EFE/EPA/AKHTER GULFAM
EFE/EPA/AKHTER GULFAM

Avanço do Taleban sobre cidades no Afeganistão já expulsou 400 mil pessoas de casa

União Europeia afirma que o número de afegãos fugindo para o Irã aumentou nos últimos dez dias e que está cada vez mais difícil entregar ajuda humanitária no país

The New York Times, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2021 | 08h30

CABUL — Sayed Mohammad Alizada, de 40 anos, morador de Kunduz, no Norte do Afeganistão, passou mais de um mês acordando com o som implacável de morteiros e de tiros à distância. Em uma noite no início de julho, em meio à aproximação dos confrontos no seu bairro, um morteiro caiu do lado de fora de sua casa. 

No domingo, ele fugiu, horas após a milícia Taleban ter tomado o controle da cidade. “Achei que se eles continuassem atirando morteiros, poderia perder minha família inteira, até eu poderia morrer”, disse Alizada, que foi alvejado durante a batalha. “Foi a luta mais intensa que já vimos.”

A história de Alizada está longe de ser única. Com o avanço militar do Taleban, às vésperas da conclusão da retirada do país dos militares dos EUA e de seus aliados da Otan, cerca de 400 mil afegãos deixaram suas casas nos últimos meses, fugindo dos confrontos entre o grupo extremista e as forças do governo pró-Ocidente, segundo estimou a União Europeia (UE) nesta terça-feira. Além disso, o número de afegãos fugindo para o vizinho Irã aumentou nos últimos 10 dias. A UE ainda afirmou que está cada vez mais difícil entregar ajuda humanitária no país.

Famílias do Norte afegão, onde o Taleban conquistou várias cidades desde o final da semana passada, passam horas em ônibus superlotados e espremendo-se em táxis para fugir do rápido avanço do Taleban. Em apenas cinco dias, o grupo extremista dominou oito capitais provinciais, principalmente no Norte, mas também no Sul e no Oeste, segundo autoridades do governo e do próprio Taleban, citados pela Reuters.

O Taleban já controla 65% do território afegão e ameaça tomar 11 capitais provinciais, de acordo com Gulam Bahauddin Jailani, ministro para Gestão de Desastres e Assuntos Humanitários. Batalhas seguem em 25 das 34 províncias do país.

A ofensiva tem levado a população afegã ao pânico, com muitos temendo que nenhum canto do país seja poupado, incluindo a capital, Cabul. Enquanto isso, os militares americanos estão se retirando do país após uma ocupação de 20 anos, com a saída completa prevista para o dia 31 de agosto. Mesmo com a deterioração das condições de segurança, a data não deve ser alterada.

“O país está retornando para os anos 1990”, disse Noor Agha, de 26 anos, que também fugiu de Kunduz no domingo para Cabul. “Nós agora estamos em outra guerra civil”, acrescentou, referindo-se ao período de luta pelo poder entre diferentes grupos internos que se seguiu à retirada das forças da antiga União Soviética, que, antes dos militares ocidentais, ocuparam o país da Ásia Central entre 1979 e 1989.

O presidente Ashraf Ghani se recusa a reconhecer as derrotas nas capitais provinciais. O governo continua promovendo seu discurso que enfatiza as mortes de combatentes do Taleban e a força dos militares afegãos. As mensagens, no entanto, parecem tranquilizar pouco ou nada a população.

“Não podemos nem confiar no governo para nos defender agora”, disse Agha. “Se eu não pegar em algo [referindo-se a uma arma], o que acontecerá com nosso país?”

De acordo com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), centenas de milhares de civis afegãos estão em risco com a intensificação dos combates. Desde 1º de agosto, mais de 4 mil feridos por armas de fogo foram tratados em 15 centros de assistência à saúde apoiados pelo CICV.

A alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, pediu nesta terça-feira que os confrontos parem. Ela também disse que os relatórios de violações poderiam resultar em acusações de crimes de guerras, e que havia relatos de crimes contra a Humanidade. Bachelet também informou que, desde 9 de julho, em apenas quatro cidades — Lashkar Gah, Kandahar, Herat e Kunduz —,  pelo menos 183 civis morreram e 1.181 ficaram feridos, incluindo crianças.

"As partes em conflito devem parar de lutar para evitar mais derramamento de sangue. O Taleban deve encerrar as operações militares nas cidades. A menos que todas as partes voltem à mesa de negociações e cheguem a uma solução pacífica, a situação que já é terrível para tantos afegãos só vai piorar", disse Bachelet em um comunicado.

Na manhã de segunda-feira, diversos afegãos chegaram a uma quadra de basquete em um parque de Cabul, que se tornou um abrigo improvisado. Eles se amontoaram, contando como tinham visto bombas devastando seus bairros enquanto batalhas tomavam as ruas.

Ao chegar ao local, as pessoas procuravam algum espaço que pudessem ficar. No domingo à noite, mulheres e crianças dormiam lado a lado em uma colcha de retalhos. Uma mãe com um bebê implorava para que um médico visitasse o acampamento. Ela disse que havia dormido no frio do parque na noite anterior e que sua filha havia adoecido.

“Se tivéssemos ficado, talvez todos tivéssemos morrido”, disse Fariba, de 35 anos, que recentemente chegou ao acampamento. No início, ela pensou que a batalha em Kunduz terminaria a favor do governo, mas, como os bombardeios aumentaram em torno de sua casa nos últimos dias, sua família decidiu fugir.

Alguns homens que fugiram de Kunduz contaram como seus bairros foram devastados. A cidade ficou irreconhecível: prédios crivados de balas e estradas com crateras de morteiros. Os combatentes do Taleban, disseram, invadiam casas gritando: "Levantem as mãos!". Do lado de fora também não era mais seguro: durante os tiroteios, as balas perdidas pareciam voar por toda parte.

Abdul Qadir Toryalay Momeen, de 37 anos, um açougueiro em Kunduz, fugiu da cidade na noite de domingo depois que um de seus filhos foi ferido por um projétil e perdeu a mão. O menino de 7 anos agora é tratado no hospital infantil em Cabul, depois de passar cerca de 12 horas em um carro, sangrando.

Essa foi a terceira vez que eles fugiram de sua casa, disse Momeen. A primeira foi quando o Taleban capturou Kunduz por um breve período em 2015 e, novamente, um ano depois, quando o grupo conquistou a cidade novamente. 

Nas duas vezes anteriores, as forças afegãs removeram os insurgentes com a ajuda de ataques de drones dos EUA. Dessa vez, ele teme que sua família nunca mais volte para casa.

 

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