Farooq Khan/EFE
Vacinação na Índia: atrasos e escassez de oferta  Farooq Khan/EFE

Avanço da vacinação contra a covid aumenta a desigualdade no mundo

Países ricos têm 15% da população mundial, mas concentram 45% de todas as doses disponíveis; enquanto EUA iniciam campanha para imunizar crianças, Chade não consegue sequer vacinar médicos e enfermeiros que trabalham na linha de frente

Thaís Ferraz, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2021 | 05h00

O avanço das campanhas de vacinação contra a covid-19 no mundo, que bateu nesta semana a marca de 1,6 bilhão de doses aplicadas, ampliou a desigualdade entre países ricos e pobres. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os países de alta renda, com 15% da população mundial, compraram 45% de todas as vacinas disponíveis. Cerca de dez países, a maioria na África, sequer aplicaram uma única dose.

O Chade é um deles. Com 15 milhões de habitantes, o país só deve receber as primeiras doses da Pfizer em junho. Médicos e enfermeiros ainda não foram vacinados. Também não começaram a vacinação Burkina Faso, Eritreia, Burundi e Tanzânia – que, em fevereiro, disse que não pretendia “aceitar” vacinas. Pequenas ilhas do Pacífico, como Vanuatu, também não iniciaram campanha de vacinação, mas têm menos urgência porque não registraram grandes surtos. 

O cenário preocupa especialistas. A OMS estima que a lenta vacinação em alguns países pode prolongar a pandemia. Os grandes laboratórios afirmam que seria possível imunizar a maioria da população mundial até o fim de 2021, mas especialistas alertam que países mais pobres podem conseguir terminar a inoculação apenas em 2024. 

O cenário favorece o surgimento de novas variantes, mais contagiosas e letais, como as cepas identificadas na África do Sul e na Índia, que podem ser resistentes às vacinas, comprometendo a imunidade em todo o mundo. “Nós já sabemos que uma variante, a sul-africana, é menos suscetível à proteção da vacina da AstraZeneca”, afirma o epidemiologista Chris Beyrer, da Escola de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins. “Enquanto as pessoas mais suscetíveis não forem imunizadas, o vírus continuará evoluindo, e isso pode minar a geração atual de vacinas”. 

As causas para a desigualdade no acesso às vacinas são muitas. A primeira, mais óbvia, é de ordem econômica. Países mais pobres têm dificuldades para comprar doses e enfrentam problemas de infraestrutura e distribuição. O ‘nacionalismo da vacina’, ou concentração de vacinas por parte de países ricos, é outra – como poucas vacinas foram aprovadas e a capacidade de produção é limitada, nações que conseguiram encomendar grandes estoques saíram na frente. 

Além disso, a logística é um grande problema. “As vacinas que usam RNA mensageiro (como Pfizer e Moderna) são muito eficientes e muito seguras. Mas são difíceis de fazer, armazenar, distribuir”, explica Beyrer. A quebra de patentes, posição agora defendida pelos EUA, não seria uma solução mágica, acredita. “É uma ciência muito avançada, e levantar as patentes não mudaria nada no curto e médio prazo, porque precisaria haver uma transferência significativa de tecnologia e de capacidade de construção (de laboratórios). É um investimento que vale a pena, mas levará tempo.” 

A preocupação se estende a países que já adquiriram vacinas, mas não conseguem acelerar suas campanhas. Quase 30, entre eles África do Sul, Austrália e Armênia, aplicaram a primeira dose em menos de 1% da população. Só 20 países ultrapassaram a marca de 50%. A imunização com vacinas de menor eficácia – como a russa Sputnik e a chinesa Sinovac – também pode ser um problema.

“Há múltiplas vacinas agora, mas poucas têm alta eficácia. Temos casos como o do Chile, onde há alta cobertura, mas não há diminuição em taxas de infecção e hospitalização”, afirma Beyrer. Mais de 90% das doses administradas no país até o momento são da Coronavac.

A falta de investimento em produção e distribuição de vacinas também têm consequências econômicas. De acordo com a Statista, empresa alemã especializada em mercado, a previsão é de que as principais economias do mundo registrem uma perda de 4,5% do PIB em razão da pandemia. 

Um estudo publicado em março na revista Science afirma que investimento extra no desenvolvimento e aplicação de vacinas poderia ter economizado trilhões de dólares em todo o mundo. De acordo com o estudo, se os governos tivessem investido para acelerar as campanhas em três meses, US$ 700 bilhões seriam economizados – ou US$ 1,3 trilhão, se forem contabilizados os custos de saúde, em um cálculo conservador. 

Algumas ações vêm sendo tomadas para reverter o cenário. O consórcio Covax, mecanismo da OMS para distribuição de vacinas, forneceu 71 milhões de doses, a maioria para países pobres. Alguns governos, como EUA e Suécia, anunciaram doações excedentes. Pfizer e União Europeia doaram 100 milhões de doses para países de baixa e média renda.

Para a diretora do Departamento de Imunização da OMS, Katherine O’Brien, as medidas são bem-vindas, mas outras precisam ser tomadas. “A doação de países que compraram muitas doses precisa acontecer em grande escala”, afirma. “Eles também podem trabalhar com as empresas que fornecem as vacinas para que elas sejam prioritariamente entregues ao Covax."

O’Brien destaca que não há vacina suficiente para imunizar toda a população global. Por isso, defende prioridades. “Os meios de alocar vacinas precisam ser baseados em termos de necessidade e de impacto para a saúde pública, não em base de competição por contratos e em quem pode pagar”, afirma. Produtores de vacina, segundo ela, deveriam priorizar o compartilhamento de insumos com outros países, que também poderiam fabricar suas doses.

Para O’Brien, o desenrolar das campanhas de vacinação amplia as desigualdades. “Se falharmos em responder à desigualdade que já existe em relação às vacinas, com certeza isso poderia tornar a desigualdade geral ainda pior”, afirma. “Nenhum país está salvo até que todos estejam a salvo.”

Brasil

Para a professora do Coppead/UFRJ Cláudia Araújo, países menos desenvolvidos, como o Brasil, enfrentam desafios específicos. “Sofremos mais com questões de transporte e armazenagem do que países menores, mais desenvolvidos, que têm infraestrutura e estradas melhores”, afirma. “Temos dimensões continentais. Então, nosso grande desafio é manter as propriedades e a qualidade da vacina por todo o deslocamento dentro do território nacional.”

Para ela, a pandemia evidenciou uma grande dependência em relação aos países mais ricos. “O setor de saúde é muito dependente de poucos fabricantes. Vimos isso não só com a vacina, mas com materiais, equipamentos, EPIs”, afirma. “Com a pandemia, o mundo se deu conta de que a estrutura produtiva precisa ser repensada.” 

 

Tudo o que sabemos sobre:
coronavírusvacinavacinação

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Dinâmica de desigualdade no acesso às vacinas pode continuar em 2023, diz especialista

Para o epidemiologista Chris Beyrer, professor da Escola de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins, expandir capacidade de fabricação é urgente

Entrevista com

Chris Beyrer, professor da Escola de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins

Thaís Ferraz, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2021 | 05h00

A demora para imunizar a população mundial pode minar a primeira geração de vacinas contra a covid-19, afirma o epidemiologista e professor da Escola de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins. “Os imunizantes da Pfizer e da Moderna que estamos usando agora foram desenvolvidas a partir do vírus encontrado em um paciente de Washington em março do ano passado. Ela já está desatualizada em 14 meses”, afirma Beyrer, que defende a expansão da capacidade de fabricação de vacinas de alta eficácia como solução para o problema. Confira a entrevista:

Quais são, hoje, as principais causas da desigualdade no acesso às vacinas contra covid-19?

A primeira coisa a ser dita é que essas vacinas, principalmente as de RNA mensageiro, são muito tecnologicamente avançadas. É uma ciência que envolve nanotecnologia, e há um número limitado de lugares em que elas podem ser produzidas agora. O segundo problema é que os países mais ricos encomendaram essencialmente todas as doses que estaremos fabricando nos próximos anos. EUA, Alemanha, muitos países da UE compraram mais vacinas do que o necessário para imunizar suas populações. Nos EUA, vamos imunizar crianças de 12 anos de idade com doses da Pfizer porque temos o suficiente para isso. Outra questão é que algumas dessas vacinas não parecem proteger tanto contra certas variantes. Temos o caso do Chile, por exemplo, onde há alta cobertura, mas com a Coronavac, e não vemos diminuição significativa em taxas de infecção e de hospitalização. Nós precisaremos focar em expandir a fabricação e distribuir mais igualmente as vacinas de alta eficácia. São elas que realmente vão acabar com a pandemia.

É possível estimar o quanto a quebra de patentes aceleraria a imunização no mundo? Seria uma “solução mágica”?

Não. Particularmente as de RNA mensageiro são muito difíceis de produzir, e quebrar as patentes não mudará nada no curto e no médio prazo. Precisaria haver uma transferência significativa de tecnologia e de capacidade de construção (de laboratórios), isso seria um grande investimento. Eu acho que vale a pena, mas levará tempo. Nessa crise urgente, onde estamos tentando nos livrar das variantes, eu acho que é necessário seguir esse caminho mas ao mesmo tempo expandir a produção, e isso não pode ser feito sem a ajuda das companhias. Só entregar para alguém um protocolo de como fazer as vacinas e esperar que esse alguém consiga...em qualquer escala real, simplesmente não é realístico. 

Quais são as principais consequências deste cenário?

Nós estamos vendo, na Índia e no Brasil, que a pandemia continua causando muito sofrimento, adoecimento, perda de vidas. E se não conseguirmos imunizar as pessoas, isso continuará acontecendo. Enquanto houver um grande número de pessoas suscetíveis não imunizadas, o vírus vai continuar evoluindo, nós já estamos vendo isso com as novas variantes. Isso poderia minar toda essa geração de vacinas. Os imunizantes da Pfizer e da Moderna que estamos usando agora foram desenvolvidas a partir do vírus encontrado em um paciente de Washington em março do ano passado. Ela já está desatualizada em 14 meses. O vírus de então era muito diferente do que circula hoje nos EUA, onde a maioria dos casos são da cepa b117, identificada inicialmente no Reino Unido. Estamos preocupados que se continuarmos nessa terrível desigualdade, o vírus vai escapar das vacinas atuais. Se isso acontecer, teremos que reimunizar as pessoas ou criar novas vacinas, e nesse caso veremos países ricos comprando doses e podemos continuar nessa dinâmica em 2023.

Quão perto estamos de uma variante que escape das vacinas atuais?

Nós já sabemos que ao menos uma variante, a identificada na África do Sul, reduz a eficácia da proteção da vacina da Astrazeneca. Não é o futuro, está aqui agora. De qualquer forma, as vacinas de RNA mensageiro parecem robustas. Elas parecem aguentar essas variantes.

Vimos campanhas de vacinação lentas também em alguns países ricos, como o Japão, e em países que controlaram a pandemia, como Austrália, Nova Zelândia e Vietnã. Como isso pode ser explicado?

Há diferentes razões para os atrasos. Alguns são regulatórios, outros são porque os países fizeram acordos de compra de vacinas que depois se tornaram indisponíveis por problemas de produção, como no caso daquelas produzidas na Índia. Há também um número de países que foram lentos na hora de encomendar vacinas. Nós sabemos que os EUA, por exemplo, fizeram isso muito rapidamente, investiram bilhões em compras de vacinas antes mesmo que elas estivessem sendo testadas em larga escala. Nós apostamos, esse dinheiro seria desperdiçado se a vacina não fosse efetiva. Mas se mostrou uma boa aposta.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Nenhum país está a salvo enquanto todos os países não estiverem a salvo, diz epidemiologista da OMS

Para a diretora do Departamento de Imunização, Vacinas e Produtos Biológicos da Organização Mundial da Saúde, Katherine O’Brien, vacinas devem ser alocadas de acordo com necessidades, não contratos

Entrevista com

Katherine O’Brien, diretora do Departamento de Imunização, Vacinas e Produtos Biológicos da OMS

Thaís Ferraz, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2021 | 05h00

A vacinação lenta em diversos países pode favorecer a circulação e mutação do coronavírus, colocando pressão mesmo sobre países com altas taxas de imunização, afirma a diretora do Departamento de Imunização, Vacinas e Produtos Biológicos da Organização Mundial da Saúde (OMS), Katherine O’Brien. Para ela, o cenário exige coordenação global. “As fronteiras dos países não são impermeáveis ao vírus”, afirma. Confira a entrevista:

Quais são, hoje, os principais gargalos da cadeia de abastecimento de vacinas?

Há um grande número de desafios. A primeira coisa a se dizer é que estamos em um cenário difícil. Os países pobres e médios representam quase metade da população mundial, mas só 17% das doses administradas foram para estes locais. Há países vacinando crianças, enquanto outros nem completaram a vacinação de trabalhadores de saúde. Nós sabemos que isso não vai levar ao fim da pandemia. O abastecimento é uma questão central e está relacionado com isso. Não há vacina suficiente para imunizar todo mundo que queira ser imunizado. Não temos capacidade de produção para tudo isso, então os meios de alocar vacinas precisam ser calculados em termos de necessidade e de impacto para a saúde pública, não com base em competição de contratos e de quem pode pagar. Parte do problema é a disponibilidade de matéria-prima, outra parte é onde a produção está sendo feita. 80% de toda a capacidade global de produção de vacinas contra a covid-19 está concentrada em só 10 países. A África, por exemplo, precisa importar 99% das vacinas que precisa. 

Com o avanço das campanhas, estes problemas podem aparecer também durante a segunda onda de imunização?

Certamente. Mas há ações que podem ser tomadas para diminuir em curto prazo os problemas de suprimento e desigualdade. Por exemplo, países que compraram muitas doses e estão muito à frente em suas campanhas de vacinação podem começar a compartilhar vacinas, como vários já estão fazendo. Mas isso precisa acontecer em uma grande escala. Segundo, eles podem trabalhar com os fabricantes para que permitam que suprir o programa Covax se torne uma prioridade. Outra coisa que os fabricantes podem fazer é priorizar o compartilhamento de insumos, para que a produção aconteça em lugares que possam garantir acesso equânime. Outra ação seria financiar completamente o Covax. Três ou quatro bilhões de doses poderiam ser adicionadas ao programa. É nisso que estamos focando agora, e que nos ajudariam no futuro, em 2022. 

Negacionismo e negligência por parte de alguns governos, como aconteceu na Tanzânia, e hesitação de parcelas da população também desempenham um papel neste cenário?

Liderança política é muito importante no apoio a programas de vacinação. E o que queremos enfatizar é que as vacinas não deveriam ser politizadas. Precisamos de liderança política para tranquilizar a população em cada país, e a tomada de decisões de líderes políticos é fundamental para este acesso. O papel da mídia social também é muito importante, já que ela pode apoiar ou propagar desinformação sobre as vacinas. Então há uma responsabilidade real das companhias e canais de fornecer informação correta. Confiança em relação à vacina pode ser uma barreira, absolutamente, e pode ser um desafio. O que queremos enfatizar é que as vacinas são produtos salva-vidas. É muito importante que líderes façam esse papel para divulgar informações corretas.

Sabemos que o cenário atual da vacinação no mundo expõe a desigualdade entre os países. Mas ele pode também ampliar esta desigualdade?

Está expondo e sim, pode aumentar. Acho que sempre há um risco. Se falharmos agora na resposta à desigualdade que já existe em relação às vacinas contra a covid-19, certamente o cenário pode se tornar pior. E essa é a responsabilidade de todos os países, no mundo todo, que se comprometeram via declarações à OMS e em outros fóruns, entendendo que a pandemia não vai acabar a não ser que haja distribuição equânime das ferramentas que temos para terminar com ela. Dissemos repetidamente: nenhum país está a salvo até que todos os países estejam a salvo. Isso é real. Enquanto partes do mundo não estiverem protegidas, o vírus continuará a circular e a mudar, colocando pressão mesmo nos países com altas taxas de imunização. Precisamos de coordenação global: as fronteiras dos países não são impermeáveis ao vírus. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Para coalizão de organizações e ativistas, vacina contra covid-19 deve ser um bem comum global

People’s Vaccine Alliance defende que crise atual demanda compartilhamento de conhecimento e imunização gratuita

Entrevista com

Maitê Gauto, gerente de Programas e Incidência da Oxfam Brasil

Thaís Ferraz, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2021 | 05h00

O desenrolar de campanhas de vacinação em todo o mundo expõe um abismo de desigualdade entre países pobres e ricos. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, os países de alta renda, que detém 15% da população mundial, compraram 45% de todas as vacinas disponíveis no mundo, enquanto cerca de dez países, a maioria deles na África, ainda não conseguiram aplicar uma única dose. Na prática, isto significa que os Estados Unidos têm doses suficientes para imunizar crianças de 12 anos, enquanto o Chade não conseguiu vacinar médicos e enfermeiros que trabalham na linha de frente contra o coronavírus.

Para a People's Vaccine Alliance, coalizão de ativistas e organizações como Anistia Internacional, Oxfam e Global Justice Now, o cenário demanda uma “vacina do povo”, gratuita e baseada em conhecimento compartilhado. “O preço médio cobrado pelas vacinas – US$ 19 – é muito maior que o custo de produção, que gira em torno de US$ 2”, afirma Maitê Gauto, gerente de Programas e Incidência da Oxfam Brasil. “E mesmo com toda essa possibilidade de lucro, as poucas empresas fabricantes de vacinas contra a covid-19 não estão dando conta de suprir a demanda global.”

Confira a entrevista:

Quais são hoje os principais desafios e gargalos na cadeia internacional de fornecimento de vacinas? 

O principal desafio é fazer chegar vacinas para todas e todos, em todos os países. O ritmo de produção e distribuição de vacinas atual não dará conta de fazer isso até o final de 2021. Além disso, temos o gargalo da ampliação da capacidade de produção de vacinas em todo o mundo, e o desafio em relação à propriedade intelectual, transferência de tecnologia e o custo das vacinas.  As grandes farmacêuticas estão lucrando bilhões de dólares na pandemia, com produtos que desenvolveram graças a grandes investimentos públicos de diferentes países – bilhões de dólares – seja nos Estados Unidos, Inglaterra ou mesmo China. O preço médio cobrado das vacinas – US$ 19 – é bem acima do custo de produção, que gira em torno de US$ 2. E mesmo com toda essa possibilidade de lucro, as poucas empresas fabricantes de vacinas contra a covid-19 não estão dando conta de suprir a demanda global. A pandemia criou nove novos bilionários, todos ligados à indústria farmacêutica, com riqueza conjunta de quase US$ 20 bilhões, o que seria suficiente para vacinar todas as pessoas dos países mais pobres ainda este ano.

Quais são, hoje, as principais causas da desigualdade no acesso à vacina entre os países?

O que temos hoje é o resultado de uma corrida muito desigual que começou em 2020, quando os países mais ricos reservaram e compraram mais da metade da produção das potenciais vacinas,  deixando muito pouco para os países mais pobres ou de renda média. Nos países mais pobres do mundo, nove entre 10 pessoas não serão vacinadas em 2021. O poder dos países mais ricos para bloquear quaisquer iniciativas que permitam um aumento da produção das vacinas, como por exemplo a licença compulsória das patentes, também dificulta muito um acesso mais equitativo às vacinas. 

Como avalia a eficácia do mecanismo COVAX até agora, e o que mais poderia ser feito em termos de coordenação mundial para reduzir a desigualdade no acesso à vacina?

O Consórcio Covax é uma iniciativa importante e deveria ser apoiada pelos países mais ricos, por ser também do interesse deles que todos os países do mundo vacinem suas populações. O mundo só estará seguro contra a covid-19 quando todos e todas estiverem vacinados. Só assim será possível ter uma retomada da economia em escala global. Os países mais ricos, uma vez tendo suas populações vacinadas, podem até conseguir recuperar suas economias num primeiro momento, mas lá na frente enfrentarão problemas porque dezenas de outros países estarão com suas economias ainda abaladas pela pandemia. A capacidade do consórcio COVAX é limitada também, diante das condições que temos estabelecidas hoje, o que apenas reforça a necessidade das licenças compulsórias em âmbito global.

Os países ricos são os 'grandes culpados' por este cenário?

Os países mais ricos são responsáveis por se mostrarem pouco solidários em um momento de crise global como o que estamos vivendo, muitos deles ainda não apoiando o consórcio Covax, o que tem como resultado o adiamento do fim da pandemia e o risco de novas variantes colocarem por terra todos os esforços e investimentos feitos até o momento. Além disso, estão priorizando interesses comerciais e a proteção de empresas farmacêuticas, o lucro de alguns poucos acionistas em detrimento da vida e da saúde de milhões de pessoas, que ficam expostas ao vírus por não terem acesso rápido à vacina.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.