Avanço no Oriente Médio, retrocesso no restante da Ásia

Embora o governo de Barack Obama esteja fazendo progressos na área da diplomacia em algumas das questões mais espinhosas da segurança no Oriente Médio, aumentam os problemas no restante da Ásia, que, nos planos da Casa Branca, deveria merecer mais atenção da política externa americana. Apesar do esforço para a criação de vínculos mais profundos com a China, o fato de Pequim ter estabelecido uma zona de defesa aérea provocou uma escalada em sua disputa territorial com o Japão, um aliado dos EUA. Estes responderam na terça-feira ordenando um sobrevoo da zona por bombardeiros B-52 numa missão de treinamento, sem avisar previamente Pequim.

ANÁLISE: Matthew Pennington / AP,

27 de novembro de 2013 | 23h26

Segundo os analistas, o risco de um confronto entre as potências asiáticas aumentou alguns graus - o que constitui uma grave preocupação para os EUA, porque tratados preveem que eles poderiam ser chamados para ajudar o Japão.

Ao mesmo tempo, as relações entre os principais aliados dos EUA na região, Japão e Coreia do Sul, deterioraram-se. A Coreia do Sul está contrariada com a atitude do Japão em relação ao seu passado colonial e quer de Tóquio mais arrependimento por ter usado coreanas como escravas sexuais na 2.ª Guerra. Isso complica o quadro estratégico do governo Obama, que pretende acelerar a criação do pivô americano na Ásia e fortalecer não apenas suas alianças, mas também convencer seus parceiros na região a colaborarem mais.

"A região toma um rumo muito problemático", disse Evans Revere, influente ex-diplomata americano e especialista em questões do Leste Asiático. "Esse é o resultado de disputas territoriais, questões históricas, rivalidades de longa data e incapacidade dos países de deixar de lado o passado e seguir aprimorando suas relações."

Como se as disputas menores não bastassem na região, Washington está às voltas com a ameaça representada pela imprevisível Coreia do Norte. O acordo orquestrado pelos EUA com o Irã, que prevê o congelamento temporário do programa nuclear de Teerã, serve para lembrar do impasse das negociações com Pyonyang.

Ao contrário do Irã, a Coreia do Norte já tem a bomba nuclear e existem evidências de que o desenvolvimento de armas prossegue. O vice-presidente Joe Biden tocará nesses assuntos quando viajar para Japão, China e Coreia do Sul na próxima semana, para mostrar que os altos escalões do governo continuam atentos à Ásia.

A Casa Branca informa que, em Pequim, Biden se reunirá com líderes chineses, incluindo o presidente Xi Jinping, e expressará os temores dos EUA a respeito do comportamento que a China vem adotando em relação aos vizinhos. O vice-presidente deixará claro também o firme compromisso dos EUA para com seus aliados e seu desejo de reduzir as tensões entre China e Japão, respectivamente a segunda e a terceira maior economia mundial.

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry não negligenciou a região, mas neste momento sua prioridade é o Oriente Médio, e provavelmente ela não mudará. Problemas internos dos EUA contribuíram para o entendimento de que a Ásia seria uma preocupação secundária para o governo.

Obama foi obrigado a cancelar uma viagem a quatro nações da região em outubro, em razão do fechamento parcial do governo americano e da ameaça de uma moratória da dívida. Sua viagem para a Ásia foi adiada para abril. O presidente estabeleceu a Ásia como prioridade de sua política externa quando assumiu o poder em 2009 e vem trabalhando ativamente para conseguir um compromisso da China. Sem ter mantido contato pessoal com os novos governantes, Obama procurou cultivar um relacionamento com o novo líder quando os dois se reuniram num resort da Califórnia, em junho.

Isso faz parte de uma estratégia para promover a cooperação entre as duas maiores economias do mundo e para impedir que sua rivalidade na região da Ásia-Pacífico desencadeie um conflito. Mas a declaração da zona de defesa aérea pela China, rejeitada por Japão, Coreia do Sul e Taiwan, provocou imediatas expressões de preocupação dos EUA. "Esse fato ameaça verdadeiramente os esforços para melhorar as relações (entre China e EUA)", disse Revere.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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