REUTERS/Dylan Martinez
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Avanço do Brexit ameaça sossego entre Irlandas

Futuro da fronteira é ponto mais complexo de negociação e preocupa norte-irlandeses que temem retorno de distúrbios e o fim da prosperidade; oposição crescente ao Brexit no Norte e o tempo exíguo são os principais desafios da premiê britânica, Theresa May

Andrei Netto, Enviado Especial / Forkhill, Irlanda do Norte, O Estado de S.Paulo

29 Julho 2018 | 05h00

FORKHILL, IRLANDA DO NORTE - Conor Patterson tinha 9 anos quando um atentado com um morteiro de fabricação caseira cometido contra a Polícia Real do Ulster (RUC) por membros do Exército Republicano Irlandês (IRA) em Newry, na Irlanda do Norte, deixou 9 agentes mortos e outros 40 feridos. O ataque, cometido em 28 de fevereiro de 1985, foi o mais mortífero sofrido até então pela polícia.

Aprofundou os anos de “distúrbios” entre nacionalistas republicanos e forças unionistas pró-Reino Unido e mergulhou toda a fronteira com a Irlanda em um período de intensa militarização. É essa violência que Patterson teme ver reaparecer em sua região com o Brexit.

Com a oposição ferrenha da ala mais radical do Partido Conservador e de grande parte da opinião pública britânica ao “Brexit light” proposto pela primeira-ministra, Theresa May, vem crescendo a hipótese de que o divórcio com a União Europeia (UE), que precisa ser selado até março de 2019, ocorra da forma mais dura - o chamado “hard Brexit”. Um dos pontos críticos das negociações é o futuro da fronteira da Irlanda com a Irlanda do Norte. Em tese, na perspectiva de um “hard Brexit”, o governo britânico terá de recriar uma estrutura de aduanas na fronteira entre os dois países.

A construção de um eventual posto de fronteira seria contrário a um dos pontos-chave do acordo de paz de Sexta-feira Santa, que pôs fim, em 1998, ao conflito histórico entre os católicos, republicanos e nacionalistas do IRA e os unionistas protestantes.

“A questão da fronteira da Irlanda é histórica. Foi a pressão que um culto fundamentalista e de extrema direita conseguiu exercer sobre a elite em Londres que nos fez mergulhar em 100 anos de divisão e distúrbios”, acusa Patterson, referindo-se aos núcleos protestantes ultrarradicais de Belfast, a capital da Irlanda do Norte.

Católico, irlandês - ou seja, “não-britânico” -, favorável à reunificação da Irlanda e contrário à separação da União Europeia, o empresário é o líder regional do movimento Comunidades de Fronteira contra o Brexit. Sua principal motivação é econômica, mas também histórica e política.

Segundo Patterson, em 1972, em meio aos anos de violência sectária na ilha, o desemprego na Irlanda do Norte ultrapassou os 30%. Hoje, é de 2%. A prosperidade veio com a paz, a estabilidade política e econômica, e com os anos em que Bruxelas injetou dinheiro no local. “A transformação foi impressionante e deve ser atribuída a vários fatores, entre os quais um muito importante: a dissolução da estrutura de fronteira e a livre circulação de produtos e pessoas”, avalia Patterson.

Munido de um documentário realizado pela rede britânica ITV sobre sua cidade nos anos 90, Patterson e ativistas locais fazem lobby em Londres e Bruxelas contra o Brexit. Uma de suas estratégias de persuasão é mostrar imagens dos soldados britânicos correndo pelas ruas, temendo atiradores irlandeses. O vídeo também mostra o movimento frenético de helicópteros militares na Base de Forkhill - então a mais movimentada da Europa.

Michael Flynn, de 73 anos, dono de uma pequena propriedade rural, se encontraria em uma situação ainda mais delicada: a área não habitada entre os postos de fronteira dos dois países. “Nunca houve animosidade entre católicos e protestantes na região até a chegada da fronteira e dos militares. Tudo voltou ao normal quando foram embora”, recorda. “Se a fronteira voltar, os distúrbios voltarão e, com eles, os militares. E essa propriedade aqui será uma terra de ninguém.”

A mobilização dos norte-irlandeses, em especial na fronteira, contra a recriação de uma aduana é crescente. Em 2016, 55,78% do eleitorado da Irlanda do Norte votou contra a saída do Reino Unido da União Europeia. Hoje, 69% dos norte-irlandeses votariam contra, segundo pesquisas. Ou seja, uma fatia do eleitorado protestante e, em tese, pró-Reino Unido, mudou de opinião.

John Sheridan, produtor rural na região fronteiriça, é testemunha dessa alteração. Protestante, abandonou suas convicções unionistas (pró-Londres) e hoje defende uma só Irlanda, republicana, independente de Londres e membro da União Europeia.

“Sou protestante, cresci nessa comunidade e não tinha problemas com o Reino Unido. Mas agora tenho, pois a UE ajudou a trazer a paz e nos deu a estrutura econômica que temos hoje”, diz. “Quando se divide uma comunidade com uma fronteira, você causa atrito e estimula o sectarismo. Hoje, eu concordo totalmente que a ilha da Irlanda nunca deveria ter sido dividida.”

Lidar com a oposição crescente ao Brexit na Irlanda do Norte tornou-se um dos maiores problemas políticos para Theresa May. O outro problema é o tempo. As negociações para o divórcio deveriam acabar em 2018. Mas, por ora, três hipóteses ainda são cogitadas: a manutenção da atual linha de fronteira, invisível; a criação de um sistema automático de aduana, sem barreiras à circulação; e a construção de uma fronteira física tradicional.

A primeira hipótese só seria possível se o Reino Unido permanecer na área de livre-mercado da UE, o que contraria o espírito do voto pelo Brexit. Caso abandone o espaço econômico europeu, restariam as duas outras alternativas. A mais simples seria uma passagem aberta a mercadorias e pessoas, criando uma espécie de “zona franca irlandesa” - o que não é aceito por nenhum dos lados. Restaria a solução mais drástica: o fechamento da fronteira.

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Ex-militantes do IRA apostam em unificação da Irlanda

Para ex-guerrilheiros e militantes do Exército Republicano Irlandês, divórcio entre Londres e Bruxelas abre oportunidade para a concretizar o sonho que a luta armada não conseguiu

Andrei Netto, Enviado Especial / Belfast, Irlanda do Norte, O Estado de S.Paulo

29 Julho 2018 | 05h01

BELFAST - Aos 20 anos, Gerard “Mo Chara” Kelly foi detido pelas forças de ordem britânicas quando preparava explosivos que pretendia detonar em um carro-bomba, no que seria um novo atentado do Exército Republicano Irlandês (IRA) em Belfast, Irlanda do Norte. Passados 41 anos, o ex-guerrilheiro, artista plástico e pintor que ornamenta paredões da cidade com alusões ao que chama de “colonialismo” quer ver “a bomba do Brexit” explodir no colo de Theresa May

Para ex-guerrilheiros e militantes do IRA ouvidos pelo Estado em Springfield Road, área residencial com predomínio de irlandeses católicos, nacionalistas e republicanos em Belfast Oeste, o divórcio entre Londres e Bruxelas abre oportunidade para a concretização de um sonho que a luta armada não conseguiu: a reunificação da Irlanda em um só país, independente e republicano

Essa perspectiva seria aberta pela insatisfação crescente dos moradores do que chamam de “norte da Irlanda” - e não Irlanda do Norte - com o desligamento do país da União Europeia. Somadas a outra “bomba”, a demográfica, que favorece o aumento da população irlandesa e católica, em detrimento da britânica e protestante, as chances de que a ilha se torne mais uma vez autônoma em relação ao Reino Unido entusiasma.

“Eu não votei no plebiscito do Brexit, pois o assunto não me interessava. Mas vejo o Brexit com muito interesse”, diz Mo Chara - que significa “O amigo”, em irlandês. 

Martin Dudley, de 66 anos, simpatizante do IRA ferido com um tiro na cabeça em 1972, durante o Massacre de Springhill, é outro remanescente dos anos de chumbo que vê o Brexit com interesse especial. Paralisado no lado esquerdo desde os 20 anos, por causa do disparo de um soldado britânico, Dudley se tornou militante do IRA e promete continuar a apoiar o grupo se ele se levantar contra o Reino Unido caso os britânicos construam uma fronteira física na ilha. 

“Nunca deveríamos ter sido divididos, para começar”, diz Dudley, pai de cinco filhos - prole numerosa que define como um ato militante para favorecer a demografia dos católicos.

Fora dos limites de Springfield Road, Eddie Mallon, militante associativo irlandês e católico, lembra que os protestantes terão muita influência nos rumos do Brexit, em especial porque são parte essencial da coalizão no governo de Theresa May. Menos otimista que os militantes do IRA, ele se preocupa com a influência do Partido Unionista Democrático (DUP) no interior da coalizão. 

“Eu sou irlandês, não britânico. Tenho o passaporte irlandês. Nós votamos em favor da União Europeia e por isso não quero a fronteira. Mas o DUP quer”, explica Mallon, que trabalha a não mais de 25 metros do célebre mural em homenagem a Bobby Sands, militante do IRA morto após 66 dias de greve de fome em 1981.

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