Aval para negociar com governo de Maduro divide oposição na Venezuela

Setor da MUD, principal frente antichavista, defende a destituição imediata do presidente, enquanto uma outra facção prefere tomar o poder pela via eleitoral

Denise Chrispim Marin, Enviada Especial / Caracas, O Estado de S. Paulo

09 de abril de 2014 | 23h23

CARACAS - O aval da frente opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD) a uma negociação com o governo de Nicolás Maduro, que começou na quarta-feira, 9, dividiu a oposição. Enquanto alguns defendem a renúncia de Maduro, rejeitam o diálogo e pedem a continuação dos protestos, Henrique Capriles, governador de Miranda, que resistiu às manifestações populares, tende a liderar as conversas com os chavistas.

O diálogo ocorre sob mediação de uma missão da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), composta por chanceleres de Brasil, Colômbia e Equador, e do núncio apostólico em Caracas, Aldo Giordano. Nesta quarta, governo e MUD enviaram carta formalizando o convite ao Vaticano.

O início dos diálogos entre governo e oposição não impediu a realização de protestos, ontem, em Caracas (Foto: Miguel Gutiérrez/EFE)

Capriles deixou a discrição de lado e anunciou que vai negociar. Há 15 dias, ele não compareceu, como membro da MUD, ao encontro da oposição com os chanceleres da Unasul. Até hoje, desenhava nos bastidores o diálogo com o chavismo. Tido como moderado, Capriles não costuma aparecer em comícios com outros opositores, como Leopoldo López (preso desde fevereiro), María Corina Machado e Antonio Ledezma. Contrário à deposição de Maduro, ele prefere a mudança pela via eleitoral.

Durante uma assembleia popular em Río Chico, Capriles afirmou que a primeira rodada do diálogo será "uma oportunidade histórica para colocar frente a frente a verdade contra a mentira". No entanto, ele teve o cuidado de baixar a expectativa sobre os resultados da negociação ao dizer que não tem certeza de que o governo mudou. Para ele, as autoridades "perderam conexão com a realidade".

Capriles pediu aos três chanceleres que fossem pessoalmente o "terceiro de boa-fé" que servirá para cobrar dos dois lados o cumprimento das promessas feitas. O chanceler brasileiro, Luiz Alberto Figueiredo, disse que as demandas da oposição não foram rejeitadas por Maduro.

A ascensão de Capriles no contexto do diálogo com o governo é considerada inevitável pelos dois polos da MUD. O deputado Pedro Palma, do Partido Social-Cristão (Copei), de centro-direita, acredita que a ala mais moderada da oposição deveria ter tido a "coragem de manter suas convicções".

"A MUD ainda está unida em torno do objetivo de substituir o governo. O que difere os moderados dos radicais é o procedimento para atingir esse objetivo. Uns querem a saída de Maduro pela força, outros defendem a saída constitucional", disse. "A MUD deveria ter aderido ao diálogo há dois meses."

Para Juan Guaido, deputado aliado a López, Capriles tende a se consolidar como negociador da oposição. "É uma figura importante e deu inegável aporte à oposição como candidato presidencial nas duas últimas eleições", afirmou. Para ele, os outros partidos que defendem a renúncia de Maduro não são contra o diálogo, mas rejeitam a negociação, que teria começado sem que Maduro atendesse a nenhuma das precondições da oposição - a libertação de presos políticos, incluindo López, o desarme de grupos paramilitares e a reconstrução das instituições democráticas do Estado. / COLABOROU LISANDRA PARAGUASSU

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