Alberto Pezzali/AP
Alberto Pezzali/AP

Aversão a vacinas na Europa faz governos oferecerem de salsicha a visita ao Castelo do Drácula

Impulsionadas pela rápida propagação da variante Delta, muitas das novas campanhas são voltadas especialmente aos jovens

The Washington Post, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2021 | 05h00

Desesperadas para vacinar jovens adultos contra o coronavírus e revigorar uma campanha de inoculação lenta, as autoridades britânicas estão tentando uma nova estratégia: FOMO (sigla em inglês para “Fear Of Missing Out”, algo como “medo de ficar de fora”).

“Não perca essa” diz a mais recente mensagem do governo, promovida com a ajuda de DJs e boates. Em outras palavras, receba sua dose ou se arrisque a ser deixado para trás enquanto seus amigos se aglomeram em bares e shows de música. Heaven, uma boate em Londres, também vai se transformar em posto de saúde no domingo, para oferecer 1 mil doses da vacina Pfizer.

Ao anunciar a nova campanha, o secretário da Saúde, Sajid Javid, disse que receber a injeção permitirá que as pessoas “voltem a viver aqueles momentos especiais”.

A Inglaterra se juntou a muitas outras nações na esperança de estimular, empurrar e assegurar o caminho para a vacinação e para longe da pandemia.

Durante meses, os países tentaram de tudo, desde donuts grátis até sorteios de grandes prêmios. Mas, nas últimas semanas, o esforço se fez mais urgente, pois a variante Delta e outras possíveis mutações ameaçam o frágil progresso e complicam os planos de reabertura. Assim, junto com um número crescente de diretrizes, os incentivos continuam chegando, com muitas das novas campanhas especialmente voltadas para os jovens.

A Alemanha está oferecendo salsichas grátis. A Nova Zelândia vem organizando um festival de música de vacinação. Quer um destino digno de Instagram? Na Romênia, as pessoas podem ser vacinadas num castelo que talvez tenha inspirado o Drácula de Bram Stoker.

Esses programas são mais comuns nos países ricos, que se dão ao luxo de terem doses não utilizadas e grandes contingentes de céticos em relação às vacinas. Mas os incentivos também surgiram em pequenas cidades e países que ainda estão se esforçando para vencer os estágios iniciais de suas campanhas de vacinação.

“É difícil quantificar, mas acho que todo esforço de incentivo pode fazer a diferença. E muito provavelmente faz a diferença”, disse Jeffrey V. Lazarus, professor do Instituto de Saúde Global de Barcelona. “Eles precisam tentar o que for possível. Fazer coisas divertidas, divulgar na mídia, promover a conscientização”.

Conforme a pandemia se estender e as vacinas ficarem mais disponíveis em todo o mundo, os tipos de incentivos continuarão a evoluir e se adaptar às necessidades locais, disse ele. Reembolsos para despesas de transporte aos centros de vacinação podem se tornar populares em áreas de baixa renda. E os países mais ricos podem precisar de maneiras diferentes para atingir os 30 a 40% dos habitantes que resistiram até agora.

Martin McKee, professor de Saúde Pública Europeia na Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, enfatizou que os incentivos precisam ter relevância.

Ele observou que, no norte de Londres, torcedores loucos por futebol podem ter sido tentados por tours no mundialmente famoso estádio Emirates - disponível para aqueles que tomaram a vacina num posto de vacinação local no início deste verão. Mas ele estava mais cético em relação ao impulso mais recente: descontos em viagens de Uber e entregas de comida pelo Deliveroo. “Um kebab por uma dose”, definiu o tabloide Mirror. “Alguém vai se vacinar só para ganhar desconto na pizza? Duvido”, disse McKee.

Em Hong Kong, que sofre com o problema da falta de moradias populares, os incorporadores estão sorteando apartamentos. Quem estiver totalmente vacinado pode participar do sorteio de uma unidade, que tem 42 metros quadrados e vale cerca de US $ 1,4 milhão. Quase meio milhão de pessoas se declararam aptas para participar no primeiro dia de junho. Um segundo apartamento irá para mais um felizardo se os 5 milhões de habitantes tiverem tomado pelo menos uma dose até o final do mês que vem.

Na Alemanha, a vacinação estagnada levou à busca por novos incentivos. Entre as mais bem-sucedidas até agora parecem estar as salsichas gratuitas. Num centro de vacinação no Estado da Turíngia, a combinação de Bratwurst e Pfizer (ou Johnson & Johnson) vem gerando um aumento nos atendimentos.

Salsichas alemãs simbolizam “força e cordialidade”, disse Heinrich Kohl, prefeito de uma cidade que sediou um outro evento de vacinação com Bratwurst, à agência de imprensa alemã.

Katja Leikert, vice-presidente do bloco conservador CDU e CSU no parlamento alemão, registrou sua desaprovação. Oferecer Bratwurst como incentivo para ser imunizado sugere “uma sociedade decadente por seu hedonismo”. Ela expressou incompreensão diante dos adultos que “não se sentem nem um pouco estranhos quando alguém tem que segurar uma Bratwurst na frente deles para que sejam vacinados”.

Ainda assim, muitas pessoas foram vistas devorando seus lanches pós-vacinação já por volta das seis da manhã.

Em Wellington, capital da Nova Zelândia, as autoridades estão organizando um “festival” de vacinação, com música, entretenimento ao vivo, comida e aplicação de doses durante três dias em outubro. A ideia de uma festa do tamanho de um estádio para os não vacinados pareceria ultrajante em outros lugares, mas o país atualmente não registra nenhum caso de transmissão comunitária.

Liam Delaney, especialista em ciências comportamentais da London School of Economics, disse que, para muitos jovens adultos, a conveniência é importante e os postos de vacinação emergenciais podem funcionar.

“Se você tem que se deslocar por uma distância significativa até um posto de vacinação, duas vezes, e está trabalhando, isso pode ser uma barreira para alguém que não percebe a doença como um grande risco para a saúde”, disse ele.

Talvez a campanha de incentivo mais surpreendente e trocadilhesca esteja acontecendo num castelo nas montanhas dos Cárpatos romenos que se apresenta como a única fortaleza na região da Transilvânia que se encaixa na descrição de Stoker da casa do Conde Drácula.

Todo fim de semana até o final de agosto, os visitantes que receberem suas doses no Castelo de Bran terão entrada gratuita na mostra de instrumentos de tortura medievais. “Queremos mostrar às pessoas como as agulhas eram usadas na Idade Média na Europa”, disse Alexandru Priscu, gerente de marketing do castelo.

O castelo vacinou cerca de 2 mil pessoas desde maio, disse Priscu. É um número relativamente pequeno, mas a promoção gerou uma torrente de cobertura na mídia que Priscu espera ter indiretamente estimulado as pessoas a tomarem suas doses.

“Não abrimos esta maratona para relatar grandes números, mas para conscientizar - nacional e mundialmente - e trazer às pessoas um incentivo que não vem das autoridades”, disse Priscu. “Nosso objetivo é trazer de volta a normalidade, trazer de volta o ano de 2019, e achamos que a vacinação é o único caminho”.

Em outras partes da Romênia, os vacinados podem ganhar churrasco e livros de graça, mas o país ainda tem um dos níveis mais baixos de vacinação na Europa, com apenas 25% dos habitantes totalmente inoculados.

Em alguns estados dos Estados Unidos que realizaram sorteios para as pessoas que tomavam vacina, com prêmios de até US $ 1,5 milhão, as autoridades relataram aumentos no interesse pela vacinação, mas não está claro quão grande foi o papel do incentivo. Virgínia Ocidental, a primeira a anunciar doações em dinheiro, continua sendo um dos Estados menos vacinados do país.

Numa pesquisa aleatória, pesquisadores da UCLA descobriram que cerca de um terço das pessoas não vacinadas disseram que pagamentos em dinheiro de US$ 25 a US $ 100 aumentariam a probabilidade de se vacinarem. Isto está em consonância com o apelo do presidente Biden para que as cidades e estados ofereçam US$ 100 em dinheiro para as pessoas que forem vacinadas.

Embora os estudos de campanhas de vacinação anteriores tenham mostrado que os incentivos são eficazes, ainda restam dúvidas sobre se esses resultados se aplicarão às vacinas do coronavírus, que foram muito polarizadas.

Erik Wengström, professor de economia da Universidade de Lund, na Suécia, faz parte de uma equipe que está tentando descobrir. Ele está realizando um estudo que mede a eficácia de diferentes métodos para persuadir os não vacinados. Um grupo receberá o equivalente a cerca de US$ 23 para tomar uma dose. É improvável que o valor convença os oponentes mais ferrenhos da vacina, disse Wengström, mas pode ser eficaz para aqueles que estão em cima do muro.

“Nosso alvo são aquelas pessoas que estão pensando em tomar a vacina, mas não encontram tempo ou acham que não vale a pena marcar um horário e comparecer”, disse ele. “É mais cutucar as pessoas que já estão inclinadas a tomar a vacina”.

A teoria econômica padrão dita que os incentivos em dinheiro geralmente são mais eficazes do que brindes, como comida grátis ou ingressos para eventos esportivos, disse Wengström. E, como é provável que venham rodadas adicionais de vacinação contra a covid-19, é crucial encontrar as maneiras mais eficientes de alertar pessoas para tomar suas doses.

Alguns especialistas expressaram preocupação de que o dinheiro ou outros prêmios possam ter o efeito oposto ao pretendido.

Quando a Sérvia anunciou um pagamento em dinheiro pela vacinação, um de seus primeiros críticos foi Zoran Radovanovic, epidemiologista e ex-professor da Universidade de Belgrado.

“De certa forma, é uma derrota”, disse Radovanovic sobre o incentivo de US$ 30. “Você reconhece que sua política educacional falhou. Aí você tem que coagir as pessoas”.

E o tiro pode sair pela culatra, ele advertiu.

“Quando você fornece esses incentivos, as pessoas podem presumir que isso é bom para o governo, mas não para elas mesmas”, disse Radovanovic. “Sempre existe essa suspeita”.

Desde então, a campanha de vacinação da Sérvia, que já foi uma das mais bem-sucedidas da Europa, diminuiu a velocidade e se vê atormentada pela desconfiança. Quase 40% dos sérvios estão totalmente vacinados.

Em países como Irlanda e Austrália, as autoridades rejeitaram a perspectiva de dar dinheiro em troca de vacinação. O primeiro-ministro australiano Scott Morrison ridicularizou a ideia de pagar US$ 300.

Isto representaria, disse ele, um “voto de desconfiança” nos australianos./ Tradução de Renato Prelorentzou.

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