Avaliação mental pode ajudar a identificar 'lobos solitários'

Presença de transtornos não é único fator para violência e pendor para extremismo, mas estudos mostram que pode ser um dos gatilhos

JILL, LAWLESS, ASSOCIATED PRESS, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2014 | 02h02

Um extremista muçulmano matou um soldado diante do Parlamento do Canadá. Um radical de extrema direita atirou contra edifícios na capital do Texas e tentou incendiar o consulado do México. Um agressor inspirado na Al-Qaeda matou a facadas um soldado que não estava em serviço, em Londres. Segundo a polícia, os três eram terroristas e foram motivados pela ideologia. Segundo autoridades e parentes, eram indivíduos mentalmente doentes. Um número crescente de pesquisas sugere que os dois fatores influem.

Novos estudos têm contestado a ideia predominante durante várias décadas de que problemas psicológicos não são um fator importante na formação de terroristas. Todas essas pesquisas vêm encontrando um elo importante entre problemas mentais e atos terroristas praticados pelos chamados "lobos solitários".

Os estudos foram realizados antes dos fatos ocorridos em Sydney. Com grupos como o Estado Islâmico disseminando a violência na Síria e no Iraque - e a retórica brutal na internet - autoridades em todo o mundo têm expedido alertas cada vez mais insistentes sobre a ameaça representada por esses extremistas que agem sozinhos.

É difícil refrear esses indivíduos com uma estratégia de contraterrorismo orientada para interceptar comunicações e desbaratar complôs.

Atos terroristas praticados por um indivíduo isolado "não exigem muita organização". "Não requerem que muitas pessoas conspirem. E não há muita complexidade também", disse Bernard Hogan-Howe, chefe da polícia londrina, à BBC. "Isso significa que nosso tempo é curto para interditar, intervir de fato e assegurar que não levem adiante a ação."

De acordo com um agente britânico da área de segurança, muitos terroristas emitem sinais de alerta, mas reconhecer tais sinais é mais fácil quando é feita uma retrospectiva. Segundo ele, os agentes da inteligência britânicos vêm estudando o vínculo entre doença mental e atos de terrorismo praticados por um único indivíduo.

Muitas pessoas com problemas mentais não são terroristas nem violentas e, portanto, somente a doença não explica os ataques de um lobo solitário. Alguns especialistas questionam se existe realmente um vínculo.

Depois que Michael Zehaf-Bibeau atacou e matou um soldado em Ottawa, em outubro, Jocelyn Belanger, professor de psicologia da Universidade de Quebec, disse à Comissão de Segurança Nacional do Senado canadense que "achar que extremistas são loucos ou mentalmente doentes será o primeiro erro na elaboração de estratégias eficazes contra o terrorismo".

Mas novas pesquisas indicam que terroristas que agem sozinhos têm mais probabilidade de ter problemas mentais do que membros da sociedade em geral ou mesmo participantes de grupos terroristas.

Ramon Spaaij e Mark Hamm, da Universidade de Indiana, analisaram 98 "lobos solitários" nos Estados Unidos e concluíram que 40% deles tinham problemas de saúde mental identificáveis, em comparação com 1,5% na população em geral. Conclusão? A doença mental não é o único fator que impele um indivíduo a cometer atos terroristas, mas é um dos fatores.

Para Spaaij, a doença mental influi "na formação de sistemas de crença particulares e na construção do inimigo, na exteriorização da culpa pelo próprio fracasso ou nos ressentimentos em relação ao seu grande inimigo".

Um segundo estudo realizado por Paul Gill e Emily Corner, da University College London, concentrou-se em 119 indivíduos que agiram sozinhos e um número similar de membros de grupos extremistas violentos nos Estados Unidos e Europa. Quase um terço dos chamados lobos solitários - cerca de 32% - foi diagnosticado com doença mental, enquanto somente 3,4% dos membros de grupos terroristas eram mentalmente doentes.

"Terroristas integrados em grupos são bastante normais psicologicamente", afirmaram os pesquisadores. Para eles, uma das razões pode ser o fato de recrutadores provavelmente rejeitarem candidatos que aparentam ser doentes ou irresponsáveis.

Mais de um ano antes de ter assassinado a facadas um soldado em Londres, o extremismo online de Michael Adebowale já chamara a atenção dos serviços de inteligência britânicos. A agência de segurança interna MI-5 informou - num inquérito pelo Parlamento sobre o assassinato - que utilizava diversos fatores para avaliar a ameaça de potenciais lobos solitários, incluindo a sua incapacidade de lidar com o estresse e a ansiedade, isolamento social e problemas mentais.

Os agentes recomendaram que Adebowale - condenado à prisão perpétua e isolado num hospital psiquiátrico - fosse examinado pela Unidade de Ciência Comportamental da MI-5, uma equipe de psicólogos e cientistas sociais, mas tal avaliação jamais foi feita. O relatório dos parlamentares considerou que esta foi uma oportunidade perdida e recomendou que o "MI-5 se certifique de que as recomendações da unidade sejam integradas de maneira mais minuciosa nas investigações". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM LONDRES

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