Autoridades do Islã debatem valor de jihad contra os EUA

Poucas horas após o início da ofensiva norte-americana contra o Iraque, nesta quinta-feira, a discussão na televisão estatal saudita era sobre se os jovens muçulmanos deveriam responder aos éditos de alguns clérigos autorizando a jihad (guerra santa) contra os Estados Unidos.O convidado do programa de televisão, um respeitado clérigo, pediu aos jovens que obedeçam apenas às fatwas (éditos religiosos) decididas por clérigos apontados pelo governo. Tais religiosos ainda não se pronunciaram sobre o assunto.No entanto, desde o início da ação militar norte-americana, fatwas declaradas por clérigos muçulmanos fora dos círculos de poder foram publicadas na Internet e na mídia para pedir uma jihad contra os Estados Unidos e os governos que apóiam a ofensiva contra o Iraque.Nesta quinta-feira, Ahmed bin Abdullah al-Madi, clérigo e professor de leis islâmicas, defendeu que uma jihad poderia ser tanto um boicote a produtos norte-americanos quanto a alvejar interesses dos EUA e da Grã-Bretanha "em qualquer lugar do mundo, até que acabem os ataques contra o Iraque".Perguntado sobre se tais ações seriam consideradas "terrorismo", ele questionou: "Essa decisão norte-americana de atacar o Iraque sem a aprovação das Nações Unidas não é terrorismo? Resistir aos agressores seria terrorismo?"Muitos governos temem que a guerra seja explorada pelos militantes islâmicos, que aparentemente pretendem utilizar o conflito para recrutar seguidores. Eles vêm tentando desencorajar a retórica extremista para evitar o início de uma revolta contra os ocidentais, como resultado do conflito.No Egito, o prestigiado Centro de Pesquisas Islâmicas da Universidade Al-Azhar, no Cairo, foi pressionada a reverter uma declaração de 10 de março que dizia: "Se o inimigo entrar na terra dos muçulmanos, a jihad se torna uma obrigação islâmica, pois nossa comunidade árabe e muçulmana está enfrentando uma nova Cruzada contra nossa terra, nossa honra, nossa fé e nossa nação."O grão-xeque de Al-Azhar, Mohammed Sayed Tantawi, rejeitou na segunda-feira o termo "nova Cruzada", qualificando-o como "injustificável e rejeitado totalmente", de acordo com o chefe de seu gabinete, Omar Bastaweissy.Dois dias mais tarde, o instituto recuou, garantindo que não tinha a intenção de promover o conflito entre muçulmanos e cristãos.Os líderes espirituais dos muçulmanos sunitas do Líbano condenaram a ação dos Estados Unidos contra o Iraque como uma "agressão criminosa" e pediu que seja a ONU, e não os guerreiros da fé, que interrompa o "neocolonialismo norte-americano".Hoje, um outro clérigo saudita, xeque Saud al-Funeisan, respondeu na televisão sobre o que deveriam fazer os muçulmanos quando um país islâmico é atacado por uma nação não-muçulmana.Al-Funeisan disse que os EUA estão somente atrás do petróleo iraquiano, da segurança de Israel e da mudança dos hábitos e tradições do Iraque.Ele alertou, porém, que as "fatwas que envolvem a perda de vidas são muito sérias e não devem ser declaradas somente por uma pessoa". De acordo com o religioso, "apenas uma fatwa grupal, decidida por religiosos de credibilidade, devem ser obedecidas".Deus fez da estabilidade e da segurança uma prioridade e as pessoas não devem fazer nada que rompa a harmonia dessa ordem, disse ele, "pois sem essas coisas não haverá fé, não haverá salários a receber, nem sono, comida ou bebida".Al-Funeisan disse ainda que os jovens precisam levar em consideração que o presidente do Iraque, Saddam Hussein, é um "descrente secular, com o qual nada temos em comum"."Vocês não devem venerá-lo como um herói que desafiou o mundo", aconselhou.Segundo ele, os jovens não devem ir ao Iraque lutar ao lado dos iraquianos."Eles estarão encurralados entre o infiel partido Baath e o inimigo opressor, arrogante, tirânico e infiel: os Estados Unidos", resumiu.Veja o especial :

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