Avanço da Índia se reflete no sucesso de cidadãos comuns

Quatro histórias que falam sobre a prosperidade indiana

AKASH KAPUR, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2011 | 00h00

Passei o início desta década no mesmo local em que estava no início da última: a cidade de Pondicherry, no interior da Índia, em meio aos fogos de artifício e à luz dos lampiões dos vilarejos em torno dela.

Com exceção do local onde estava, contudo, pouca coisa ainda é como era antes. Nos últimos dez anos, o interior da Índia se transformou. Vilarejos tornaram-se cidades. Casebres de barro deram lugar a estruturas de concreto. Campos foram substituídos por grandes centros de comerciais.

Esta foi uma década transcendental para a Índia. Especialmente no campo econômico, o país avançou muito. Embora sua revitalização tenha começado nos anos 80 e 90, a última década foi marcada por uma aceleração perceptível das taxas de crescimento.

Nos anos 60 e 70, a economia indiana cresceu em torno de 3,7% ao ano - a chamada (e muito ridicularizada) "taxa de crescimento hindu". No final dos anos 90, o crescimento foi de 6,5%. Mais recentemente, essa taxa ficou entre 7% e 9%.

As altas taxas de crescimento não se traduziram automaticamente em uma prosperidade universal. A Índia ainda é assombrada pela tremenda pobreza e desigualdade. No entanto, a ampliação dos horizontes e perspectivas é inegável.

Gostaria de me concentrar em algumas pessoas que ascenderam economicamente desde o início do milênio. Só tenho espaço para narrar quatro histórias de vida. Existem outras milhões como essas. No entanto, esses quatro homens e mulheres retratam um pouco a esperança que tem marcado a Índia atual e os pequenos focos de luz nas sombras da privação que por tanto tempo definiram o país.

Primeiro, quero falar de uma mulher de 38 anos, S. Rajalaxmi, do vilarejo de Kuilapalayam, ao sul do país. Ela ficou viúva aos 25 anos, quando seu marido foi atropelado por um ônibus. Com dois filhos, um menino de 3 anos e uma garota de 8. Ela era analfabeta. Vivia em um casebre de um cômodo sem água corrente.

Prosperidade. Ninguém apostaria no futuro dessa mulher ou no dos seus filhos. Há alguns anos, contudo, uma escola para mulheres foi criada perto do vilarejo e hoje a filha de Rajalaxmi estuda para obter um diploma em ciência da computação. Suas perspectivas são infinitamente melhores do que as de sua mãe. Rajalaxmi acredita, e sabe, que a filha conseguirá um bom emprego para sustentar a família.

Em Molasur, uma aldeia agrícola que sofreu uma transformação recentemente por causa de uma nova rodovia, encontrei um agricultor de 52 anos, chamado D. Ramnathan. A agricultura é uma atividade difícil, imprevisível. Ramnathan, que abandonou o ginásio, sempre trabalhou duro e economizou durante toda a sua vida.

Seus filhos colheram os benefícios. Suas duas filhas se formaram em escolas técnicas e seu filho está concluindo um curso na área de comércio. A filha mais velha trabalhou para uma empresa de tecnologia em Chicago por três anos. Agora, está de volta à Índia e pretende abrir sua própria empresa de software. "Meus filhos têm muito mais possibilidades do que eu tive", disse ele. "Foi o que sempre desejei".

Em Molasur, encontrei um outro homem, de 36 anos, motorista de táxi - um triciclo motorizado -, chamado D. Sedhuraman. Há dez anos, ele tinha poucos clientes e deu duro para sobreviver. A área em torno de Molasur enriqueceu e muitas pessoas podem hoje se dar ao luxo de tomar um táxi. As coisas melhoraram para Sedhuraman. Ele conseguiu comprar uma geladeira e um computador. Sua filha frequenta uma escola particular. O objetivo dela é se tornar médica ou engenheira.

Nem todas as cidades pequenas progrediram. Os sinais mais claros de prosperidade são evidentes na Índia urbana. Embora a atenção se concentre mais nas grandes cidades, metrópoles como Chennai, Bangalore e Mumbai, grande parte da nova riqueza e das oportunidades, na verdade, estão sendo criadas em lugares menos fulgurantes, pequenas cidades onde os sonhos da classe média estão se tornando realidade.

Em Pondicherry, antes uma cidade apática que nos últimos anos transformou-se em destino turístico, encontrei Archana Somani, de 55 anos. No início da década, ela e o marido administravam uma pequena loja de presentes e uma agência de viagens. As coisas corriam bem na época, mas hoje estão muito melhores.

Com a chegada do capitalismo na Índia, empresários como Archana expandiram os negócios, abrindo lojas de franquias de marcas estabelecidas. Na última década, ela e o marido abriram lojas das marcas Nike, Lacoste, Kodak e Titan (uma empresa de relógios indiana).

A agência de viagens também cresceu. Segundo Archana, no passado, quase todos os clientes eram turistas estrangeiros, mas hoje ela atende indianos que podem viajar. Encontrei-me com ela em seu escritório, localizado em uma rua abarrotada de pessoas fazendo compras de Natal. "Quando comprei o escritório, este era um lugar morto. Todo o mundo dizia que estávamos cometendo um grande erro." Agora, diz ela, a área está tão movimentada que não há espaço suficiente para atender a demanda. O futuro é radiante. "Pondicherry continuará crescendo e seus negócios também", afirmou.

Progresso. O otimismo de Archana não é algo tão excepcional. Hoje, é quase uma norma na Índia. As histórias que narrei aqui são as mais comuns, embora possam não ser do tipo daquelas que se costuma encontrar em jornais e revistas. Esse não foi um relato sobre o número crescente de bilionários no país, nem sobre os empresários de tecnologia muito bem sucedidos, mas histórias de vidas comuns. É o caráter comum, dentro da normalidade, dessa trajetória que leva da privação à esperança, da pobreza para alguma coisa que está a uma curta distância da prosperidade, que mostra realmente o progresso da Índia na última década. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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