Autoritarismo latino-americano e europeu

Movimentos populistas perdem força na Argentina e na Venezuela, mas se revigoram no sul da Europa antes de eleição parlamentar

FEDERICO FINCHELSTEIN & FABIÁN BOSOER, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2013 | 02h02

O populismo autoritário, há muito associado a regimes latino-americanos, é geralmente considerado uma coisa do passado na Europa. Essa visão é enganosa. Agora que países como Argentina e Venezuela começam a se distanciar lentamente do tipo de política peronista do casal Kirchner e do culto à personalidade de Hugo Chávez, respectivamente, um perigoso tipo de populismo de direita está retornando à Europa.

Em termos gerais, os movimentos populistas, que tendem a ganhar força depois da implementação de medidas de austeridade, são uma tentativa de corrigir crises de representação no governo. O tipo de populismo latino-americano vem sendo, historicamente, a eleição por amplas maiorias de presidentes com tendências autoritárias que ampliam os direitos sociais enquanto cerceiam as liberdades políticas. Já o "europopulismo" tem como alvo, geralmente, os imigrantes e defende a desintegração da União Europeia.

Depois da extinção dos partidos fascistas europeus após a 2.ª Guerra, Juan e Evita Perón, da Argentina, fizeram do populismo um gênero de primeira necessidade da governança latino-americana de meados dos anos 40 ao fim dos 50. A persistência de desigualdades sociais também abriu os portões para líderes paternalistas como Getúlio Vargas, no Brasil, e José Velasco Ibarra, no Equador. Eles estenderam a participação das massas na política, enquanto colocavam restrições à oposição.

Mudanças. Na Venezuela, Chávez trouxe essa tradição para o século 21. Néstor Kirchner assumiu o clássico manto peronista na Argentina, em 2003. Depois da morte de Chávez, em março, a Venezuela testemunhou o crescimento de um novo culto à personalidade centrado no líder morto. Com a inflação venezuelana em 54%, o pensamento mágico não tem sido suficiente para produzir apoio público a um governo caracterizado por uma má gestão econômica.

O controle do poder por Nicolás Maduro foi fraco desde o início: ele foi eleito em abril por uma margem ínfima depois de uma disputa inesperadamente apertada. A chamada "guerra econômica" de Maduro contra os interesses empresariais venezuelanos, que ele condena como traidores do país, resultou em saques, instabilidade geral e aumento da polarização interna.

Na Argentina, a presidente Cristina se tornou a face do populismo peronista após a morte de Néstor, em 2010. A insatisfação pública refletiu-se nas eleições parlamentares de outubro, quando o governo foi derrotado nos distritos mais importantes. Esse chamado voto punitivo esvaziou o desejo de seus seguidores de reformar a Constituição para permitir sua reeleição contínua.

Do outro lado do Atlântico, o populismo está ressurgindo. Muitos temem que o Parlamento Europeu possa estar sob risco de um controle populista de direita depois das eleições de maio de 2014. Na França, a Frente Nacional, de extrema direita, de Marine Le Pen, conseguiu sair na frente nas pesquisas.

Na Grécia, o surgimento de um tipo de populismo profundamente arraigado no passado fascista é particularmente perturbador. As mazelas financeiras paralisantes do país e a insistência de Bruxelas em medidas de austeridade provocaram respostas populistas que evocam o pior do fascismo europeu.

O partido neofascista Aurora Dourada, que recebeu 7% dos votos nas eleições parlamentares gregas de 2012, usa abertamente um logotipo parecido coma suástica. Sentimentos parecidos estão em ascensão também na Hungria, onde o partido Jobbik, nacionalista, anti-imigração e antissemita, está prestes a ser o segundo maior no Parlamento.

Com sua posição radical contra o pluralismo e os direitos das minorias, os populistas gregos e seus congêneres húngaros - juntamente com dezenas de partidos contrários à União Europeia posicionados para conquistar assentos nas eleições parlamentares - tornam o tipo de populismo europeu florescentes de hoje muito mais assustador que seu congênere latino-americano. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

FEDERICO FINCHELSTEIN É

PROFESSOR DE HISTÓRIA NA

NEW SCHOOL, DE NOVA YORK

FABIÁN BOSOER É EDITOR DE

OPINIÃO DO JORNAL 'CLARÍN',

DA ARGENTINA

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