneira muito mais eficaz por meio de associações entre as regiões. “Vim votar a favor do ‘sim’ porque penso que é justo que (...) Lombardia disponha de ao menos 50% de sua própria riqueza”, declarou Franco Bonadonna, de 82 anos.

Apesar de muitos pensarem sobre a situação da Catalunha, “as semelhanças são mínimas, o sentimento independentista não está muito difundido”, declarou Nicola Lupo, professor da Universidade de Roma. / AFP e REUTERS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.