Mikhail Klimentyev, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP
Mikhail Klimentyev, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP

Avanço de Assad aumenta risco de conflitos regionais 

Guerra civil na Síria dá lugar a enfrentamento entre atores locais e internacionais que disputam poder e influência no Oriente Médio

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

15 Abril 2018 | 05h00

WASHINGTON - O ditador Bashar Assad está prestes a declarar vitória na guerra civil síria, iniciada há sete anos, mas o confronto está longe de chegar ao fim. O embate doméstico dá cada vez mais lugar ao enfrentamento entre atores regionais e internacionais que disputam influência no Oriente Médio. Intensificado nos últimos meses, o conflito pode se agravar se o ataque dos EUA colocar americanos em rota de colisão com Rússia e Irã.

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Com uma campanha implacável, conduzida com o apoio de Moscou e Teerã, Assad conseguiu retomar grande parte do território da Síria, em uma guerra que custou a vida de pelo menos 400 mil pessoas, segundo a ONU. O califado do Estado Islâmico foi praticamente dizimado, graças à ofensiva do regime sírio, a seus aliados e a milhares de combatentes curdos, que lutam ao lado de 2 mil soldados americanos no norte do país.

Mas um cenário de estabilidade não está no horizonte da Síria, palco de um conflito cada vez mais complexo. O Irã ampliou sua presença desde o início da guerra civil, a ponto de despertar alarme em Israel, que vê forças iranianas próximas das Colinas do Golan, ocupadas pelos israelenses desde 1967. Ao dar apoio militar a Assad, a Rússia colocou um pé no Oriente Médio e desafiou a influência americana na região.

A situação é complicada pela posição da Turquia, que em janeiro lançou uma operação militar no norte da Síria contra forças curdas que lutam ao lado dos EUA contra o EI. A incursão de tropas turcas em território onde há soldados americanos elevou a possibilidade de choque não intencional entre os dois integrantes da Otan.

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“O conflito vai se intensificar, antes de (a situação) melhorar”, afirma Itamar Rabinovich, professor de história do Oriente Médio da Universidade de Tel-Aviv, que foi embaixador de Israel nos EUA e representante do país em negociações com a Síria nos anos 90.

Segundo Rabinovich, os maiores riscos são uma colisão entre americanos e russos e um eventual enfrentamento entre Israel e Irã. “Os iranianos estão entrando na Síria de maneira extensa. Eles querem controlar o país e isso não será aceito por Israel.”

A situação atual é comparável à que a Síria viveu entre 1945 e 1958, antes de o pai de Assad, Hafez, assumir o comando do país, afirma Rabinovich. “Naquele período, a Síria era um Estado muito frágil e era o objeto de luta entre vizinhos fortes e potências externas ambiciosas. O pai de Bashar conseguiu construir um Estado relativamente forte, mas ele foi destruído e há um vácuo que atores regionais e internacionais tentam ocupar.”

A posição estratégica faz com que a Síria tenha relevância para qualquer um que queira ter influência no Oriente Médio. O país está no centro da região, tem acesso ao Mediterrâneo e fronteiras com Líbano, Israel, Turquia, Iraque e Jordânia.

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Para o Irã, a aliança com Assad é crucial para sua projeção na região e para sua disputa de poder com a Arábia Saudita, avalia Nader Hashemi, diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio da Universidade de Denver, no Colorado. “A principal fonte de poder do Irã no Oriente Médio está no Líbano, com o Hezbollah, e a única maneira de ter acesso ao Hezbollah é pela Síria”, afirma.

Irã

Hashemi lembra que John Bolton, novo conselheiro de Segurança Nacional do presidente Donald Trump, defendeu uma ação militar contra os iranianos e sugeriu que os EUA aumentassem seu envolvimento na Síria para conter a influência de Teerã e de Moscou. “Bolton não está interessado em salvar vidas sírias”, afirmou Hashemi. Visto como um falcão intervencionista, Bolton assumiu o cargo na segunda-feira, um dia depois de Trump prometer que os responsáveis por um ataque químico em Duma pagariam um “alto preço”.

No entanto, ainda não está claro se suas posições mudarão a determinação do presidente de retirar logo as tropas americanas da Síria - a semana passada havia começado com as declarações do presidente de que havia chegado a hora de retirar os americanos do conflito.

Estratégia

Hashemi acredita que o futuro da Síria depende da natureza e da extensão da ofensiva dos EUA. A repetição do bombardeio realizado há um ano, em retaliação a outro ataque químico, não mudaria nada. Segundo ele, qualquer ação deve estar acompanhada de uma estratégia mais ampla, que envolva a saída de Assad do poder - plano que, muitos argumentam, a Casa Branca ainda não tem.

Professor da Universidade da Pensilvânia, especialista em Oriente Médio, Ian Lustick também avalia que uma retaliação limitada, como parece ter sido o ataque de sábado, teria pouco ou nenhum impacto.

“Se os ataques fossem significativos e custosos (para Assad) ou se levassem à colisão entre forças dos EUA e da Rússia, o jogo entraria em uma nova fase, na qual a posição cada vez mais frágil do regime levaria à efetiva tomada do que acontece no país por poderes externos - EUA, Rússia, Irã, Turquia, Arábia Saudita e Israel.”

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