Alexander Zemlianichenko / AFP
Alexander Zemlianichenko / AFP

Síria derruba avião russo por engano; Moscou culpa Israel, mas recua

Exército da Rússia alegou que aeronave de reconhecimento foi usada como escudo pelos pilotos israelenses, que atacavam alvos no noroeste do território sírio; Putin e Netanyahu conversam por telefone

O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2018 | 04h20
Atualizado 18 Setembro 2018 | 19h55

MOSCOU - O Exército sírio abateu uma aeronave de seu aliado russo com 15 soldados a bordo no Mar Mediterrâneo, com Moscou inicialmente acusando Israel, antes de se referir a "circunstâncias acidentais trágicas". 

O avião russo Ilyushin desapareceu dos radares sobre o Mediterrâneo pouco depois de a Turquia e a Rússia anunciarem um acordo para criar uma "zona desmilitarizada" na região de Idlib, que permitirá evitar uma ofensiva do regime de Damasco contra este último bastião rebelde da Síria. O governo sírio não se pronunciou sobre o caso, mas os acontecimentos coincidem com um bombardeio israelense contra a Província de Latakia, que foi respondido pela defesa antiaérea síria. 

Para o presidente da Rússia, Vladimir Putin, o avião de reconhecimento foi derrubado em "circunstâncias acidentais trágicas". O Exército russo afirmou que o modelo II-20M “foi abatido por um sistema de mísseis S-200” dos militares sírios, a cerca de 35 km da costa, quando retornava para sua base nas proximidades. “Os pilotos israelenses usaram a aeronave russa como escudo e a empurraram para a linha de fogo da defesa síria”, afirmou o porta-voz do ministério, o general Igor Konashenkov, em um comunicado.

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Israel negou que tenha usado a aeronave russa como distração. "O avião russo que foi abatido não estava na área de operações (...). Quando os militares sírios lançaram os mísseis que atingiram a aeronave russa, os combatentes (israelenses) já estavam no espaço aéreo de Israel", afirma um comunicado. O país também lamentou a morte dos tripulantes e culpou o regime da Síria e do Irã pelo ocorrido. 

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia convocou o embaixador de Israel em Moscou após o acidente.

“Consideramos hostis essas provocações por parte de Israel” e “nos reservamos o direito de responder de maneira adequada”, advertiu Moscou. O Exército explicou que os israelenses não informaram sobre sua operação na Província de Latakia até um minuto antes do ataque, o que não deu ao avião russo tempo suficiente para escapar.

Pouco depois,  Putin evocou "uma série de circunstâncias acidentais trágicas", parecendo adotar um tom conciliatório em relação a Israel.

O Exército israelense, por sua vez, contestou que sua força aérea tivesse usado a aeronave russa como cobertura para escapar dos tiros sírios. Em um comunicado, alegou que seus caças atacaram um local do Exército sírio onde sistemas de fabricação de armas estavam prestes a ser  entregues em nome do Irã ao movimento xiita libanês Hezbollah.

"Israel expressa sua tristeza pela morte dos tripulantes do avião russo", declarou exército. "Israel vê Assad, cujo exército abateu o avião russo, como totalmente responsável por esses incidentes". 

Nesta tarde, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, em uma conversa por telefone com Putin, garantiu que Israel está "determinado a parar o enraizamento do Exército iraniano na Síria, bem como as tentativas do Irã (...) de transferir armas ao (movimento libanês) Hezbollah (...) destinadas a ser usadas contra Israel".

Nos últimos meses, Israel aumentou seus bombardeios na Síria contra o regime ou seu aliado iraniano, insistindo que não permitirá que o Irã use a Síria como uma base contra ele.

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A aeronave russa desapareceu dos radares na noite de segunda-feira, por volta das 23h (17h em Brasília), quando sobrevoava o Mediterrâneo, informou o ministério russo. "O contato com a tripulação do Il-20 se perdeu sobre o Mar Mediterrâneo a 35 km da costa da Síria, quando regressava à base aérea de Hmeimim", no território sírio. O Ilushin-20 é um modelo de quatro motores a hélice usado para missões de vigilância.

Há anos Israel e Rússia mantêm uma linha direta especial para impedir que suas forças aéreas entrem em conflito na Síria. Moscou é um dos principais aliados do presidente sírio, Bashar Assad, e conta com duas bases militares no país, incluindo uma próxima à costa do Mediterrâneo.

Feridos em Latakia

Duas pessoas morreram por disparos de mísseis contra depósitos de munições na Província de Latakia, disse nesta terça-feira o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH). A ONG não soube informar as nacionalidades das vítimas e se eram soldados ou milicianos do regime.

De acordo com o diretor do OSDH, Rami Abdel Rahman, o ataque deixou 10 feridos, incluindo 7 soldados sírios. A ONG destacou que o ataque tinha como alvos depósitos de munições no instituto de indústrias técnicas, nas proximidades de Latakia, um reduto do regime.  / AFP, AP e REUTERS

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