Avanço do Isil tem apoio, diz libanês

Para chanceler do Líbano, expansão de grupos extremistas é um retrocesso para o Oriente Médio e o caminho para evitá-la é negociar

LOURIVAL SANTANNA, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2014 | 02h03

É hora de as monarquias do Golfo Pérsico provarem que não apoiam o Estado Islâmico no Iraque e no Levante (Isil, na sigla em inglês), que afinal não teria chegado aonde chegou sem algum tipo de "cobertura". A afirmação é de Gebran Bassil, ministro das Relações Exteriores e dos Emigrantes do Líbano, país que tem sido contagiado pela expansão do radicalismo sunita na região.

"Alguns dizem que as monarquias do Golfo apoiam o Isil, outros que o grupo é combatido por elas e pelos países ocidentais", analisou Bassil, genro e partidário do ex-presidente Michel Aoun, antigo inimigo e agora aliado da Síria e do Hezbollah. "O fato é que o Isil não poderia de jeito nenhum ter essa presença territorial sem algum tipo de cobertura. Eles não estão mais escondidos. Ocupam cidades e refinarias do Iraque. É muito fácil rechaçá-los."

Bassil, que se reuniu, ao lado do general Aoun, com o presidente sírio, Bashar Assad, em Damasco, no início de 2011, pouco antes do início do conflito na Síria, acusa outros países de terem apoiado grupos contrários ao regime, levando à situação de hoje. "O resultado não foi o que as pessoas da região esperavam: ter no lugar de ditadores o Isil e a Frente al-Nusra (vinculada à Al-Qaeda) é um retrocesso. É preciso deixar os sírios decidirem o seu destino."

Repetindo a visão dos que apoiam o regime, Bassil arrematou: "Um acordo precisa ser alcançado sem precondições", o que significa dizer sem a exclusão de Assad, exigida pela oposição.

Bassil veio ao Brasil incentivar os descendentes de libaneses a investir em seu país. Uma campanha que começou com um encontro de 500 expatriados "bem-sucedidos" do mundo todo entre 30 de maio e 1.º de junho em Beirute - que depende, para o seu êxito, de convencer os investidores de que há estabilidade suficiente no Líbano.

Em entrevista exclusiva ao Estado, Bassil, de 44 anos, formado em engenharia pela Universidade Americana de Beirute, negou que o gabinete libanês seja provisório e dominado pelo Hezbollah. "É um governo de união nacional, no qual todos os partidos estão representados, que está funcionando, temos reuniões semanais, estamos mantendo a estabilidade e apenas 2 dos 24 ministros são do Hezbollah", enumerou Bassil, que, como Aoun, é cristão.

Para a maioria dos sunitas e dos cristãos, o Hezbollah, milícia e partido xiita, apoiado pelo Irã, tornou-se um "Estado dentro do Estado" no Líbano. "O Hezbollah conseguiu liberar o Líbano da ocupação israelense. Israel não pode mais nos atacar como antes", defendeu o chanceler. "Essa é sua função. Além disso, os libaneses não aceitam um papel adicional, nem o Hezbollah almeja."

Só no Brasil, estima-se que haja 8 milhões de libaneses e descendentes - o dobro da população do Líbano. No mundo todo, calcula-se que os expatriados libaneses somem 50 milhões e remetam em torno de US$ 8 bilhões ao ano para o país - o que representa cerca de um quinto do PIB do Líbano. O chanceler prometeu facilitar a emissão de documentos de identidade para esses expatriados - um dos obstáculos para eles investirem no Líbano.

"Enfrentamos uma mudança na nossa demografia, com o aumento da presença de palestinos, sírios e outros estrangeiros, para os quais o Líbano dá saúde, educação, alimentação e moradia", salientou Bassil. "Enquanto isso, verdadeiros libaneses, nativos, não têm documentos (do país). Isso é uma grande perda. Queremos trazê-los de volta." O próximo encontro de expatriados será em fevereiro.

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