Autoridades russas defendem uso do gás

Tiveram início hoje os enterros dos corpos dos reféns mortos durante a ocupação de 58 horas de um teatro de Moscou por rebeldes chechenos. Enquanto isso, autoridades russas defendiam de forma intransigente a decisão de encher o teatro com um gás secreto antes das forças especiais invadirem o local na madrugada de sábado, resgatando centenas de reféns e matando 50 de seus captores.O gás imobilizante visava impedir que os seqüestradores detonassem cintos explosivos que carregavam, e bombas espalhadas por todo o prédio. O objetivo foi atingido, mas o gás também matou 116 reféns.Hoje, continuavam hospitalizados 245 dos reféns resgatados, 16 em estado grave, segundo a agência de notícias Interfax. Já receberam alta 418 pacientes. Entre os mortos, estão nove estrangeiros, incluindo um americano."Não havia um cenário que pudesse ter garantido a vida dos reféns e das forças especiais num teatro com 150 kg de explosivos em seu interior", argumentou Sergei Yastrzhembsky, um assessor do presidente russo Vladimir Putin.A tristeza em cemitérios de Moscou contrastava totalmente com o ambiente dentro do hospital número 13 da capital russa, onde os portões de ferro foram finalmente abertos para ansiosos parentes de ex-reféns - alguns dos quais vinham diariamente esperar por notícias. Carregando buquês de flores, os parentes enfrentaram com tranqüilidade dois pontos de identificação antes de entrarem no hospital.Apesar de a operação de resgate do sábado ter sido criticada na mídia russa, a maioria dos russos parece ter aceitado as perdas. Uma tentativa da União das Forças de Direita, de estabelecer uma comissão parlamentar para investigar todos os aspectos da crise dos reféns - incluindo a operação de resgate - parecia fadada ao fracasso, quando não conseguiu hoje o apoio de partidos de centro."Baixas seriam inevitáveis de qualquer forma", disse Andrei Seltsovsky, chefe do departamento de saúde de Moscou, segundo a Interfax.Segurança nacionalNo Kremlin, Putin reuniu-se com altos oficiais para discutir o fortalecimento da segurança nacional, em vista das ameaças terroristas.O ministro da Defesa, Sergei Ivanov, disse que Putin ordenou que fossem feitas revisões no conceito de segurança nacional, em linha com sua promessa de segunda-feira, de dar mais poderes aos militares para reprimir supostos terroristas e seus patrocinadores, "onde quer que estejam"."Entendemos que a ameaça terrorista à Rússia, inclusive do exterior, está aumentando", afirmou Ivanov.Os rebeldes capturaram o teatro de Moscou na última quarta-feira e fizeram mais de 800 reféns. Eles exigiam que Putin retirasse as tropas russas da Chechênia.Forças especiais mataram 50 seqüestradores durante a operação de resgate. As autoridades médicas de Moscou reafirmaram hoje que apenas 2 dos 118 reféns mortos foram vítimas de disparos. Mais cedo, um funcionário do governo, Mikail Avdyukov, havia dito que 45 pessoas haviam sido baleadas.Londres questionaA Grã-Bretanha apresentará nesta semana à Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq) uma requisição formal para que a Rússia informe o tipo de gás usado na operação. O pedido seria encaminhado ainda hoje. Uma fonte da Opaq disse que o governo russo ignorou uma solicitação informal da organização, bem como da Embaixada dos EUA em Moscou, para identificar a substância.No entanto, ganham força os indícios de que se tratava de um gás à base de opiáceos (derivados de ópio), não proibido por tratados internacionais. Uma pessoa ligada à embaixada britânica em Londres disse ao diário The Times que a morte de um número elevado de pessoas (116) resultou da dose excessiva de gás com componentes de ópio.

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