Joe Raedle/Getty Images/AFP
Joe Raedle/Getty Images/AFP

Autoridades encontram túneis para passagem de drogas sob a fronteira entre EUA e México

Especialistas afirmam que a descoberta das passagens subterrâneas mostra que um muro não solucionaria o problema da imigração ilegal ou do tráfico de drogas

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2019 | 17h21

Um túnel tem cerca de 15 metros, está inacabado e percorre dois países. Começa com canais de drenagem que uma cidade fronteiriça dos Estados Unidos compartilha com o México e termina abruptamente sob um estacionamento do Arizona. Outro tem cerca de 24 metros, também inacabado. A sua entrada foi achada dentro de uma loja abandonada em Nogales, cidade na fronteira do México que também tem outro túnel, de nove metros, sem informações sobre o local de entrada ou saída.

Esses três túneis, os quais as autoridades suspeitam terem sido construídos para contrabando ilegal ou para levar pessoas até a fronteira, foram descobertos entre dezembro e janeiro, ao mesmo tempo em que o presidente Trump continua a exigir US$ 5,7 bilhões para construir um muro na fronteira.

O impasse sobre a principal promessa de campanha de Trump resultou no que é a maior paralisação do governo dos EUA, deixando milhares de funcionários federais sem pagamento. O presidente argumentou que construir barreiras físicas impediria a imigração ilegal e o tráfico de drogas para os Estados Unidos.

Mas especialistas dizem que esses túneis reafirmam a realidade na fronteira do sul: drogas são traficadas para o país por meio de múltiplas maneiras, incluindo a subterrânea. Uma barreira física, ainda que uma cerca, ripas de aço ou muro de concreto, manteriam de fora as pessoas que estão dispostas a jogar as regras do jogo.

Mas, para aqueles mais obstinados, os muros são apenas inconveniências temporárias, afirmou David Shirk, professor de relações internacionais da Universidade de San Diego. “Se nós estamos falando sobre drogas ou pessoas, onde existe vontade, há um jeito de contornar o muro. Esses túneis ressaltam a futilidade do atual debate, com o fato de que haverá ene maneiras em que os traficantes e pessoas sem documento poderão furar as barreiras que colocamos na fronteira”, afirmou Shirk.

Trump continuou a insistir no seu plano nesta terça-feira, 15, ao dizer que “apenas um muro irá ajudar” a manter o país seguro. Os últimos túneis descobertos estão apenas entre os mais recentes. Mais de 200 túneis foram descobertos na história da Patrulha da Fronteira dos EUA.

Christopher Wilson, diretor assistente do Instituto México no Centro Internacional para Acadêmicos Woodrow Wilson, afirmou que os túneis foram achados em áreas urbanas ou suburbanas e geralmente entram ou saem de edifícios dos Estados Unidos. Eles são construídos em áreas onde muros e cercas já existem, e mais muros não pararam isso, ele disse. “A descoberta de novos túneis reenfatizam (a necessidade) por uma estratégia multifacetada, não importa o que você esteja fazendo”, disse Wilson, citando os investimento em tecnologia e em equipes nas portas de entrada. “Em termos de  investimentos, US$ 5 bilhões ou US$ 20 bilhões ou US$ 60 bilhões para um muro, não vai dar um bom retorno.”

Wilson afirmou que é difícil verificar qual a porcentagem de drogas que chega aos Estados Unidos através dos túneis. A maioria das drogas ilícitas entra nos Estados Unidos por portas de entrada.

Antigos funcionários do líder do cartel Joaquim “El Chapo” Guzmán recentemente testemunharam em julgamento que eles costumavam usar os túneis para enviar drogas entre o México e o Arizona durante anos, mas depois começaram a achar jeitos de transportar as drogas  pelas portas de entrada quando forças policiais descobriram as passagens subterrâneas.

Alguns túneis eram curtos e estavam em construção quando foram achados. Outros eram ainda maiores, como o de 180 metros que foi descoberto em agosto sob um antigo restaurante KFC em San Luis, Arizona, e outro achado em outubro em Baja Califórnia, no México, a apenas 60 metros ao sul da fronteira.

Outros foram mais sofisticados, como o túnel de 800 metros equipado com ventilação, trilhos e eletricidade, descoberto em 2016 sob San Diego e Tijuana. É o mais longo túnel descoberto até agora.

Os recém-descobertos, encontrados ao longo de duas cidades de Nogales (uma no México e outra no Arizona), são, em comparação, rudimentares. Traficantes construíram túneis ao longo dos dois municípios, aproveitando-se do sistema de drenagem de que elas compartilham. La Jornada, um dos jornais da Cidade do México, noticiou que mais de 210 túneis foram descobertos na região desde 1990.

O primeiro foi encontrado em dezembro por agentes da Polícia da Fronteira em Tucson e por autoridades americanas. A entrada foi submergida devido à drenagem construída abaixo das duas Nogales, a americana e a mexicana. Trata-se de 15 metros de comprimento, 60 centímetros de largura e 60 cm de altura. Boa parte da escavação, cerca de treze metros, se estende até os EUA, onde o fim foi descoberto sob um estacionamento. Autoridades afirmam que acharam materiais de escavação, sugerindo que a passagem ainda estava sob construção.

Um segundo túnel foi descoberto mais cedo neste mês. A imprensa mexicana reportou que a polícia achou a entrada dentro de uma loja na Nogales mexicana, não muito longe da fronteira do Arizona. Um terceiro foi encontrado dias depois. A polícia federal mexicana postou um vídeo na semana passada mostrando autoridades entrando na escavação.

Autoridades dos EUA e do México disseram pouco sobre os túneis. A alfândega americana não respondeu ao pedido de comentário. Autoridades do escritório em Arizona falaram ao jornal Arizona Republic que eles deram licença para a equipe de assessoria de imprensa por causa da atual paralisação do governo e são incapazes de dar mais informações. / WASHINGTON POST

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.