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Jovem que atacou pedestres em Paris era checheno fichado por radicalização

Khamzat Azimov, de 20 anos, era naturalizado francês e vivia na França desde o início dos anos 2000; sua ligação com o EI ainda não havia sido estabelecida, mas ele tinha sido investigado pelo serviço secreto por proximidade com um pregador jihadista

Andrei Netto, correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

13 Maio 2018 | 13h58
Atualizado 14 Maio 2018 | 18h10

PARIS - O homem que atacou pedestres com uma arma branca, matando uma pessoa na noite de sábado, 12, no centro de Paris, era um russo checheno suspeito de radicalização e que, por isso, esteve nos radares do serviço secreto francês.

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Khamzat Azimov, de 20 anos, nasceu na Chechênia, república de maioria muçulmana da Rússia que passou por duas guerras entre 1990 e 2000. Refugiado ainda criança na França, acompanhado dos pais, vivia em um bairro popular da capital até cometer o atentado, cuja autoria foi reivindicada pelo grupo terrorista Estado Islâmico (EI), e ser morto pela polícia.

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O ataque ocorreu às 20h50 (15h50 em Brasília), no bairro de Ópera, muito frequentado por turistas e parisienses. A região atrai visitantes por seus restaurantes e salas de cinema e teatro, além da Ópera Garnier, a mais importante do país. 

Segundo testemunhas, o agressor correu por várias ruas do bairro com uma faca em punho atacando pedestres e gritando “Allahu akbar” (“Deus é o maior”, em árabe). Entre o primeiro chamado à polícia e a intervenção de agentes, houve nove minutos de intervalo.

Parte da ação acabou sendo flagrada pela câmera do celular da brasileira Wladia Drummond, cujo vídeo publicado em sua conta no Twitter ilustrou o ataque em veículos de mídia de todo o mundo. 

“Pensei que fosse um assalto. Ouvi gritos chamando a polícia e ao chegar na janela vi essa cena. Não tinha noção da extensão da maldade que acontecia ao redor. Da janela do hotel só vejo esse beco. Depois que vi pessoas correndo e outros sons de sirene que percebi”, escreveu a brasileira.

O vídeo mostra um jovem de 29 anos caído no asfalto. Atendido pelo serviço de médico de urgência, ele não resistiu aos ferimentos de facadas. 

Já o agressor foi interpelado por uma patrulha da polícia. Dois agentes armados ainda tentaram dominá-lo com uma pistola de descargas elétricas, sem sucesso. Na sequência, Azimov acabou morto a tiros no momento em que tentava atacar os policiais. O episódio provocou cenas de pânico no interior do bairro. Frequentadores de restaurantes da região buscaram abrigo no interior dos estabelecimentos, e acabaram ficando pelo menos duas horas bloqueados por ordem da polícia.

Além do jovem morto, duas pessoas precisaram de socorro em urgência, uma mulher de 54 anos, ferida no pescoço e no rosto, e um homem de 34 anos, também atingido por facadas. Uma mulher de 26 anos e um homem de 31 tiveram ferimentos leves. Todos estavam fora de perigo na noite de domingo. 

Nesta noite, o presidente americano, Donald Trump, condenou o ataque em Paris em sua conta no Twitter e pediu mudanças no "processo de pensar o terror". "Em algum momento os países terão de abrir os olhos e ver o que realmente está acontecendo."

Identificação

Tão logo a área foi isolada, o principal trabalho dos investigadores se concentrou na identificação do terrorista, que não tinha documentos junto ao seu corpo. No início da manhã de domingo, a seção antiterrorismo do Ministério Público informou que já tinha a resposta: tratava-se de um francês naturalizado, nascido na Chechênia em novembro de 1997. Azimov não tinha antecedentes policiais, mas havia sido alvo de uma “Ficha S” – de "Segurança do Estado” –, como se chamam os arquivos do serviço secreto relativos a suspeitos de radicalização ou atividade terrorista na França.

Azimov vivia na França desde o início dos anos 2000, quando deixou a Chechênia em guerra em busca de asilo. A família viveu em Nice e em Estrasburgo, onde se radicou. Em 2004, receberam o status de refugiados e ajuda econômica para viver na França.

Em 2010, sua mãe obteve a nacionalidade francesa, que transmitiu ao filho, então com 13 anos. Depois de se mudarem para Paris, o jovem teria estabelecido vínculos com pregadores islamistas, e por isso tornou-se objeto de observação da Direção Geral de Segurança Interior (DGSI), o serviço secreto interior francês.

Sua eventual ligação com o Estado Islâmico não havia até aqui sido estabelecida pelas investigações, mas sua proximidade com um pregador jihadista preocupava as autoridades. Neste domingo, 13, o Ministério do Interior confirmou a existência de um vídeo de reivindicação atribuído a Azimov e distribuído na internet pela Amaq, agência de propaganda do EI, em que o jovem reivindica a ação.

“O autor deste ataque à faca em Paris é um soldado do Estado Islâmico e a operação foi levada a cabo em represália aos estados da coalizão”, afirmou o comunicado, referindo-se à aliança militar ocidental formada pelos EUA, França e Reino Unido, países que atuam de forma coordenada na Síria e no Iraque contra o grupo terrorista.

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Até o início desta noite, os pais de Azimov continuavam detidos para averiguações, assim como uma terceira pessoa, supostamente um amigo dele. 

Culpa

O presidente da Chechênia, Ramzan Kadyrov, responsabilizou a França pelo atentado cometido. “Toda a responsabilidade pelo fato de que Azimov decidiu adotar a via da criminalidade cabe inteiramente às autoridades francesas”, afirmou em uma mensagem distribuída pelo serviço de mensagens instantâneas Telegram.

“Ele apenas nasceu na Chechênia, mas cresceu e formou sua personalidade, suas opiniões e suas convicções no seio da sociedade francesa. Estou certo de que se tivesse passado sua adolescência na Chechênia, sua sorte seria diferente."

Em sua mensagem, Kadyrov não fez referências aos atentados cometidos por muçulmanos ultra-radicais em solo checheno desde 2007.

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