Aval à separação kosovar estabelece novo precedente

Separatistas, secessionistas e divisionistas, desde Taiwan, Xinjiang e Somalilândia até Sri Lanka, Geórgia e West Country receberão com entusiasmo a decisão tomada ontem pela Corte Internacional de Justiça da ONU, que reconheceu a independência unilateral de Kosovo em relação à Sérvia. O caso estabelece novos precedentes para o direito internacional.

Cenário: Simon Tisdall, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2010 | 00h00

Numa análise retrospectiva, parece claro que a reunificação da Alemanha, em 1990, contrariou a maré da história moderna. Ela representou uma espécie de último suspiro do velho modelo unitário de Estado-nação do século 19. Desde a queda do Muro de Berlim, por todos os lugares, os países começam a se desmanchar.

Vuk Jeremic, chanceler sérvio, que liderou a oposição à declaração unilateral de independência de Kosovo, sugeriu que a fragmentação do paradigma do Estado-nação poderia se espalhar, como fissuras numa peça de louça, e provocar grandes estragos. Em discurso antes da separação de Kosovo, em 2008, ele voltou seu olhar para além dos Bálcãs, na direção de países como o Sudão, que pode ser dividido até o fim do ano.

Na África, disse ele, "há cerca de 50 "Kosovos" esperando para ocorrer". A aceitação internacional da medida unilateral dos kosovares seria um sinal muito perigoso de que não há mais regras. "A Sérvia quer jogar pelas regras. A comunidade internacional não pode decidir agora que tais regras não são mais consideradas válidas", disse Jeremic.

Agora, a Sérvia enfrenta a crescente perspectiva do reconhecimento internacional de Kosovo, da sua possível admissão como membro pleno da ONU e da perda de um território considerado parte de sua história. Ao mesmo tempo, abrem-se para Belgrado os portões da Europa.

Trata-se de um remédio amargo. A situação pode causar distúrbios internos. Mas, quando a poeira assentar, o bom senso e os interesses próprios podem ditar a aceitação do resultado. Assim como a Batalha de Kosovo, travada em 1389 e considerada tão central para a identidade sérvia, a luta atual por Kosovo foi perdida. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É ANALISTA DO "THE GUARDIAN"

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