Avanço do EI reforça teses de um Assad frágil

Ditador sírio oferece apoio ao Ocidente contra o Estado Islâmico, sinal de não pode vencer guerra

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2014 | 04h23

Após três anos de guerra civil, cerca de 200 mil mortos e perdas no campo de batalha, o presidente da Síria, Bashar Assad, surpreendeu os governos ocidentais esta semana ao se oferecer como aliado na luta contra o Estado Islâmico, instalado em partes de seu território e do Iraque. Diplomatas e a ONU interpretaram a atitude como uma tentativa de vencer pela via diplomática um conflito em que já não pode triunfar pelas armas.

Documentos da Comissão de Inquérito da ONU para os Crimes na Síria e relatórios de diplomatas ocidentais revelam que o gesto de Assad não era só uma manobra política. Seu Exército limita-se hoje a defender posições estratégicas e sente-se cada vez mais ameaçado pelo EI. As Forças Armadas da Síria estão esgotadas em razão da guerra civil e do combate aos extremistas. Além disso, soldados sunitas passaram a lutar pelos rebeldes, apesar de o comando alauita ter se mostrado fiel ao presidente. Londres e Paris rejeitaram a aproximação com o líder sírio e, em Washington, Barack Obama teve de dar explicações sobre como pretendia manter a guerra contra os islamistas sem se comprometer.

Na quarta-feira, o Observatório de Direitos Humanos da Síria disse que o EI executou pelo menos 15 soldados sírios após tomar a base de Tabqa. Com isso, a entidade expôs o desafio de Damasco diante do novo grupo que já controla um terço do território sírio.

A força do EI mudou a lógica do conflito. Milícias iraquianas que atuavam ao lado de Assad tiveram de voltar ao Iraque para lutar contra os extremistas, debilitando forças do governo sírio. Segundo o documento oficial da ONU, isto "obrigou" Assad a retirar parte de suas tropas de certas linhas de frente.

Para completar, o êxito dos extremistas no Iraque deu apoio às ações do grupo dentro da Síria. "Vitórias recentes do EI no Iraque deram um impulso militar, afetando o equilíbrio de poder dentro da Síria, tanto materialmente como psicologicamente", diz o relatório da ONU.

Um levantamento do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres, estima que, entre 2011 e 2013, o número de soldados de Assad caiu pela metade, ficando em 110 mil homens, incluindo as forças mais leais, como a Guarda Republicana.

Sobrevivência. O último relatório da ONU sobre os crimes de guerra na Síria revela como a reconquista de territórios por Assad ocorreu graças ao fato de ser o único ainda a ter forças aéreas no conflito. "Esse é um monopólio de Assad. Ninguém mais tem essa capacidade", explicou Paulo Sérgio Pinheiro, chefe das investigações da ONU sobre crimes na guerra da Síria.

No levantamento, a ONU mostra como cidades foram bombardeadas e explosivos foram lançados de helicópteros. Além dos ataques aéreos, Assad teria feito avanços em áreas estratégicas graças a uma atitude cada vez mais extremista, com prisões em massa de homens com idade para lutar, execuções e crimes de guerra. Para especialistas, sinais do desespero do regime.

A ONU garante que Assad hoje não é capaz de obter uma "completa vitória militar". O Exército da Síria pode controlar regiões fundamentais do país, mas, mais do que nunca, está na defensiva. "As forças de Assad estão tentando sobreviver", admitiu o ex-agente de inteligência dos EUA e hoje membro do Instituto de Estudos da Guerra em Washington, Joseph Holliday.

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