AFP PHOTO / PHILIPPE HUGUEN
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França remove 2 mil migrantes da ‘selva’ em Calais

Estrangeiros retirados do acampamento improvisado foram levados em ônibus para 11 diferentes regiões do país e devem pedir refúgio

Andrei Netto, Enviado Especial / Calais, França, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2016 | 08h22

Mais de 2 mil imigrantes foram removidos nesta segunda-feira do acampamento improvisado de Calais, no norte da França, onde se localiza a favela que começa a ser desmontada pela polícia. Em uma operação que mobilizou forças de segurança, assistentes sociais e ONGs, grupos de estrangeiros que acampavam na esperança de atravessar o Canal da Mancha e obter refúgio ou asilo no Reino Unido começaram a ser retirados. 

Os imigrantes foram levados em ônibus a mais de 400 Centros de Acolhimento e Orientação (CAO) instalados no interior do país. A ação ocorreu durante todo o dia sem incidentes maiores. Pelo menos 1,2 mil policiais civis e militares isolaram toda a região, contendo a entrada na área de militantes No Borders, um grupo de black blocs que lutam contra as fronteiras na Europa. Sem a ação deles, o trabalho da polícia foi facilitado e contou com a colaboração de ONGs como o Socorro Católico, que prestam auxílio aos favelados da “selva”, como o local é conhecido na França.

Os imigrantes começaram a chegar às filas organizadas pelo Ministério do Interior no final da madrugada, primeiro às centenas, depois aos milhares – estima-se que entre 7 mil e 10 mil pessoas vivam no campo. Um hangar de 3 mil metros quadrados situado a 300 metros da entrada da favela foi preparado por agentes do Escritório Francês de Imigração e Integração (OFII) para triagem. 

Ao serem atendidos com a ajuda de intérpretes, os imigrantes tinham o direito de apontar em um mapa duas regiões da França para as quais aceitariam a remoção. Ao escolherem, recebiam um bracelete vermelho ou amarelo, o que os dividia em filas de espera dos ônibus. 

Mais de 60 veículos partiram nesta segunda-feira, totalizando 2.318 imigrantes removidos de Calais no primeiro dia da operação, que deve durar entre quatro e cinco dias. Eles foram recebidos ao longo de todo o dia em centros de acolhimento localizados em 11 regiões do país, onde darão início a processos de pedido de refúgio, asilo político ou de permanência como imigrantes econômicos – estes, com maior risco de expulsão. 

Perfis. Os primeiros da fila eram, na maioria, imigrantes cansados da vida na favela, sob o frio, a chuva e a falta de condições de saneamento, saúde e educação. Esse era o caso do sudanês Noah Adam, de 23 anos, que chegou à “selva” em 25 de maio, após cruzar o Mediterrâneo de barco da Líbia para a Itália. “A ‘selva’ é uma floresta, não é um lugar para seres humanos viverem. Há pessoas boas, mas há pessoas ruins”, contou Adam, que foi roubado e ameaçado com uma faca no pescoço durante sua estadia. 

Centenas de mulheres e crianças também foram atendidas nesta segunda-feira, mas sem prioridade. Esse foi o caso do casal Selma Mustapha, de 22 anos, e Mohamed Hassan, de 35 anos, sudaneses que viveram dois meses na “selva” e buscavam um lugar na fila para serem transportados ao interior do país. “Não conseguimos passar para o Reino Unido, e agora estamos tentando ficar aqui na França. Não sabemos para onde iremos, mas pouco importa. Vamos para qualquer lugar”, afirmou Selma.

Entre os estrangeiros, havia alta incidência de menores desacompanhados. Emal Kamranzay, de 17 anos, ainda sonha em atravessar o Canal da Mancha depois de seis meses na favela. “Isso não é vida para jovens. Vivemos como macacos. Somos pessoas jovens que têm antepassados que já partiram para o Reino Unido muito tempo atrás. Agora estamos tentando encontrá-los”, argumentou, reclamando da assistência social francesa. 

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