Vasily Fedosenko/Reuters
Vasily Fedosenko/Reuters

Avião ucraniano é alvejado na Crimeia

Aeronave levava observadores internacionais, mas ninguém ficou ferido; Rússia reforça destacamento militar enquanto defende saída diplomática

Andrei Netto, enviado especial, Simferopol, Ucrânia

08 de março de 2014 | 16h35

Atualizado às 22h36

Um avião de controle de fronteira da Ucrânia foi alvejado neste sábado, 8, enquanto sobrevoava uma área perto da divisa administrativa com a República Autônoma da Crimeia, que está sob controle da Rússia. A aeronave levava um time de observadores internacionais desarmados, mas ninguém foi ferido.

Ao mesmo tempo, a Rússia enviou novo reforço para sua presença militar na região, ainda que Moscou tenha dado garantias de estar "pronta para negociar de igual para igual" um acordo diplomático para o fim da crise política na Ucrânia, segundo o ministro das Relações Exteriores, Serguei Lavrov.

A atitude ambígua mostra a estratégia do governo de Vladimir Putin, que também conta com o apoio cada vez mais ostensivo de milícias armadas em cidades como Simferopol, capital da Crimeia, onde jornalistas foram hostilizados. Na cidade, o dia de protestos colocou frente a frente manifestantes pró-Europa e pró-Rússia.

Lavrov falou sobre a crise na manhã de sábado, em Moscou, afirmando pela primeira vez estar pronto a resgatar "a Ucrânia inteira" da turbulência política. "Estamos abertos a um diálogo honesto e de igual para igual com nossos parceiros estrangeiros para encontrar um caminho para ajudar a Ucrânia inteira a sair da crise", afirmou o chanceler, impondo uma condição: "mas sem tentativas de nos retratar como um dos lados do conflito". "Esta crise não foi criada por nós. Foi criada a despeito de nossa desconfiança e de nossos alertas repetidos há muito tempo."

As declarações conciliatórias de Lavrov repercutiram na Ucrânia, onde o ministro das Relações Exteriores, Andriy Deshchytsya, se disse "encorajado". "Não temos conseguido conversar com os russos, mas enviamos mensagens por intermediários", disse.

O discurso de Lavrov, entretanto, contrasta com a informação de que o Ministério da Defesa da Rússia está pronto a suspender as inspeções estrangeiras de seu arsenal de armas estratégicas - que incluem o arsenal nuclear -, em resposta às ameaças de sanções vindas da Europa, dos EUA e da Otan. Além disso, na madrugada de sábado, militares tomaram à força, embora sem disparos, a base militar ucraniana de Yukharina Balka, no sul da Crimeia.

Pela manhã, embarcações teriam despejado na base russa de Sebastopol mais de 200 veículos militares, depois de cruzar o Estreito de Kerch, que separa os dois países. De acordo com o porta-voz das Forças Armadas da Ucrânia na Crimeia, Vladislav Seleznyov, um comboio de 60 caminhões se dirigiu de Feodosia em direção a Simferopol. Uma equipe da agência de notícias AP disse ter visto os militares circulando sem insígnias.

Paralelamente às movimentações diplomáticas e militares, o dia foi de protestos em várias cidades da Ucrânia. Na capital, Kiev, houve nova mobilização na Praça da Independência, centro do movimento pró-Europa. Já em Donetsk, no leste, pelo menos mil manifestantes pró-Rússia se mobilizaram na praça Lenin, empunhando bandeiras do país vizinho e uma faixa "Rus de Kiev", em referência ao Principado de Kiev, tido como o berço da civilização russa.

Mas foi em Simferopol que a tensão foi maior. Durante todo o dia, militantes pró e contra a anexação da Crimeia à Rússia desfilaram pela cidade. Cerca de 500 pessoas, empunhando bandeiras e faixas com as cores da Ucrânia, passaram em frente ao Parlamento, cercado de milícias pró-Rússia.

Houve momentos de apreensão quando russos cercaram jovens pró-Europa. "Eu sou de origem russa, mas nasci na Ucrânia e sou ucraniano", disse ao Estado o estudante de economia Serguei Andriyev, de 20 anos, falando sob o olhar de grupos opositores.

Volta à era soviética. O discurso do presidente da Rússia, Vladimir Putin, para justificar a invasão militar da Crimeia usa argumentos idênticos aos empregados pela União Soviética para justificar a repressão da Primavera de Praga, em 1968, na Checoslováquia.

A observação foi feita por intelectuais pró-Europa da Ucrânia. Entre eles está o cientista político checo Jacques Rupnik, diretor de Pesquisas do Instituto de Estudos Políticos (Sciences Po), de Paris. Segundo o especialista, o discurso de Putin na Ucrânia tem similaridades com diferentes momentos da história soviética.

Umas delas, de 1947, refere-se à exigência feita por Stalin ao presidente checo Tomas Masaryk de que abandonasse a adesão ao Plano Marshall, com o qual o Ocidente conquistou a fidelidade da Europa Ocidental. Uma exigência semelhante foi feita por Putin a Viktor Yanukovich, que foi "convencido" a renunciar a um acordo de associação com a União Europeia, em novembro, detonando a onda de insatisfação popular.

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