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Autoridades da Nigéria usam crise do coronavírus para fechar escolas islâmicas

Governos de 19 Estados querem deixar fechados centros islâmicos informais que, segundo a ONU, abrigam 1,5 milhão de crianças apenas no Estado de Kano

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 03h00

Há anos, o desejo das autoridades do norte da Nigéria de fechar as 'madrasas', as escolas corânicas, colide com tradições e religião. Porém, após o fechamento dos colégios devido ao coronavírus, 19 Estados anunciaram que esses estabelecimentos não voltarão a abrir. "Queremos proibir esse sistema. Queremos que todas as crianças cresçam próximas de seus pais", afirmou recentemente o governador do Estado de Kano, Nasir Ahmad El Rufai.

A ONU estima que 1,5 milhão de crianças estejam matriculadas nesses centros islâmicos informais apenas em Kano, o mais populoso do norte da Nigéria, com 14 milhões de habitantes. Mas os chefes tradicionais alegam que, sem esses centros, 3 milhões de crianças poderiam ser condenadas à mendicância para sobreviver.

A educação nesses estabelecimentos é gratuita, mas as crianças, enviadas pelos pais a partir dos seis anos, precisam se cuidar sozinhas, se vestir e, às vezes, dormir no chão, em condições muito precárias e insalubres.

As escolas corânicas não estão sujeitas a nenhuma vigilância pelas autoridades. No ano passado, foram descobertos centros de "correção" para crianças ou jovens viciados em drogas, ou pessoas com transtornos psiquiátricos que haviam sido enviadas por suas famílias para "serem curadas", o que causou grande comoção no país. 

Os "almajaris" (como os estudantes dessas madrasas são chamados no idioma local) estavam acorrentados, mal alimentados e eram submetidos a tratamento desumano. Uma dúzia desses estabelecimentos foi fechada, mas são tão numerosos que é difícil controlá-los e até identificá-los. "A pandemia de covid-19 nos dá a oportunidade de testar os almajaris e devolvê-los às suas famílias", insistiu o governador de Kano.

Tradição 

Os religiosos muçulmanos mantêm uma influência importante entre a população, mas também no mundo político e entre os líderes tradicionais.

Nos Estados onde a lei islâmica está em vigor, esses religiosos denunciam uma tentativa das autoridades de "destruir o sistema tradicional de ensino do Corão".  "Não é possível suprimir um sistema que existe há séculos da noite para o dia", reclamou o diretor de uma escola corânica em Kano, Jibril Salihu.

Seus alunos também não querem abandonar a escola. "O que o governo decidiu é injusto para nós", diz Awwalu Abdullahi, de 20 anos, que está aprendendo a ler, escrever e decifrar o Corão há cinco anos. "Se eles nos mandarem para casa, nos juntaremos às fileiras de nossos colegas analfabetos", acrescenta. 

O sistema de educação está devastado na Nigéria, após décadas de negligência por parte das autoridades públicas e devido a uma explosão demográfica, especialmente no norte do país, onde a grande maioria da população vive abaixo da linha da pobreza extrema. 

Estima-se que 10,5 milhões de crianças entre 5 e 14 anos de idade não frequentam a escola, segundo o sociólogo Saminu Dala. "O sistema educacional oficial está em decomposição". E enquanto dezenas de milhões de jovens nigerianos não puderem ser absorvidos pelas escolas, as escolas corânicas continuarão a proliferar. / AFP

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